Velas está cada vez mais deserta com a população a rumar para uma “zona segura”
25 de mar. de 2022, 16:34
— Lusa/AO Online
O tempo não está a dar tréguas na ilha de São Jorge, com o vento a soprar forte e a chuva a cair com intensidade.O
casal Bianca e Cassiano, juntamente com o filho de dois meses, aguardam
na gare marítima pelo barco que vai sair das Velas rumo à Madalena, na
ilha do Pico, e à Horta, no Faial.Olham para o mar e preveem uma viagem difícil: “O tempo não está a ajudar”, diz Bianca Pereira à agência Lusa.Depois
de uma reflexão nos últimos “dois dias”, o casal decidiu abandonar “por
tempo indeterminado” a ilha que está a sofrer uma crise sismovulcânica.
Vão por “prevenção”.“Não acho que seja
excesso de alarme. A população tem razão em estar assim. Estamos
preocupados. Construímos uma vida aqui. Há quem lute a vida toda para
arranjar casa e carro e se acontecer alguma coisa vão perder tudo pelo
que lutaram até agora”, justifica Bianca.Também o marido acredita que sair da ilha é a “melhor” decisão a tomar, nem que seja até as “coisas acalmarem”.“Se
700 pessoas já tiverem saído são menos 700 pessoas para retirar em caso
de qualquer coisa. É melhor prevenir do que depois, quando chegar à
altura, e mesmo que tenham os meios necessários, a coisa complicar”, diz
Cassiano Pereira.Segundo informações
recolhidas no local pela Lusa, na quarta e na quinta-feira saíram das
Velas por via marítima cerca de 600 pessoas, sendo que só na
quinta-feira embarcaram 389 pessoas.Marisa Freitas também se prepara para embarcar. Tem 14 anos e vai para o Pico ter com uma amiga.“Estou
preocupada e só senti um sismo. A decisão de sair não foi fácil. Tive
de deixar a família atrás porque eles não quiseram ir. Eu vou ter com
uma amiga e com os pais dela para ficar numa zona segura”, explica.Ao
lado dela, Raíssa Raposo também vai para a ilha do Pico, onde tem o
namorado. Diz que tem “sentido alguns sismos” e que a situação é
“preocupante”.“Vou abandonar por causa dos
sismos. Estou preocupada com o que pode acontecer e eu prefiro prevenir
do que remediar”, afirma, acrescentando que os seus pais, que moram nas
Velas, também já rumaram à Calheta, o outro concelho da ilha.A
aguardar na sala de embarque está o professor da Universidade de Évora
José Fernando Borges, especialista em geofísica. Rumou a São Jorge,
juntamente com uma equipa de investigadores, aquando do início da crise
no sábado para monitorizar a situação.“Instalámos
quatro sismógrafos. Três de banda larga. Só havia uma banda larga do
IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera], com quem estamos em
conjugação. Instalámos um acelerómetro em tempo real, que não havia e
agora está instalado na Urzelina”, explica.A
equipa vai continuar com investigadores no local para “estudar” a
situação, uma vez que esta crise é “diferente porque tem a ver com a
atividade vulcânica” localizada no meio de uma ilha.“O
fenómeno vulcânico manifesta-se com antecedência e as autoridades
açorianas têm uma larga experiência em Proteção Civil, em conjugação com
as entidades científica. É preciso não tomar decisões precipitadas e
acompanhar bem a situação”, assinalou.Nos
últimos dois dias, e após o Governo Regional ter anunciado um reforço
das ligações áreas e marítimas, Velas perdeu muito do seu movimento
habitual.Pelas ruas, é agora raro
encontrar alguém e muitos dos estabelecimentos comerciais estão
encerrados. António Sousa Teixeira, 72 anos, é uma exceção: diz que
ainda “não ouviu” nenhum sismo, mas refere que o “ambiente” que se sente
na ilha faz lembrar outros tempos.“Já
passei uma fase difícil. Eu e a ilha toda em 1964. A gente então teve de
sair daqui. Todo o povo do concelho. Em Santo Amaro, a minha freguesia,
foi uma desgraça e começou com vários sismos pequenos”, afirma,
recordando a crise sísmica de 1964, que obrigou à retirada de cinco mil
pessoas da ilha.Agora, prossegue, acredita
que “não vai acontecer nada disso”, mas nota que “muita gente já se foi
embora”, lamentando o encerramento do único café da sua freguesia
porque a gerente “foi para o Pico com a família toda”: “faz falta porque
não há mais nada”.Já ele, que vive
sozinho, não pensa ainda em abandonar a vila: “Por enquanto estou bem
assim. Se a coisa não piorar muito mais, eu vou ficar por cá. Se houver
ordem para o pessoal sair todo, tenho de ir. Não sou melhor que
ninguém”.Mais em frente, mesmo diante da
Igreja de São Jorge, no centro da vila, um casal, com uma carrinha
repleta de caixotes, está atarefado a preparar a saída de casa.João
Paulo Roque tem 85 anos e vai com a mulher para a Calheta. “Isso pode
ser tudo ou não pode ser nada. Não podemos facilitar”.Apressado
por causa da chuva, diz que não pode falar, mas faz questão de deixar
uma palavra antes de entrar no carro, onde evoca a sua vida para
evidenciar a particularidade do momento atual: “Andei uma vida toda pelo
mundo. Desde a Polónia, ao Iraque, à Jordânia. Andei por todo a lado e
nunca passei por um aperto desses”.A crise
sismovulcânica em São Jorge iniciou-se às 16h05 de sábado.