“Vim para os Açores para propagar ao mundo esta cultura pela qual me apaixonei”
19 de abr. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
Eleonora Marino Duarte, atriz,
encenadora e poeta, reside em São Miguel desde 2009 e já se sente
uma açoriana, pese embora ter levado cerca de dois anos para se
sentir em casa. Natural do Brasil, escolheu os Açores, talvez por
impulso, mas também porque acredita em sinais, e há 17 anos teve
todos os sinais. “Juntei 32 kg de vida e vim para os Açores”,
disse-nos. Ora, esta é uma história que vamos contar mais à
frente. Primeiro vamos fazer uma viagem com Eleonora Marino Duarte à
sua infância. Começa por falar da sua cidade natal, Petrópolis,
uma cidade “fundada por D. Pedro I, no meio da Mata Atlântica,
cercada de hortênsias. É muito fria, muito húmida, muito parecida
com os Açores, com a névoa, só não tem mar”. Em Petrópolis,
existe a Catedral São Pedro de Alcântara, “talvez tenha sido a
catedral que mais visitei na minha infância. Íamos todos os
domingos à missa com a minha mãe, que era uma mulher muito
religiosa. Para chegarmos a esta catedral, passávamos por lugares
lindíssimos, entre eles a Avenida Koeler, onde tem casas
maravilhosas dos ricalhaços. Então, todo esse imaginário fazia
parte da minha infância e recordo-me muito disso. Também recordo a
primeira vez que li poesia, que foi justamente nos vitrais dessa
catedral (…)”. No entanto, na sua casa “acho que todo mundo era
artista. A minha mãe era apaixonada por cinema, a minha avô paterna
fazia verdadeiros sarais culturais, o meu pai era apaixonado por
ópera, por literatura, (...) tínhamos grandes bibliotecas em casa.
Fui criada com boa música, boa literatura e bom cinema”.
Estudou no Instituto Carlos Alberto
Werneck, uma escola “muito voltada para a cultura, onde tínhamos
aulas de música, teatrinhos”. Ali fez o primário. Porém, em
1982, a “minha mãe faleceu - o meu pai já tinha falecido em 1972
– e a minha vida mudou completamente”. Eleonora e os irmãos
(duas irmãs mais novas e um irmão mais velho) foram viver com um
tio no Rio de Janeiro. “Ia completar 13 anos. Na casa do meu tio -
comunista - recebi toda a informação social, toda a informação
como cidadã e toda a informação política que fez um ‘mix’ na
minha cabeça”. Confessa que no início foi difícil, contando, por
exemplo que “eu e as minhas irmãs, estávamos acostumadas a ter as
nossas roupinhas e o meu tio dizia que eram dois pares de sapatos, um
para sair, outro para ficar em casa, o resto é burguês”. Contudo,
foi o tio que “nos ensinou a partilhar e foi ele que me colocou
numa companhia de teatro, isto porque, quando chegamos a sua casa
estávamos naquela depressão por termos perdido a nossa mãe e ele
disse: ‘Essas meninas precisam é de arte’. Eleonora Marino
Duarte foi para o Grupo de Artes e Teatro da Ilha do Governador que,
atualmente, é a companhia de teatro mais antiga em exercício do Rio
de Janeiro. Lá “o mundo abriu-se para mim... realmente a arte
cura”. (…) Esteve em cena nessa companhia durante 13 anos, altura
em que decide vir para os Açores.
É com muita boa disposição que nos
diz que “gostaria de ter uma história maravilhosa para contar, do
género de me ter apaixonado e vim para os Açores, mas não foi nada
disso”, enaltecendo que “primeiro sou uma pessoa muito mística,
acredito em tudo o que não vejo, muito mais do que aquilo que vejo.
Acredito em energia, em sinais (...)”, explicando ainda que
“comecei a estudar o Kardecismo, depois entrei para a Umbanda - uma
religião brasileira que mistura a religião dos negros e dos índios
e, um pouco do catolicismo português. Portanto, para mim, tudo o que
nós não vemos existe, tanto quanto aquilo que nós vemos”.
Para nos contar como chegou aos Açores,
Eleonora relata-nos que a multinacional onde trabalhava sofreu uma
reformulação e, “um ano depois de me ter separado do meu
companheiro da vida toda, a empresa foi vendida e foram demitidos 80
funcionários e fui nesse bolo”. Nessa altura foi trabalhar para o
Aeroporto Internacional Tom Jobim, numa loja de souvenir. Um dia
entrou “uma senhora muito animada que tinha perdido o voo do Rio
para São Paulo e ficou ali, mas pensei: ‘ela é portuguesa, mas
esse sotaque não é aquele que estou acostumada’”. A senhora
explicou que era da ilha Terceira e “eu sem saber onde é que era,
ela disse nos Açores, e fiquei na mesma. Então mostrou-me no
computador os Açores e apareceu a Lagoa do Fogo”. Foi este o sinal
que recebeu. Diz-nos que “sou espiritualista, sou filha de Emanjá
que é água e sou filha do orixá que tem fogo (...) fiquei
encantada”.
Os primeiros tempos em São Miguel
foram difíceis. Confessa que sofreu com o preconceito de ser
brasileira (…), mas “fiquei e passei um ano a tentar entender
quem era o povo açoriano (...). Percebi que eram pessoas muito mais
pé no chão, mais sofridas, muito mais corajosas. (…)”.
Estudando mais profundamente a história dos Açores “descobri que
a colonização dos Açores deu-se da mesma maneira que a brasileira.
(...) Percebi que para o povo açoriano qualquer coisa que venha de
fora é uma ameaça (…) Então, comecei a mostrar para as pessoas
açorianas que não vim para tirar, vim para acrescentar, para
entender a cultura e para propagar o máximo possível ao mundo esta
cultura pela qual me apaixonei”. Conseguiu a cidadania portuguesa
em 2010, até porque “o pai da minha mãe nasceu na Serra da
Estrela, era alfaiate e foi para o Brasil (...). ”Em dois anos “a
minha vida já estava ótima”. Porém, não se esquece do dia em
que se sentiu uma açoriana. “A 30 de agosto de 2011, estava saindo
da minha casa e uma senhora (de uma loja em Ponta Delgada) disse-me:
‘Olá, vizinha’ (...).
Por cá, Eleonora Marino Duarte
trabalhou em diferentes áreas até que abriu “concurso para
Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada e fiquei. É
o meu paraíso, o meu céu”. Na biblioteca, podemos encontrá-la na
Sala Mundo, “um conceito que criei e foi aceite graças a ter uma
diretora fantástica, a Dra. Iva Matos. Faço diversos eventos como a
‘Biblioteca Fora de Portas’, em que uma vez por mês vou à
Associação de Alzheimer. Temos um projeto com o Novo Dia, em que os
utentes vêm à biblioteca e passo curtas metragens com temáticas e
conversamos sobre esses temas. Também faço mediação de eventos e
o que aparecer (...)”.
Paralelamente, nunca deixou a arte de
parte. Criou ‘O Coletivo’, um “núcleo que composto por si e
por Gonçalo Borges, Carla Veríssimo, Luís Andrade, João
Malaquias”. Ensaiavam na casa Armando Côrtes-Rodrigues/ Morada da
Escrita e “fazíamos tertúlias, batalhas de poesia (…). Também
estive no Lava Jazz durante sete anos, que é uma proeza ter um show
de poesia (...)”. Estreia no dia 24 de abril, a peça “Quando o
Mar Galgou a Terra e algumas considerações”, no auditório da
Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que diz ser uma homenagem aos
açorianos. “É a minha declaração de amor aos Açores, a minha
gratidão por estas pessoas me receberem tão bem, me terem aceitado,
respeitarem o meu trabalho, permitirem que esteja aqui”.