Vencedor de Óscar alerta para responsabilidade de ajudar refugiados da Ucrânia
13 de mar. de 2023, 10:02
— Lusa/AO Online
“O
filme que fizemos é sobre uma guerra que causou muitos deslocados”,
disse Edward Berger na sala de entrevistas, depois de “A Oeste Nada de
Novo” vencer o Óscar de Melhor Filme Internacional. “A
história alemã causou muitos deslocados e penso que é nossa
responsabilidade, em especial na Alemanha, ajudar refugiados da
Ucrânia”, considerou o cineasta. “Para retribuir em termos do que nos
foi dado, pessoas também acolhidas na América que tiveram de fugir da
Alemanha na II Guerra Mundial”. Berger,
tal como vários outros nomeados na 95.ª cerimónia de entrega dos prémios
da Academia, levou uma fita azul na lapela que inicialmente alguns
jornalistas confundiram com a bandeira da Ucrânia. “É
uma fita que temos da organização de refugiados das Nações Unidas e é
para apoiar os refugiados e os deslocados, agora mais que nunca”, frisou
Berger. O filme em língua alemã “A Oeste
Nada de Novo”, que faz um retrato cruel e sombrio da I Guerra Mundial,
foi um dos grandes vencedores dos Óscares, triunfando como Melhor Filme
Internacional, Melhor Fotografia, Melhor Banda Sonora e Melhor Direção
de Arte. As comparações entre os
acontecimentos trágicos do filme, situado em 1917, e a guerra que
continua a assolar a Ucrânia foram abordadas várias vezes nos bastidores
da cerimónia. “Quando estávamos a filmar,
obviamente a guerra na Ucrânia ainda não existia, mas a guerra em geral
é muito presente e histórica e é uma lição com a qual podemos
aprender”, afirmou James Friend, que recebeu o Óscar de Melhor
Fotografia. “É absolutamente terrível, para ser honesto. E eles deviam ter vergonha”, afirmou.Friend
disse que o principal objetivo era retratar no filme aquilo que a
guerra nos faz sentir. “Não deve parecer linda. Deve parecer horrífica”,
descreveu. “Este filme é a coisa mais próxima de um filme de terror”. O realizador Edward Berger mostrou-se grato pelo facto de a Academia ter reconhecido o filme e aquilo que tenta fazer. “Tentámos
fazer um filme sobre o nosso passado, sobre a nossa responsabilidade na
Alemanha pela nossa história e agenda”, indicou. “A nossa vontade era
falar sobre a culpa e vergonha e o terror que as duas guerras causaram
no mundo”, continuou.Com a invasão da
Ucrânia pela Rússia, o filme baseado no livro homónimo de Erich Maria
Remarque, de 1929, adquiriu um significado adicional. “E
então, de repente, quando terminámos o filme tornou-se também sobre o
presente. Novos terrores que irromperam, que nunca pensámos que
aconteceriam novamente na Europa”, disse o realizador. “Espero que o
livro, se continuarmos a relê-lo, tenha um papel nalgum momento e
paremos de cometer os mesmos erros repetidamente no futuro”. A
cerimónia também premiou o documentário da CNN “Navalny”, sobre a
tentativa de assassinato do opositor político de Vladimir Putin, Alexei
Navalny. “Quero que o mundo se lembre que
Alexei Navalny está a definhar na prisão”, disse o realizador Daniel
Roher nos bastidores. “Está em prisão solitária perpétua, e a razão pela
qual está em condições horrendas é porque ele é o opositor número um
desta guerra na Rússia”, afirmou. “Ele é o homem que se opõe à guerra
brutal de Putin na Ucrânia”. Roher disse
que fez um filme sobre o líder da oposição russa e da sua missão de
instalar a democracia na Rússia, mas que não foi só para os russos. “É
para todas as pessoas no mundo que vivem num contexto onde as marés de
autoritarismo vêm e vão”, continuou. “O
que queremos que o nosso filme lembre ao mundo é que todos temos de
estar em guarda pelos valores em que acreditamos e as vidas que queremos
viver, e são valores democráticos”. A
95.ª cerimónia dos prémios da Academia decorreu no Dolby Theatre, em Los
Angeles, com “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo” a ser o grande
vencedor com sete Óscares, incluindo Melhor Filme. “A Oeste Nada de Novo” foi o outro grande vencedor, com quatro estatuetas. Em
contraste, “Os Espíritos de Inisherin” (nove nomeações), “Elvis” (oito
nomeações), “Os Fabelmans” (sete nomeações) e “Tár” (seis nomeações)
saíram de mãos a abanar.