Visão africana da moda adaptada a conceitos europeus encerra ModaLisboa

13 de mar. de 2010, 13:13 — Lusa / AO online

"Como peregrinos das Europas temos vivido experiências muito fortes e daí chegámos a este projeto de fazer o afro-ocidental. Adaptamos as tendências de tecidos usados pelo mundo europeu com uma nova roupagem, tendo em conta a nossa visão africana", disse em entrevista à Lusa o designer de moda Shunnoz. A marca Mental arrancou no mercado angolano, como explicou Tekasala, "com o objetivo primário de usar a arte da moda para participar na revolução comportamental que Angola vivia depois do término da guerra civil". "O segundo objetivo era tirar a marca Mental de Angola e levá-la para o mundo e isso é que nos trouxe a Lisboa", disse. A presença na ModaLisboa é, para a dupla, de "suma importância", porque significa um intercâmbio entre Angola e Portugal. "Sendo nós os primeiros a peregrinar neste domínio é um ponto de unificação, um ponto de ligação muito forte que poderá ser o despertar de uma amizade em termos profissionais de um compromisso muito sério", referiu Shunnoz. Tekasala lembrou que o intercâmbio cultural entre os dois países já existe, mas que com a moda é diferente e que podem ser eles a alterar o cenário existente. "Os designers de moda vão para Angola mostrar os trabalhos há um bom tempo. No outro sentido não havia tráfico e acho que este talvez seja o princípio do inverso", afirmou. Shunnoz assume que não é fácil definir uma moda angolana, porque para falar de moda é necessário referir todo um sistema composto por indústria, designers, engenheiros têxteis, e isso Angola não tem. "Temos indústrias adormecidas, que provavelmente a era colonial deixou, mas como não se fomentou, aquilo está adormecido até hoje", disse. O desfile das propostas da Mental marca, às 21:30 de domingo, o encerramento da ModaLisboa, "uma honra" para a dupla angolana. "O melhor da vida está no fim. Toda a espécie de relacionamento humano, em todos os aspetos, o princípio é sempre uma euforia é o explodir, o rebentar o brotar, mas o fim é o resultado de todo um princípio", defendeu Shunnoz. Serem os últimos representa, nas palavras do designer, "a justiça vestuária". "A dança das nossas roupas representa musicalidade da nossa intenção e acima de tudo a poesia dos dizeres que cada peça de roupa poderá transmitir às pessoas. Esperamos que a sociedade portuguesa possa enfim consumir o nosso produto", disse Shunnoz. Para o próximo outono/inverno, Shunnoz e Tekasala apostam numa colecção "multi-colorida que tem como tema tecido-adaptação" e junta na mesma passerelle peças feitas a partir de materiais pouco usuais em moda, como cobertores e cortinados, e tecidos mais convencionais como lãs, algodões e cetins. A certeza que temos é que vamos trazer aqui uma coisa que é nova, que Portugal talvez nunca tenha visto porque veio de fora. E este é um grande privilégio para nós, podermos mostrar o que é nosso", concluiu Tekasala. A 34.ª edição da ModaLisboa, a primeira depois de cinco em Cascais, iniciou-se quinta feira e termina no domingo. Os desfiles decorrem no Páteo da Galé (Terreiro do Paço) e no Museu do Design e da Moda.