Vida no limbo para meio milhar portugueses em risco de serem deportados dos EUA
9 de out. de 2017, 11:27
— Lusa/AO online
"Quando
Trump anunciou a sua decisão, não foi um choque. Era uma das suas
promessas de campanha, ele acredita que o programa é uma amnistia
ilegal. Já estávamos a preparar-nos psicologicamente para isto desde a
sua vitória", disse Brigida, mãe de Iuri, à agência Lusa. O jovem
de 16 anos é um dos 520 portugueses que podem ser deportados devido à
decisão do Presidente americano de terminar o Deferred Action for
Childhood Arrivals (DACA). Estes portugueses concentram-se nos estados
de Massachusetts, Nova Jérsia e Califórnia. O programa, que foi
lançado em 2012 por Barack Obama, permite aos jovens receberem proteção
contra deportação, autorização de trabalho e número de segurança social. Neste
momento, perto de 800 mil pessoas usufruem das suas proteções, o que
lhes permitiu ir para a universidade, trabalhar de forma legal, visitar o
país de origem e ter carta de condução. As únicas diferenças
destas pessoas para um cidadão norte-americano é que não têm passaporte,
não podem votar e correm risco de deportação caso cometam algum crime. Iuri
chegou a Newark, em Nova Jérsia, com apenas três anos, trazido pelos
pais. Os seus dois irmãos mais novos, nascidos no país, já são
americanos, mas Iuri e os pais continuam sem cidadania. "Não nos
preocupamos tanto com a nossa situação, porque decidimos vir sem
documentos, enquanto adultos. Mas tomámos a decisão pelo Iuri, que era
um bebé, e isso é difícil enquanto pais", explica Brigida. Iuri
estava protegido pelo programa desde fevereiro de 2016. Segundo a
decisão da administração republicana, os jovens cuja licença termina
antes do fim do programa, a 5 de março do próximo ano, podiam
candidatar-se à renovação por mais dois anos. "Enviámos o pedido
de renovação logo em setembro. Já fomos à entrevista e tirar impressões
digitais, mas ainda não recebemos a renovação. É muito importante
receber, porque são mais dois anos em que o Iuri estará protegido",
lembra Brigida. Quando a Casa Branca anunciou a decisão em
setembro, deu um prazo de seis meses para o Congresso encontrar uma
solução legal para as pessoas protegidas pelo programa. "Eu
acredito que vão aprovar uma nova lei. Mas será muito restrita, com
muitas condições para que estes jovens possam um dia ser cidadãos", diz
Brigida. Uma solução legislativa tem apoio nos dois partidos,
tanto na Câmara dos Representantes como no Senado, mas enfrenta forte
oposição de alguns republicanos e uma agenda já muito preenchida, com a
reforma fiscal, a aprovação de um novo orçamento e um novo limite de
endividamento do país. "Um dos planos que foi apresentado pelos
republicanos, cria um período de 15 anos até que possam ser cidadãos,
com várias exigências como ir para a universidade ou ser militar. É
exigente, mas seria melhor do que nada", diz Brigida. Iuri, que
planeava ir para a universidade usando as proteções legais do programa,
considera agora juntar-se às forças armadas americanas se isso lhe
oferecer um caminho para a cidadania americana. "É algo que ele nunca tinha considerado, mas se essa acabar por ser uma das opções, ele diz que se alista", diz Brigida.