Maduro aproveita boicote e alcança maioria esmagadora no Parlamento e regiões
Venezuela
27 de mai. de 2025, 12:16
— Lusa/AO Online
O
partido do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, venceu 23 dos 24
cargos de governador e, de acordo com um anúncio não oficial de Jorge
Rodriguez, um dos homens mais poderosos do país, a coligação vai ocupar
256 dos 285 lugares no Parlamento.Presidente
da Assembleia, chefe da campanha eleitoral do Governo e principal
negociador da Venezuela com Washington, Rodríguez sublinhou, ao fim da
tarde (noite em Lisboa) de segunda-feira, que “a oposição” venceu os
restantes 29 lugares, sem fornecer mais detalhes."O
chavismo ganhou 256 deputados num total de 285, ou seja, 90% dos
deputados na Assembleia Nacional são do Gran Polo Patriotico Simon
Bolivar", acrescentou Rodríguez no programa televisivo Con Maduro+.A
líder da oposição, Maria Corina Machado, e Edmundo González, candidato
da oposição nas eleições presidenciais do ano passado, tinham apelado ao
boicote do escrutínio, considerando que as regras do jogo foram
distorcidas.Com esta vitória esmagadora,
Maduro reforçou o controlo sobre as instituições do país, dez meses após
a contestada reeleição como Presidente, marcada por distúrbios e
detenções em larga escala.As eleições de
domingo ficaram também marcadas pela detenção de cerca de 70 pessoas,
incluindo Juan Pablo Guanipa, da oposição, acusado de tentar
desestabilizar a votação.Mais de 400.000
membros das forças de segurança foram destacados para as eleições, com
patrulhas de polícias encapuzados e armados.Maduro
pode agora avançar tranquilamente com a reforma da Constituição, sobre a
qual há poucas informações, mas da qual tem falado frequentemente nos
últimos meses."Hoje demonstrámos o poder
do chavismo! Esta vitória é a vitória da paz e da estabilidade", exultou
Maduro após o anúncio dos resultados no domingo.Maria
Corina Machado tinha apelado à população para que não participasse nas
eleições, considerando-as uma farsa e afirmando que a fraca afluência às
assembleias de voto seria um protesto silencioso contra a reeleição de
Maduro como Presidente em julho passado.Para
o grupo da oposição que participou no escrutínio, o resultado foi pouco
substancial. O Governo deixou-lhe apenas migalhas: um punhado de
deputados e o Governo do estado de Cojedes (centro-oeste).“Apesar
de previsível, o resultado tem implicações importantes: o chavismo
reforçado no seu controlo institucional, uma oposição dividida e com
representação limitada e uma maioria social [da população]
desmobilizada”, considera o analista político Luis Vicente Leon.Maria
Corina Machado, que vive na clandestinidade, voltou a apelar, na
segunda-feira, ao exército para que atue contra um Governo considerado
ilegítimo. Mas as forças armadas, pedra angular do Executivo, têm jurado
repetidamente lealdade a Maduro.Quanto à
oposição, “a abstenção (...) só piora a sua situação”, avalia o
politólogo Pablo Quintero. “Gera um processo de desinteresse político,
desilusão e resignação por parte do povo”.Henrique
Capriles foi eleito deputado e vai liderar um grupo de cerca de quinze
membros eleitos na Assembleia, de acordo com as estimativas de Leon. Um
número reduzido, mas "não insignificante", avalia o analista."Atingiram parcialmente o objetivo de manter uma presença institucional e evitar o desaparecimento total", sublinha.Stalin
Gonzalez, na oposição e eleito deputado, defendeu a participação e
criticou a posição de Machado: "Essa teoria de dar espaço ao Governo, ao
‘madurismo’, e acreditar que basta deslegitimar o processo não
participando para que ele [Maduro] vá embora... Que esse é o caminho
para trazer a democracia de volta. Não estamos convencidos desse
caminho".Quintero acredita que o custo é elevado e que "a oposição precisa de sangue novo".