Vitória de Magyar é boa notícia para a UE e Ucrânia mas há reticências
Hungria/Eleições
Hoje 11:31
— Lusa/AO Online
"A
vitória de Péter Magyar traz esperança para uma mudança há muito
necessária. A UE tem tido um problema com a Hungria”, escreveu Fabienne
Hara, diretora do Programa Europeu do International Crisis Group,
organização não-governamental (ONG) pró-paz.O
primeiro-ministro ultraconservador, Viktor Orbán, no poder há 16 anos e
derrotado nas eleições legislativas de domingo, “não é um membro leal
da UE”, considerou, enumerando o uso sistemático do veto no Conselho
Europeu, a proximidade com a Rússia e a “aliança com forças populistas e
iliberais que visam mudar a natureza do projeto europeu por dentro”.“Uma
Budapeste mais orientada para a UE certamente facilitará as coisas, mas
vale a pena lembrar que Magyar continua a ser cético em relação à
integração ucraniana na UE. Também ainda não definiu a sua visão para o
papel da Hungria nas coligações em evolução que estão a tomar forma para
resolver problemas”, defendeu, por sua vez, Olga Oliker, diretora para a
Segurança Europeia da mesma ONG.Para
Lucian Kim, analista sénior da Ucrânia do International Crisis Group,
apontou que “a vitória convincente de Magyar pode ser uma boa notícia
para a Ucrânia, mas as rolhas de champanhe a estalar em Kiev escondem
algum ruído de fundo desagradável”. “Apesar
de Orbán ter tentado retratar o seu principal adversário como um
fantoche ucraniano, Magyar tem, na verdade, sido cético quanto à rápida
adesão da Ucrânia à UE e a mais ajuda para Kiev”, referiu o
especialista.Já Moscovo “não pode estar
feliz por perder Viktor Orbán”, comentou, por seu lado, Oleg Ignatov,
analista sénior da Rússia da mesma ONG. No entanto, “os laços da Hungria com a Rússia não desaparecerão num instante”, alertou.A
Hungria depende da energia russa. Em janeiro, um ataque russo danificou
o oleoduto Druzhba (significa ‘amizade’), que atravessa a Ucrânia, e o
abastecimento foi interrompido, o que gerou indignação de Orbán, que
retaliou contra Kiev ao vetar o empréstimo de 90 mil milhões de euros
aprovado pela UE. Para Ignatov, com Magyar
no poder, as relações entre Budapeste e Moscovo “provavelmente vão
reduzir-se ao estritamente pragmático”.Na
opinião de Piotr Buras, do escritório de Varsóvia do European Council on
Foreign Relations (ECFR), Magyar “retratou as eleições como uma escolha
entre Oriente e Ocidente e, uma vez no cargo, vai tentar reconciliar-se
com Bruxelas e com os principais Estados-membros da UE”.“O
principal indicador da viragem pró-europeia de Magyar seria o
levantamento da oposição de Budapeste ao empréstimo de 90 mil milhões de
euros para a Ucrânia e a abertura do primeiro grupo de negociações de
adesão de Kiev”, defendeu Buras.Numa
conferência de imprensa, na segunda-feira, em Budapeste, Péter Magyar
escusou-se a esclarecer a posição sobre o veto ao empréstimo, referindo
que ia falar com líderes europeus, enquanto reiterou a oposição a uma
adesão acelerada de Kiev ao bloco europeu.Péter
Krago, diretor executivo do Political Capital, um instituto de análise
política húngaro, lembrou que Magyar vai ter de aplicar medidas para
desbloquear milhares de milhões de euros retidos por Bruxelas por
violações do Estado de Direito e corrupção sistémica na Hungria,
dinheiro de que precisa para responder às dificuldades económicas que o
país atravessa e para melhorar saúde e educação. O
especialista disse acreditar que o futuro primeiro-ministro húngaro vai
contar com “a boa vontade” de Bruxelas, “garantida por Viktor Orbán ser
tão destrutivo”. “A UE vai fazer o seu melhor para ajudar Péter Magyar, mas também é preciso que lhe coloque exigências”, argumentou.As
eleições legislativas na Hungria no domingo, que contaram com uma
participação inédita de quase 80% dos cerca de oito milhões de
eleitores, ditaram o fim da era Orbán, cujo partido, Fidesz, elegeu 55
dos 199 deputados, com o Tisza, partido de Péter Magyar, a conquistar
uma super maioria, com 138 eleitos, a maior de sempre no parlamento
húngaro.