“Vale a pena proteger o oceano que ainda temos”

Hoje 10:42 — Ana Carvalho Melo

Cresceu entre a arte e o mar, passou por Nova Iorque na adolescência e fez 21 anos de carreira na Marinha. Pelo caminho, transformou a Quinta do Pico do Refúgio num espaço de criação artística que acolheu cerca de 70 artistas de todo o mundo. Hoje, Bernardo Brito e Abreu coordena o Programa Blue Azores, a iniciativa que visa proteger 30% do mar dos Açores até 2030 e que descreve não como uma opção, mas como “uma responsabilidade coletiva”.Da infância, Bernardo Brito e Abreu lembra-se de crescer rodeado pela produção artística da mãe, a artista Luísa Constantina, que trabalhava ao ar livre na Quinta do Pico do Refúgio, em Rabo de Peixe, esculpindo pedras de basalto de grande porte, utilizando ferramentas pesadas como rebarbadoras e compressores para criar obras que hoje decoram espaços públicos, como a Assembleia Legislativa dos Açores ou o Hospital da Horta. Recorda ainda o tempo passado na Academia das Artes dos Açores, fundada pela mãe, onde chegou a servir de modelo para aulas de desenho. Curiosamente um desses desenhos, feito pelo artista Urbano quando Bernardo Brito e Abreu era criança, foi-lhe mais tarde oferecido pela sua mulher. Mas as dinâmicas familiares, a separação dos pais e uma vida profissional em constante movimento, levaram Bernardo Brito e Abreu a mudar de residência com frequência. Uma dessas mudanças levou-o a Nova Iorque, no final dos anos 80, numa cidade que ele descreve como “muito mais dura do que é hoje”. Guarda na memória as escolas de públicas de Manhattan e Chelsea que tinham detetores de metais à entrada e os gangues nas ruas. Mas também a cultura em ebulição. Foi em Nova Iorque que Bernardo Brito e Abreu mergulhou no “movimento pop dos anos 80” e na MTV, num período de transformação cultural acelerada. Chegou a assistir aos Guns N’ Roses a tocar num bar underground antes de qualquer fama, uma memória que carrega com o prazer de quem sabe que esteve no lugar certo na hora certa. Nova Iorque endureceu-o e abriu-lhe o mundo ao mesmo tempo. Mas também foi nesta cidade que Bernardo Brito e Abreu viveu quase sozinho com a mãe durante quatro anos, período em que teve de “crescer muito rápido” para lhe dar apoio durante a doença, tratando das compras, da limpeza e cuidando dela enquanto estava acamada ou no hospital. A mãe viria a falecer em dezembro de 1990, pouco depois de regressarem aos Açores, quando Bernardo Brito e Abreu tinha apenas 15 anos. E sobre este regresso afirma: “os Açores para mim foram o paraíso, porque era muito mais livre”. Esta liberdade manifestava-se na ausência de códigos de conduta rígidos, permitindo vivências espontâneas como “acampar na praia, fazer fogueiras à noite na praia, ter um grupo de amigos”, contrastando com a dinâmica social mais “coreografada” que conheceu nos Estados Unidos. Quando chegou a hora de escolher um caminho profissional, o mar falou mais alto. Bernardo Brito e Abreu tinha uma vaga assegurada em Biologia Marinha, mas a influência do pai, oficial de marinha, e do avô, piloto aviador, pesou na decisão. Ingressou na Escola Naval, iniciando uma carreira de 21 anos no ativo. “Eu cresci nesta aura de romantismo à volta da carreira de oficial de marinha”, afirma, explicando que este sentimento foi alimentado pelas experiências e viagens da família, uma vez que o seu pai serviu em locais como Angola, Moçambique, Índia e Macau. Especializou-se em telecomunicações e participou em missões de busca e salvamento e fiscalização da pesca nos Açores. Mas a relação com o oceano era anterior à farda. “Fiz o meu curso de mergulho em Nova Iorque, mas comecei logo a mergulhar, ainda com 14 anos, aqui nos Açores em 89”, conta, recordando que, em locais como a Caloura, era possível “estar rodeado por raias e cardumes de peixes gigantes”, uma realidade que se alterou drasticamente nas décadas seguintes. Essa perda ficou registada na memória e, mais tarde, transformou-se em missão. Embora tenha seguido uma carreira na Marinha, Bernardo Brito e Abreu revela que a sua faceta artística encontrou expressão na arquitetura, área que estudou durante 6 anos, parte em regime pós-laboral. Formação que utilizou para realizar a obra de restauro do Pico do Refúgio e para recuperar a casa-estúdio do escultor Canto da Maia, de quem a sua mãe era muito amiga. Em 2008 abriu o Pico do Refúgio como turismo rural, mas, constatando a falta de apoio a artistas contemporâneos nos Açores, Bernardo Brito e Abreu criou um programa de residências artísticas que, ao longo de quase dez anos, acolheu cerca de 70 artistas de diversas nacionalidades. Vinham para “pensar o território”, para interagir com a comunidade local, para deixar algo. “Desenvolvi um programa de residências artísticas do Pico do Refúgio que demorou quase 10 anos. Tivemos quase 50 residências. [...] Foram cerca de 70 artistas que passaram por cá e o programa desenvolveu-se um bocadinho à volta de trazer artistas de fora para os Açores, para pensarem o território, quer seja no âmbito do território, da memória das comunidades, da paisagem, portanto, pensar a ilha”, explica. Curiosamente, foi através de uma dessas residências que conheceu a sua mulher, a artista Andrea Santolaya, mãe dos seus dois filhos. Em 2022, Bernardo Brito e Abreu aceitou um dos maiores desafios da sua carreira: coordenar o Programa Blue Azores, uma iniciativa que visa proteger 30% do mar dos Açores até 2030. O projeto assenta em três pilares fundamentais, ciência, participação pública e decisão política, numa abordagem que reconhece que conservar o oceano não é apenas uma questão ambiental, mas um ato de justiça. “Vale a pena proteger” o que ainda temos, diz Bernardo Brito e Abreu, pensando nas gerações que virão depois. “Temos aqui um legado para os meus filhos, para os meus netos e para as gerações que vêm a seguir. Temos a obrigação de o preservar, afirma. Para si, a preservação da natureza é a única forma de garantir resiliência face às alterações climáticas, não uma opção, mas uma responsabilidade coletiva. E nesse sentido recorda que o melhor mergulho da sua vida foi no Banco Princesa Alice, numa experiência que reforçou a convicção de que o que existe sob a superfície do Atlântico é um tesouro que não pode ser desperdiçado.