Vítimas de abusos sexuais pedem Igreja mais escrutinável e seleção exigente de membros
Hoje 16:10
— Lusa/AO Online
O relatório, da autoria do Grupo
VITA, reúne contributos de vítimas e sobreviventes de violência sexual
na Igreja Católica portuguesa no âmbito do projeto "Sobre.VIVER",
iniciado em setembro de 2025 com 25 participantes.Do
trabalho desenvolvido nos últimos oito meses resultaram dois
documentos, um "Guia de apoio e escuta para familiares e amigos" e
"Diretrizes para encontros entre vítimas, sobreviventes e representantes
da Igreja".O Grupo VITA é uma equipa
técnica, que se assume como autónoma e independente, criada em 2023 pela
Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) para acompanhar e prevenir
situações de violência sexual contra crianças e adultos vulneráveis na
Igreja Católica.O "Relatório Estratégico
para a Conferência Episcopal Portuguesa e Conferência dos Institutos
Religiosos de Portugal", hoje divulgado pelo Grupo VITA, visa "oferecer
às instituições da Igreja Católica em Portugal um conjunto de propostas
claras, fundamentadas e operacionalizáveis, capazes de reforçar a
prevenção, melhorar os processos de reparação e promover maior
responsabilização institucional".Segundo o
documento, a Igreja "deve dotar-se de critérios mais exigentes de
seleção, supervisão e capacitação" dos seus membros, a começar pela
"realização de avaliação psicológica" para os futuros padres antes da
sua entrada no seminário, seguindo-se um "acompanhamento contínuo ao
longo do percurso formativo e ministerial".As
vítimas pedem uma Igreja "mais escrutinável e mais alinhada com a
dignidade humana" e uma "mudança de práticas e condições institucionais
de exercício da autoridade", assinalando que "a estrutura hierárquica
vertical, a solenidade excessiva, o distanciamento entre clero e fiéis, a
opacidade nos processos internos e a sacralização da autoridade" são
fatores que "dificultam a denúncia, inibem a contestação e favorecem a
impunidade".O relatório salienta a
importância de "uma maior presença e intervenção de mulheres em
contextos eclesiais" e do reconhecimento dos abusos de poder e de
consciência, além dos sexuais, apontando que a reparação do dano é "uma
realidade muito mais ampla do que a compensação financeira".Para
os sobreviventes de abusos sexuais na Igreja Católica, o reconhecimento
do dano deve ser claro, a escuta genuína, os pedidos de perdão "sem
defensividade" e os encontros com as vítimas devem ser mediados por
"profissionais com formação em trauma" e ocorrer em espaços "neutros e
não intimidatórios".O documento propõe a
criação de "canais de denúncia" de abusos "funcionais e credíveis" em
cada diocese e congregação, a "definição explícita de códigos de
conduta, acessíveis e escritos", formação e "critérios claros e
uniformes" na seleção de todas as pessoas que trabalham com crianças,
jovens e adultos vulneráveis, nomeadamente padres, leigos, agentes
pastorais, consagrados e voluntários, como "verificação de antecedentes"
e "avaliação de competências relacionais".