Valores de Abril renovam-se em Ponta Delgada com jovens no centro das celebrações
Hoje 09:46
— Daniela Arruda
As Portas da Cidade, este sábado, voltam a ser palco de celebração da
festa da democracia, mas este ano promete ter um tom mais jovem, mais
participativo e com novas formas de celebrar a liberdade. Quem por lá
passar pode esperar concertos, reflexão e a maior novidade: um DJ no
encerramento. As comemorações deste ano foram pensadas para aproximar as
gerações mais novas dos valores de Abril, mas sem nunca esquecer o peso
da memória.O programa começa às 15h30, nas Portas da Cidade, com
uma festa popular animada pelo Grupo Urro das Marés, seguida pelo
concerto “Cravos na Voz”, pelo Grupo de Cantares Tradicionais de Santa
Cruz da Lagoa e a iniciativa “Comunidade Constituinte”, dedicada aos 50
anos da Constituição e da Autonomia”. No final, o encerramento conta o
DJ MOLINA, da Associação PLUGG.A organização sublinha “vai ser feito
algo de novo” com foco em quem nasceu e viveu depois da revolução. O
objetivo é trazer novas linguagens, outras ideias e uma forma diferente
de viver Abril, trata-se de “uma pedrada no charco” face ao que tem
vindo a ser feito, admite Filipe Cordeiro, porta-voz da Associação
Promotora das Comemorações do 25 de Abril em Ponta Delgada.Na parte
final das comemorações, enquanto o DJ toca música, o intuito é que se
crie um espaço onde as pessoas se encontrem e convivam: “O que faz falta
cada vez mais é as pessoas falarem umas com as outras” e partilharem,
os seus valores. Para Filipe Cordeiro, o debate e a reflexão é uma parte
que não pode deixar de acontecer na celebração da Revolução dos Cravos.A lei laboral é agenda nos valores de AbrilNum
contexto internacional de conflitos, tensões e também de guerra, Filipe
Cordeiro alertou que os valores de Abril ainda não estão garantidos.
Referiu até que este ano “o 52.º aniversário, exige-nos uma atenção
muito particular, porque estamos a ser assediados, digamos assim, por
valores que tentam , de forma clara e objetiva, recuperar algo do antes
do 25 de Abril”.Recordou ainda que a revolução nasceu do cansaço de
uma guerra e da vontade de mudar, a necessidade de paz. Defendeu, por
isso, que a paz deve ser uma responsabilidade coletiva e não apenas
institucional, sem esquecer o contexto internacional atual: “O poder dos
mais fortes tenta impor-se através da guerra”, reforçando que faz parte
do papel de cada um trabalhar para que a paz se afirme na sociedade.Filipe
Cordeiro mencionou ainda a Constituição da República Portuguesa,
apontada por si como um dos maiores legados de Abril que consagra o
direito à habitação, à saúde e ao emprego, num país onde “existia uma
pobreza endémica e também um analfabetismo de uma dimensão
extraordinária”. A Autonomia dos Açores foi também lembrada como uma das
conquistas do pós-revolução. A tudo isto, deixou ainda um alerta em
relação às alterações da lei laboral: “O que se está a tentar fazer é
destruir um conjunto de leis que protegem, em certa medida, os mais
fracos, porque as leis laborais devem proteger os trabalhadores em
primeiro lugar”, defendeu.Pedro Nascimento Cabral, presidente da
Câmara Municipal de Ponta Delgada, reforçou a ideia de uma
responsabilidade coletiva. Para si, celebrar Abril é “uma obrigação”,
para que a democracia, a liberdade e o diálogo sejam defendidos num
tempo em que valores com estes enfrentam desafios.Naquele tempo é que era bom? A
propósito da ideia de que “naquele tempo é que era bom”, Filipe
Cordeiro admite que a sua geração falhou em transmitir memória: “Acho
que a minha geração falhou em passar a pedagogia do que era antes para
se poder perceber o que é o depois”, o que pode ajudar a explicar a
razão pela qual alguns continuam a pôr em causa os valores de Abril. Ainda
assim, deixou o alerta: “Não havia a mais mínima liberdade” e “aqueles
que tiveram a ousadia de falar das suas ideias pagaram com a vida,
muitos deles, dezenas e dezenas, e estiveram presos dezenas e dezenas de
anos, porque arriscaram defender valores de justiça social e de
liberdade”.