Video-interpretação para utentes surdos não chega a todo o HDES

Hoje 15:27 — Daniela Arruda

Em fevereiro, o Hospital Divino Espírito Santo (HDES) anunciou o SERViiN como uma solução que prometia facilitar a comunicação entre a comunidade surda e os profissionais de saúde. Através de uma aplicação, o utente podia comunicar com o auxilio de um intérprete em Língua Gestual Portuguesa em tempo real. Mas, para isso, é preciso internet, coisa que não chega a todo o edifício do HDES.Na prática, um utente surdo consegue comunicar num gabinete, por exemplo, mas sai para o corredor ou para fazer um exame, perde a ligação e deixa de conseguir comunicar. Esta dificuldade foi mencionada numa audição com o Conselho de Administração do HDES numa reunião da Comissão dos Assuntos Sociais que serviu para discutir a implementação do Modelo de Apoio à Vida Independente.  A Administração do hospital admite que, apesar das garantias de que havia condições para aceder à aplicação dentro do edifício, a verdade é que quando foi posto em prática não foi bem assim.O HDES está agora a preparar a instalação de 480 pontos de Wi-Fi. A primeira reunião com a equipa técnica da empresa que gere o SERViiN aconteceu a 31 de agosto e espera-se agora que seja divulgado um cronograma para os trabalhos. A previsão é que até ao final  deste ano a rede já esteja operacional, mas ainda não foi dada uma data para os circuitos clínicos mais urgentes estarem concluídos. No futuro, o hospital está disposto a garantir que o SERViiN funcione 24 horas por dia, sete dias por semana. Sendo que agora o serviço está previsto de segunda a sexta-feira.Mas mesmo que a rede funcione em todo o hospital, Paula Macedo, diretora clínica do HDES, sublinha que a tecnologia não substitui uma bolsa de intérpretes. E dá como exemplo consultas mais sensíveis, como na área da psiquiatria e psicologia. Nestas situações, a comunidade surda defende que o intérprete deve estar presencialmente e, sempre que possível, ser o mesmo profissional. Está em causa também a privacidade do utente e a relação de confiança durante as consultas. Portanto, meses depois do HDES ser notícia por vir a derrubar barreiras entre a comunidade surda e o acesso à saúde, sabe-se que afinal pouca coisa mudou para estas pessoas. Modelo de Apoio à Vida IndependenteO Governo Regional começou a testar este ano, na RIAC, uma solução tecnológica semelhante à que já foi implementada no HDES. A ideia é ter acesso através de tablets a intérpretes de Língua Gestual Portuguesa à distância. Duarte Freitas, secretário regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública, falou ainda da intenção de haver formação inicial em Língua Gestual, no Centro de Formação da Administração Pública dos Açores (CEFAPA), para os funcionários que fazem atendimento ao público. Contudo, a Delegação de São Miguel da Associação Portuguesa de Deficientes, considera que esta formação é um desperdício de recursos financeiros, uma vez que não é só aprender, é preciso praticar para depois não esquecer.A formação destinada aos assistentes pessoais é também uma preocupação para a associação. As 30 ou 50 horas de formação previstas nas propostas do Bloco de Esquerda e do Chega são importantes, mas só como formação base. É preciso que depois haja formações específicas para os assistentes pessoais consoante as necessidades dos utentes que acompanham. A associação defende ainda que o apoio deve também chegar às pessoas com deficiência mais severa, mesmo quando estas não têm capacidade para decidir autonomamente. Uma das dificuldades mencionadas durante a audição prende-se com a dificuldade  de atrair profissionais qualificados para este tipo de serviço, ainda para mais nas ilhas mais pequenas.Por isso, a associação admite que começar com um projeto-piloto pode ser a melhor forma de perceber o que é preciso e testar o modelo. Contudo,  não deixa de parte a possibilidade de já ser criada uma estrutura legislativa: “O receio é que seja criado um plano enorme e depois não se consiga pôr em prática. O que a associação quer é que o plano saia do papel, seja de uma maneira ou de outra”, sublinhou Débora Cabral, da Delegação de São Miguel da Associação Portuguesa de Deficientes.