12 de ago. de 2008, 11:35
— Helena Fidalgo, Lusa/AO online
Na Internet dos tempos modernos, circulam versões invertidas e adaptadas à delinquência juvenil e aos "reality-shows" das fábulas que utilizam o lobo para exorcizar os males humanos.
Vinte anos passados da lei que protege este animal ainda serão em número superior os que continuam a contar as mesmas fábulas, mas oficialmente já se reconhece uma "mudança de atitude" para com esta espécie.
O Nordeste Transmontano é exemplo disso e um dos últimos redutos do lobo em Portugal, segundo o biólogo do Parque Natural de Montesinho (PNM), Luís Miguel Moreira.
No espaço equivalente ao distrito de Bragança concentra-se um terço da população de lobos do país, constituída por cerca de 300 animais, segundo números oficias, confinados ao norte de Portugal e às duas margens do rio Douro.
"Hoje em dia para a maioria do transmontano, o lobo é um símbolo da conservação da natureza, do património de Trás-os-Montes e da tolerância do Homem para com o meio que o rodeia", explica à Lusa Virgínia Pimenta, quadro do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), que assina o prefácio do livro "O Lobo".
Da autoria do biólogo Luís Miguel Moreira, este trabalho sobre o património natural transmontano faz o retrato da espécie na região antes e depois de ter sido declarada protegida, a 13 de Agosto de 1988, por uma das poucas leis aprovadas por unanimidade na Assembleia da República.
Um lobo, o Julião, foi quem marcou a viragem na atitude em relação à espécie, ao ser o primeiro salvo por populares, há quinze anos.
Em vez de deixarem o animal abandonado à sua sorte, as gentes de São Julião, uma aldeia do PNM, chamaram as autoridades para o salvar do laço em que ficou preso.
Estas armadilhas montadas para caçar ilegalmente javalis continuam a ser a principal causa de morte do lobo na região, segundo o biólogo, apesar de menos visíveis que outras, como os atropelamentos, que encabeçam as estatísticas.
Luís Miguel conheceu o Julião, que passou a integrar com mais três animais um programa de monitorização, com coleiras radioemissoras, que permitiu saber mais acerca da espécie.
O lobo Julião apareceu morto, alguns anos depois, em Espanha, mas deixou como legado um melhor conhecimento das alcateias, habitualmente constituídas pelo par reprodutor e a descendência.
Caçam em grupo e cada alcateia utiliza uma determinada área, que pode ter várias centenas de quilómetros quadrados e como não conhecem fronteiras, no caso de Montesinho, é frequente circularem entre os dos lados da raia.
Conseguem fazer diariamente 20 a 40 quilómetros e são mais activos depois do pôr do sol e ao nascer do dia, passando grande parte do tempo a descansar.
E a vida parece correr cada vez melhor ao lobo no Nordeste Transmontano, segundo os técnicos do parque, que garantem que "cada vez têm mais presas selvagens".
"Está cada vez melhor para os bichos, porque há cada vez menos agricultura, mais mato, floresta e sossego", garante Luís Miguel, assegurando também que a população de lobos se "mantém estável" nesta região.
As presas mais frequentes são javali, veado, corso, o que não falta nesta região.
Uma das mais aplaudidas medidas para a conservação do lobo é a atribuição de indemnizações pelos prejuízos causados no gado doméstico, que ainda alimentam alguma animosidade das populações para com o lobo, assim como os atrasos nos pagamentos por parte do ICNB.
De acordo com dados fornecidos pelo instituto à Lusa, os atrasos são da ordem de um ano e meio e estão por pagar cerca de 900 mil euros de indemnizações.
O ICNB pagou, já este ano, o segundo semestre de 2006 e espera liquidar, até ao final do ano, o primeiro semestre de 2007.
"Se é notícia não é lobo", assegura José Rosa, outro técnico do PNM, explicando que "quando estes casos chegam à comunicação social há litígio porque os proprietários teimam em reclamar prejuízos que comprovadamente não são causados pelo lobo".
Os técnicos acreditam que os danos, sobretudo nos rebanhos de ovelhas, "ocorrem mais por mau maneio e falta de guarda do que por iniciativa do lobo, que só ataca quando tem oportunidade".
Os javalis ou os veados causam tantos ou mais prejuízos na agricultura, mas ainda assim não são tão mal vistos como o lobo, que quase foi exterminado de Portugal durante as décadas de 1970 e 1980.
O biólogo Luís Miguel escreve no seu livro que "com o maior acesso às armas de fogo aumentou a perseguição do Homem a esta espécie até que foi declarada protegida".
"A partir desta data a maioria das pessoas tornou-se mais tolerante", observou.
Apesar de todas as fábulas e mitos em volta do lobo, quem anda no terreno garante que poucos são os que alguma vez já viram um.