Violação do regulamento nas urgências pode retirar capacidade formativa
3 de ago. de 2022, 11:32
— Lusa/AO Online
“A
questão de exceder as horas extra de trabalho previstas – as tais 150 -,
assim como a eventualidade de [os médicos internos] poderem não estar
acompanhados é fundamental”, disse à Lusa o presidente do Colégio da
Especialidade de Ginecologia/Obstetrícia da Ordem dos Médicos (OM), João
Bernardes, sublinhando que, no limite, pode levar à perda da idoneidade
formativa atribuída pela Ordem aos hospitais.De
acordo com João Bernardes, o colégio de Ginecologia/Obstetrícia da OM
ainda não recebeu a carta, divulgada na terça-feira, que os médicos
internos enviaram à ministra a informar que entregaram minutas de
escusas de responsabilidade, para serem usadas sempre que estiverem
destacados para trabalho em urgência e as escalas não cumprirem o
regulamento.Sublinhou: “a questão de se
exceder as horas extra de trabalho previstas [150/ano] e a eventualidade
de poderem não estar acompanhados é fundamental para a ordem e para os
colégios”.O responsável explicou que
sempre que os colégios da especialidade fazem visitas para atribuir
idoneidade formativa a um serviço verificam se essas condições estão a
ser cumpridas, “quer junto dos diretores e dos conselhos de
administração, quer junto dos especialistas e também dos internos”.O
cumprimento do regulamento “é um ponto fundamental na garantia da
segurança e na formação dos internos” e, quando não é reiteradamente
cumprido, a Ordem dos Médicos “terá de atuar porque isso pode por em
causa a capacidade formativa dos serviços” para receberem internos,
afirmou.Questionado pela Lusa, João
Bernardes disse que até ao momento o colégio da especialidade não
recebeu qualquer queixa formal, mas explica que, nas visitas de
idoneidade aos serviços que o colégio faz todos os meses (uma a duas)
tem verificado “que há sempre pontualmente situações deste tipo”.“Damos
sempre um prazo para resolver esse problema e, se não for resolvido,
temos de por em causa a idoneidade do serviço e comunicar essa
situação”, acrescentou.Explicou que todos
os anos a OM recebe respostas a inquéritos que faz a todos os serviços
que têm formação e que faz revisitas de cinco em cinco anos, ou “sempre
que há problemas”.“Como tem havido muitos
problemas nos últimos anos temos feito muitas revisitas”, revelou,
acrescentando: “Há serviços em que num espaço de um ano fizemos duas ou
três revisitas”.O responsável insistiu no
cumprimento do regulamento e explicou: "exceder as horas extra é uma
questão de segurança clínica, para eles [internos] e para os doentes,
mas também um problema na formação. Se eles tiverem muitas horas na
urgência não têm tempo para fazer formação em ecografia ou em bloco
operatório, por exemplo”.João Bernardes
sublinhou que a prioridade é “cativar as pessoas”, não só para que
entrem no SNS, mas para que não saiam: “É preciso condições para que
eles entrem e não saiam. Temos tido especialistas a não quererem
concorrer e ainda agora, no último concurso, houve especialistas que não
ocuparam as vagas”.Lembrou ainda que não se trata apenas de questões remuneratórias.“Não
é só uma questão remuneratória. É preciso que os concursos sejam
previsíveis: temos verificado que só no fim do internato é que os
internos constituem família (…) e se nessa altura não fazem a mínima
ideia onde podem ficar, vão tentar resolver o problema ou no próprio
Estado [como tarefeiros] ou no privado”.“Depois,
tem de haver uma previsibilidade da progressão na carreira, abrir
vagas, saber quando abrem as vagas para assistentes graduados, para
assistentes graduados sénior. Estamos sem assistentes graduados sénior
no SNS. E tem de haver um bom ambiente em termos de formação e um bom
ambiente de trabalho em termos de instalações e equipamentos”,
acrescentou.“Na pandemia falou-se muito em
quem estava da primeira linha e a certa altura essa primeira linha era
muito espessa. Mas a linha era muito fina, muito ténue… e a primeira
linha era dos internos. Foram eles que vestiram aqueles escafandros,
naquela fase de terror, e foram eles que foram para a linha da frente.
Antes de entrarem nos hospitais, nos cuidados intensivos e nos outros
serviços, os internos estavam na primeira linha, nas tendas”, insistiu.Questionado
sobre a formação destes profissionais, explicou que o curso de medicina
(mestrado integrado) tem a duração de seis anos e, no caso da
especialidade de ginecologia/obstetrícia, há mais sete anos até se ser
considerado especialista (um ano de treino geral, o chamado ano comum, e
mais seis de internato). Os internos fazem provas anuais e, no fim, uma
prova nacional.Alem desta formação,
explicou João Bernardes, se depois o especialista quiser ter competência
nalguma subespecialidade – como, por exemplo, a ecografia obstétrica –
terá mais dois ou três anos de formação.