Vice-presidente do Governo dos Açores diz que não teve "intenção de ofender" médicos
22 de nov. de 2022, 14:16
— Lusa/AO Online
“Quem me conhece
sabe que um dos meus defeitos é ser frontal. Não tive qualquer intenção
de ofender ninguém, muito menos os médicos”, afirmou Artur Lima
(CDS-PP) durante o debate sobre o Orçamento para a Saúde em 2023, no
plenário da Assembleia Legislativa.Cerca
de 400 médicos manifestaram, nas últimas semanas, indisponibilidade para
fazer mais do que as 150 horas de trabalho extraordinário obrigatórias
por lei e reclamaram um pedido de desculpas do vice-presidente do
executivo de coligação PSD/CDS-PP/PPM.Artur
Lima afirmou a 11 de novembro que os médicos “não podem usar o
dinheiro como moeda de troca para dispensar” a prestação de cuidados.“O
que espero é que os médicos sejam médicos. Não quero crer que a única
coisa que possa motivar os médicos seja o dinheiro. Não posso aceitar
que quem tem um código de ética e deontologia possa pôr em perigo a
saúde”, disse na altura.No mesmo dia,
entrou em vigor um diploma que aumenta o valor pago por hora do trabalho
extraordinário dos médicos além das 150 horas obrigatórias por lei.“O
que eu disse foi que não quero crer que a única coisa que possa motivar
os médicos seja o dinheiro. Mas também defendi que devem ser bem
remunerados”, frisou o vice-presidente.Artur
Lima explicou ainda que as suas declarações foram feitas “à margem de
um comunicado do Conselho do Governo” e após uma pergunta de uma
jornalista.“Portanto, o que disseram, de
que eu me andava a meter na Saúde [pasta de outro membro do Governo de
coligação PSD/CDS-PP/PPM] é mentira”, afirmou.Hoje,
o deputado do PS Vasco Cordeiro alertou no debate que esta polémica
“faz perigar a qualidade assistencial e a saúde dos açorianos”,
colocando “em causa as urgências já em dezembro”.Nuno
Barata, da Iniciativa Liberal (IL), com quem o PSD firmou um acordo de
incidência parlamentar, acusou Artur Lima de ter “ódios de estimação”,
considerando que o vice-presidente “já se devia ter retratado por ter
chamado mercenários aos médicos dos Açores”.“Os
açorianos conhecem-no, não pela frontalidade, mas por ter ódios de
estimação. E os Açores não podem ser governados por quem tem ódios de
estimação”, vincou o parlamentar da IL.Referindo-se
à troca de acusações entre o PS (que esteve no Governo até 2020) e as
bancadas dos partidos da coligação do atual executivo, Barata assinalou
ainda que “não é com uma guerrilha do tipo «eu fiz menos mal do que tu»
que resolve os problemas”.“Continuamos a discutir minudências”, lamentou.A
questão começou por ser levantada pelo deputado do PAN, Pedro Neves,
que questionou o secretário da Saúde, Clélio Meneses (PSD) sobre se “já
perguntou ao vice-presidente se pode meter o ego no bolso e se está
pronto para pedir desculpa aos médicos”.António
Lima, deputado do BE, acusou o Governo de “criar ruído na Saúde”, com o
“vice-presidente a maltratar os médicos, tratando-os como
insubordinados”.“Não acha que lhes deve um
pedido de desculpas? É a saúde da coligação mais importante do que a
saúde dos açorianos?”, questionou.Também
Berto Messias, do PS, considerou que, nas declarações feitas, o
vice-presidente “reiterou o que disse” antes, “apelidando os médicos de
mercenários, pondo em causa a sua ética e deontologia”.Paulo Estêvão, do PPM, acusou o PS de não querer discutir a Saúde, pretendendo “ofender”.“O
que se passa aqui é uma vergonha. PS e BE pediram intervalos [na
segunda-feira ao fim da tarde, quando o plenário já não estava a ser
transmitido em direto pela RTP/Açores] só para terem o espetáculo
televisivo que tinham planeado para a chicana política”, afirmou.Clélio
Meneses, secretário regional da Saúde, lamentou que, após o adiamento
do debate na segunda-feira, se tenha perdido “mais uma hora a discutir
casos e casinhos e relações pessoais”.A 13 de novembro, o presidente do Governo dos Açores, o social-democrata
José Manuel Boleiro, já tinha afirmado que ia “acompanhar pessoalmente”
uma revisão ao diploma que regula o pagamento de horas extraordinárias
aos médicos.Bolieiro afirmou também que negava “categoricamente” qualquer tentativa do vice-presidente em “desconsiderar” os profissionais.