Vício da raspadinha atinge cerca de 100 mil adultos
19 de set. de 2023, 17:42
— Lusa
O
retrato é traçado no estudo nacional “Quem paga a raspadinha?”,
realizado pela Universidade do Minho para o Conselho Económico e Social
(CES), que foi divulgado hoje em Lisboa no evento “Apresentação dos
resultados da 1ª fase do Projeto de Investigação - Quem paga a
raspadinha?”Segundo o estudo, que validou
2.554 entrevistas, “o consumo frequente de raspadinhas é mais comum nas
pessoas com baixos rendimentos”, precisando que é três vezes mais
frequente numa pessoa com rendimentos entre os 400 e os 664 euros por
mês do que nas pessoas com mais de 1.500 mensais.A
aposta neste jogo também é mais comum nas pessoas com ensino básico e
secundário (5.8 e 3.9 vezes maior probabilidade do que as pessoas com
mestrado/doutoramento).Outra das
conclusões do estudo nacional aponta que são as mulheres (53,15%) quem
apresenta mais problemas com o jogo, contra 46,85% dos homens.Dos
221 inquiridos que dizem jogar regularmente, 112 (51%) afirmaram que
jogam semanalmente, 91 (41%) mensalmente e 18 (8%) diariamente.A
investigação conclui que 3,09% dos adultos estão em risco de
desenvolver problemas de jogo e estima que esses problemas possam afetar
1,21% da população adulta. Contactado
pela agência Lusa, o psicólogo e coordenador do Instituto de Apoio ao
Jogador, Pedro Hubert, admitiu que o instituto recebe pessoas com
problemas relacionados com a raspadinha. “Só
não recebemos mais em grande parte porque, sendo um instituto
particular e privado, muitas vezes as pessoas não têm capacidade
financeira para pagar” os tratamentos.O
técnico de aconselhamento em adições na área do jogo patológico referiu
que, tal como diz o estudo, quem mais aposta na lotaria instantânea
(raspadinha) da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa “são pessoas com
menos capacidades económicas, muitas vezes com maior idade, menores
estudos e muitas vezes com problemas de ansiedade ou depressão
associados”.Observando que a raspadinha
“está muito implementada do ponto de vista cultural, social”, com as
pessoas a jogarem e a oferecerem raspadinhas, devia haver mais
informação no sentido de prevenir comportamentos de adição.A
prevenção, defendeu, “passa essencialmente por muita informação, que
deve passar, não só nos locais de jogo, mas também na televisão”, com a
mensagem de que “o jogo é algo recreativo e não para investimento”: “É
para a pessoa se divertir, não é para ajudar a aumentar a reforma ou
para pagar a renda da casa ou para ter mais algum dinheiro”.Muitas
pessoas jogam porque pensam que vão conseguir ganhar dinheiro e, quando
perdem o que ganharam, vão querer recuperar o dinheiro, explicou o
especialista.Pedro Hubert alerta que há
vários fatores que elevam o potencial de risco da raspadinha,
nomeadamente para quem tem uma certa predisposição para a adição: o
facto de se poder comprar e apostar “muitas vezes num minuto” na
raspadinha, a par da acessibilidade, da disponibilidade, do preço baixo e
dos prémios elevados.O risco é também
maior para “as pessoas que têm mais dificuldades ou que têm menos noção
do que é a estatística e de que o jogo está mais a favor da casa do que
das pessoas que compram”.Para prevenir
problemas de dependência do jogo, o especialista referiu que deveria
haver informação nos locais de venda sobre os sintomas de quem tem
problemas com o jogo e divulgação de linhas de apoio como, por exemplo,
da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, defendendo ainda a
possibilidade de o jogador pedir autoexclusão.Defendeu
ainda um trabalho conjunto entre o Estado e o departamento de Jogos da
Santa Casa e mais investigação, como esta da Universidade do Minho, “que
é muito meritória”, no sentido de proteger as pessoas que possam vir a
ter problemas e as que já os têm.“Portanto,
trabalhar todos em conjunto, no sentido de uma maior prevenção e
também, não menos importante, que haja um tratamento mais eficaz destas
pessoas que têm problemas de abuso ou dependência”, rematou Pedro
Hubert.Segundo o relatório e contas da
Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) de 2020, o último
disponível, a raspadinha é a “rainha” dos jogos sociais, tendo atribuído
cerca de 2,8 milhões de prémios semanais, o que se traduz em mais de
17,2 milhões de euros.Segundo o Plano e
Orçamento da SCML de 2022, a Raspadinha representou em 2020 vendas reais
de 1,44 mil milhões de euros, cerca de metade do total das vendas dos
jogos sociais, que incluem totoloto, totobola euromilhões, lotarias e
outros jogos.