Violência de filhos contra pais duplica nos Açores entre 2021 e 2025
Hoje 10:47
— Filipe Torres
O número de mães e pais vítimas de violência por parte dos próprios filhos nos Açores praticamente duplicou entre 2021 e 2025, segundo dados divulgados pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). O relatório “Filhas/os que agridem mães ou pais | 2021-2025” revela que foram apoiadas 23 vítimas na Região Autónoma dos Açores em 2021, número que aumentou para 46 em 2025, ou seja, o número de casos duplicou na Região.No total, entre 2021 e 2025, a APAV apoiou 161 mães e pais vítimas deste tipo de violência na região, embora apenas 158 casos tenham sido identificados por município. Os restantes três foram registados nos Açores sem identificação do concelho de residência.O município de Ponta Delgada concentra o maior número de vítimas apoiadas ao longo dos últimos cinco anos, com um total de 77 casos. Só em 2025 foram registadas 24 vítimas naquele concelho. Seguem-se Lagoa, com 24 casos apoiados entre 2021 e 2025, e Ribeira Grande, com 20 vítimas.Depois das 23 vítimas registadas em 2021 e 19 em 2022, o número aumentou para 31 em 2023, subindo para 39 em 2024 e atingindo 46 em 2025. Foram ainda registados casos em Angra do Heroísmo (8), Vila Franca do Campo (19), Nordeste (4), Madalena (2), Praia da Vitória (3) e Vila do Porto (1).Violência emocional efinanceira na maioria dos casosEm declarações ao Açoriano Oriental, a coordenadora da APAV nos Açores, Sílvia Branco, admite que este tipo de situações se tornou mais evidente no período pós-pandemia.“Muitas pessoas perderam os empregos e as habitações e acabaram por regressar à casa dos pais”, explica, acrescentando que, em vários casos, os filhos passaram a impor rotinas e comportamentos aos pais idosos, criando situações de tensão e dependência dentro do agregado familiar.Segundo a responsável, muitas vítimas vivem em situação de vulnerabilidade e, em alguns casos, nem sequer podem entrar em certas divisões da casa em certas horas. Há também situações em que os filhos não contribuem para as despesas da casa, agravando a pressão financeira sobre os pais.Sílvia Branco explica ainda que muitas vítimas não têm consciência imediata de que estão a ser alvo de violência. “Normalmente os pedidos de ajuda não são feitos pela própria vítima. Muitas vezes são familiares, vizinhos ou pessoas próximas que entram em contacto para perceber se aquela pessoa está numa situação de violência”, afirma ao Açoriano Oriental.A coordenadora da APAV nos Açores aponta os vícios, sobretudo relacionados com álcool e drogas, como um dos fatores mais presentes nestes casos. “As novas drogas também estão a contribuir para este fenómeno”, alerta. Segundo explica, quando os agressores deixam de conseguir suportar financeiramente os consumos, os episódios de violência física tendem a tornar-se mais frequentes.Além da violência física, a APAV acompanha também casos de violência psicológica e financeira. “Muitas vítimas sentem vergonha e não querem avançar para tribunal”, afirma Sílvia Branco, acrescentando que o apoio emocional dado por testemunhas e pessoas próximas acaba por ser essencial para que algumas situações sejam denunciadas.A coordenadora regional explica ainda que, em determinadas circunstâncias, a própria APAV acaba por denunciar os casos às autoridades devido à vulnerabilidade e ao estado de saúde das vítimas. “Há situações em que percebemos que existe risco e fragilidade suficientes para avançar com a denúncia”, afirma ao Açoriano Oriental.Aumento de 39,6% no paísA nível nacional, a APAV apoiou 4804 mães e pais vítimas de violência exercida por filhos entre 2021 e 2025, verificando-se um aumento de 39,6% neste fenómeno. A maioria das vítimas apoiadas são mulheres, representando 79,4% dos casos, sendo também predominantes as pessoas com 65 ou mais anos. Entre os agressores, predominam os homens, que representam 69,5% dos casos.O relatório alerta ainda para a persistência deste tipo de violência no contexto familiar. Mais da metade das vítimas sofreu vitimação continuada e quase metade não apresentou queixa ou denúncia às autoridades.A APAV considera que a violência exercida por filhos contra mães e pais continua a ser uma “realidade pouco visível e frequentemente silenciada, marcada por sentimentos de culpa, vergonha, medo e isolamento”.A associação dá apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, através da Linha de Apoio à Vítima (116006).