Vítimas de abusos sexuais na Igreja pedem ajuda a associação após relatório
16 de fev. de 2023, 12:08
— Lusa/AO Online
Em
declarações à agência Lusa, o presidente da associação revelou que,
desde que a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na
Igreja Católica em Portugal divulgou publicamente, na segunda-feira, o
seu relatório final, várias vítimas contactaram a associação.“Só
nestes três dias nós recebemos cinco casos relacionados com os abusos
sexuais na Igreja”, todos homens acima dos 50 anos, revelou Ângelo
Fernandes.Segundo o responsável, alguns
destes homens já tinham contactado a própria Comissão Independente, e
todos “estão em crise” por causa dos testemunhos que ouviram e das
notícias que leram, tendo contactado a Quebrar o Silêncio à procura de
apoio psicológico e de ajuda para gerir “o que sentem relativamente ao
abuso”.“Quando a pessoa está em crise, nós
o que fazemos é uma estabilização emocional para que estes homens
possam, pelo menos, sentir alguma forma de alívio, antes de começar o
apoio psicológico”, explicou Ângelo Fernandes.De
acordo com o presidente da Quebrar o Silêncio, “esta semana tem sido
particularmente intensa para os homens que foram vítimas de violência
sexual na infância”.“Temos tido relatos de
homens que não conseguem descansar porque estão constantemente a ser
confrontados com estas notícias de abuso sexual”, adiantou,
acrescentando que isso tanto afeta homens vítimas de abusos sexuais na
Igreja, como noutros contextos.Ângelo
Fernandes apontou que, para muitas destas pessoas, o contacto com as
notícias mais recentes sobre os abusos sexuais na Igreja católica
obriga-as a “reviver constantemente as suas próprias histórias”.“Isto
é muito difícil de gerir para estes homens. Temos visto homens que
acabam por sofrer com o aumento de pensamentos sobre o abuso, memórias
indesejadas, a ansiedade atinge níveis muito altos”, apontou,
sublinhando que esta semana tem sido particularmente dolorosa para os
sobreviventes.Nesse sentido, o responsável
deixou o apelo para que às notícias sejam adicionados os contactos das
três associações especializadas no apoio às vítimas de violência sexual,
como a Quebrar o Silêncio (910 846 589/apoio@quebrarosilencio.pt), a Associação de Mulheres contra a Violência (213 802 165/ca@amcv.org.pt) ou a UMAR (914 736 078 / eir.centro@gmail.com).Na
opinião de Ângelo Fernandes, o momento é oportuno para voltar a
discutir o aumento do prazo de prescrição deste tipo de crimes,
lembrando que já em 2021 a associação tinha colaborado na redação de uma
proposta de lei que alargava o prazo para que as vítimas abusos sexuais
na infância possam apresentar queixa para 15 anos após a vítima
completar os 35 anos, ou seja, até aos 50 anos.Atualmente,
em Portugal, as vítimas de crimes sexuais contra crianças só podem
apresentar queixa até cinco anos depois de completarem 18 anos, ou seja,
até aos 23 anos, um prazo que a Quebrar o Silêncio consideram
insuficiente pelo facto de “a maioria das pessoas abusadas sexualmente
na infância demorar mais de 20 ou 30 anos a partilhar a sua história de
abuso”.A Comissão Independente para o
Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica sugeriu na
segunda-feira que se aumente até aos 30 anos de idade das vítimas o
prazo para que estas possam apresentar queixa relativa a abusos sofridos
na infância.O relatório da Comissão
Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja recebeu 512
testemunhos validados, o que permitiu a extrapolação para a existência
de, pelo menos, 4.815 vítimas, tendo sido enviados 25 casos para
Ministério Público.