Vítimas de abusos dizem que “cansaço” leva algumas a desistir de indemnização da Igreja
22 de set. de 2024, 12:00
— Lusa/AO Online
António
Grosso, da associação que reúne vítimas de abuso sexual na Igreja,
adiantou ter conhecimento de “algumas pessoas que já não estão para ir à
comissão de avaliação, que vão desistir”, por considerarem que “isto já
é muita chatice, nunca mais se resolve”.“Aliás,
quando saiu o regulamento [da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e
Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal para a atribuição de
compensações financeiras às vítimas], alguns contactos nossos diziam que
era tão complicado, que era para desistirmos”, acrescentou António
Grosso.Em causa, desde logo, o facto de as
vítimas que já haviam relatado o seu caso à Comissão Independente (CI)
para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja Católica
Portuguesa, presidida pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, serem obrigados
a contar de novo o que passaram no âmbito do processo desenvolvido pelo
Grupo VITA, criado pela CEP em 2023.Por outro lado, as vítimas também estão contra a não atribuição de uma indemnização igualitária, mas sim caso a caso. “Tudo
podia ser reduzido a uma solução singela e simples de uma compensação
financeira igualitária. Porque se é o próprio presidente da CEP que diz
que o sofrimento não tem preço, como é que é possível estabelecer uma
tabela de preços?”, questionou o responsável da Associação Coração
Silenciado.António Grosso disse, ainda,
ser “muito lamentável e uma grande tristeza que as coisas tenham de
passar pela polémica” que, nesta semana, se instalou entre a
coordenadora do Grupo VITA e os membros da CI.Tudo
começou com um artigo de opinião de Rute Agulhas, no jornal Expresso,
na terça-feira, no qual colocava em questão a validação de 512 casos
pela Comissão liderada por Strecht.“De
acordo com o relatório [da CI] apresentado por esse grupo de trabalho,
foram preenchidos 563 inquéritos ‘online’. Destes, foram eliminados 51
(…), foram validados 512. Mas o que significa ‘validados’? Esta é a
verdadeira questão que, até ao momento, parece por todos ser ignorada.
Porque, segundo o que é reportado no já referido relatório,
realizaram-se apenas 34 entrevistas com vítimas. Ora, e em relação a
todas as demais… o que foi efetivamente validado? Em rigor, nada, pois
estamos a falar de inquéritos anónimos preenchidos por pessoas com quem
nunca se esteve. Sabemos que noutros países várias pessoas já
reconheceram ter preenchido os inquéritos anónimos como forma de testar o
sistema, o que corresponde a falsas alegações. E sabemos que o mesmo
aconteceu no nosso país”, escreveu Rute Agulhas.No
mesmo texto, a psicóloga lamentava que “os dados relativos a todas as
pessoas que contactaram a CI” tenham sido destruídos, o que quer “dizer
que não se encontram documentados em lado nenhum. Logo, não existem”.Na
resposta, a CI, também no Expresso, assegurou que “todos os testemunhos
recolhidos pelas diferentes formas descritas no relatório final do seu
Estudo foram concretizados no âmbito da garantia prévia de um total
anonimato das vítimas. A esta garantia, juntava-se a de que esta
informação por elas fornecida seria apenas utilizada no âmbito deste
Estudo. Seguindo os protocolos da União Europeia de investigação
científica, a base de dados era da responsabilidade exclusiva da CI,
pelo que em caso algum poderia ser cedida a uma entidade externa”.“A
‘destruição’ da base de dados, em março de 2024 (de que a CEP teve
previamente conhecimento), seguiu protocolos de pesquisa utilizados em
temas considerados particularmente sensíveis, como é o caso de abusos
sexuais, vítimas e agressores”, acrescentou o grupo liderado por Pedro
Strecht.Em nota emitida, o Grupo
VITA refere que “no que respeita à validação das situações que a CI
afirma ter feito, e de acordo com a boa prática”, considera que “tal não
é passível de ser feito com rigor apenas com base em relatos escritos
anónimos. A validação de um relato (ou, dito de outra forma, a avaliação
da sua credibilidade) exige uma avaliação aprofundada, apenas possível
com uma ou mais entrevistas presenciais, tal como definido em protocolos
de avaliação forense nacionais e internacionais”.Ao
jornal ‘online’ 7Margens, o presidente da CEP, José Ornelas, disse que
os dados “não foram destruídos, foram depurados de tudo o que permitisse
ter acesso a informação sensível sobre” as vítimas.“Não
vale a pena fazer polémica sobre isto. A pessoa, sob anonimato, contou a
sua história. Só se a pessoa for ter com o Grupo VITA e disser que já
passou informação à CI é que se põe o problema” do eventual acesso aos
dados, no sentido de evitar que cada vítima esteja de novo a contar a
sua história. “E isso é um número reduzido”, acrescentou.Perante
tudo isto, António Grosso admitiu que “a resolução do problema está a
ser cada vez mais adiada, cada vez mais complicada, mais problemática,
quando deveria ser uma coisa simples, singela, rápida, e que poderia
estar resolvida há um ano. Mas andamos a tentar complicar tudo, o que
resultou num regulamento absolutamente absurdo de revitimização das
vítimas”.Crítico de Rute Agulhas, “que não
acredita na expressão de testemunhos validados pela CI”, o responsável
da Coração Silenciado sublinhou que aquela comissão “era constituída por
profissionais reconhecidos e teve um trabalho de um ano, um trabalho
longo de grande investigação”.Quanto à
Igreja, não esconde a desilusão, perante o que pensa ter presidido ao
ímpeto inicial: “Perante o relatório, pensaram que iriam pedir perdão e
acabava aí a telenovela, que não iria haver uma saga tão grande assim à
volta do tema”.Até ao fim de setembro, a
Associação Coração Silenciado prevê tomar posição pública sobre o
processo indemnizatório e as polémicas.A
Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) aprovou em abril a criação de um
fundo, “com contributo solidário de todas as dioceses”, para compensar
financeiramente as vítimas de abuso sexual no seio da Igreja Católica em
Portugal.“Para dar seguimento a este
processo, a Assembleia definiu que os pedidos de compensação financeira
deverão ser apresentados ao Grupo VITA ou às Comissões Diocesanas de
Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis entre junho e dezembro de
2024”, anunciou a CEP no final da sua Assembleia Plenária realizada em
Fátima entre 08 e 11 de abril.Segundo o episcopado, “posteriormente, uma comissão de avaliação determinará os montantes das compensações a atribuir”.O
Grupo VITA foi criado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em
2023, na sequência do trabalho da Comissão Independente para o Estudo
dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica - que ao longo de
quase um ano validou 512 testemunhos de casos ocorridos entre 1950 e
2022, apontando, por extrapolação, para um número mínimo de 4.815
vítimas.