Cresceu entre a arte e o mar, passou
por Nova Iorque na adolescência e fez 21 anos de carreira na
Marinha. Pelo caminho, transformou a Quinta do Pico do Refúgio num
espaço de criação artística que acolheu cerca de 70 artistas de
todo o mundo. Hoje, Bernardo Brito e Abreu coordena o Programa Blue
Azores, a iniciativa que visa proteger 30% do mar dos Açores até
2030 e que descreve não como uma opção, mas como “uma
responsabilidade coletiva”.Da infância, Bernardo Brito e Abreu
lembra-se de crescer rodeado pela produção artística da mãe, a
artista Luísa Constantina, que trabalhava ao ar livre na Quinta do
Pico do Refúgio, em Rabo de Peixe, esculpindo pedras de basalto de
grande porte, utilizando ferramentas pesadas como rebarbadoras e
compressores para criar obras que hoje decoram espaços públicos,
como a Assembleia Legislativa dos Açores ou o Hospital da Horta.
Recorda ainda o tempo passado na
Academia das Artes dos Açores, fundada pela mãe, onde chegou a
servir de modelo para aulas de desenho. Curiosamente um desses
desenhos, feito pelo artista Urbano quando Bernardo Brito e Abreu era
criança, foi-lhe mais tarde oferecido pela sua mulher.
Mas as dinâmicas familiares, a
separação dos pais e uma vida profissional em constante movimento,
levaram Bernardo Brito e Abreu a mudar de residência com frequência.
Uma dessas mudanças levou-o a Nova Iorque, no final dos anos 80,
numa cidade que ele descreve como “muito mais dura do que é hoje”.
Guarda na memória as escolas de públicas de Manhattan e Chelsea que
tinham detetores de metais à entrada e os gangues nas ruas. Mas
também a cultura em ebulição.
Foi em Nova Iorque que Bernardo Brito e
Abreu mergulhou no “movimento pop dos anos 80” e na MTV, num
período de transformação cultural acelerada. Chegou a assistir aos
Guns N’ Roses a tocar num bar underground antes de qualquer fama,
uma memória que carrega com o prazer de quem sabe que esteve no
lugar certo na hora certa. Nova Iorque endureceu-o e abriu-lhe o
mundo ao mesmo tempo.
Mas também foi nesta cidade que
Bernardo Brito e Abreu viveu quase sozinho com a mãe durante quatro
anos, período em que teve de “crescer muito rápido” para lhe
dar apoio durante a doença, tratando das compras, da limpeza e
cuidando dela enquanto estava acamada ou no hospital. A mãe viria a
falecer em dezembro de 1990, pouco depois de regressarem aos Açores,
quando Bernardo Brito e Abreu tinha apenas 15 anos.
E sobre este regresso afirma: “os
Açores para mim foram o paraíso, porque era muito mais livre”.
Esta liberdade manifestava-se na ausência de códigos de conduta
rígidos, permitindo vivências espontâneas como “acampar na
praia, fazer fogueiras à noite na praia, ter um grupo de amigos”,
contrastando com a dinâmica social mais “coreografada” que
conheceu nos Estados Unidos.
Quando chegou a hora de escolher um
caminho profissional, o mar falou mais alto. Bernardo Brito e Abreu
tinha uma vaga assegurada em Biologia Marinha, mas a influência do
pai, oficial de marinha, e do avô, piloto aviador, pesou na decisão.
Ingressou na Escola Naval, iniciando uma carreira de 21 anos no
ativo.
“Eu cresci nesta aura de romantismo à
volta da carreira de oficial de marinha”, afirma, explicando que
este sentimento foi alimentado pelas experiências e viagens da
família, uma vez que o seu pai serviu em locais como Angola,
Moçambique, Índia e Macau.
Especializou-se em telecomunicações e
participou em missões de busca e salvamento e fiscalização da
pesca nos Açores. Mas a relação com o oceano era anterior à
farda. “Fiz o meu curso de mergulho em Nova Iorque, mas comecei
logo a mergulhar, ainda com 14 anos, aqui nos Açores em 89”,
conta, recordando que, em locais como a Caloura, era possível “estar
rodeado por raias e cardumes de peixes gigantes”, uma realidade que
se alterou drasticamente nas décadas seguintes. Essa perda ficou
registada na memória e, mais tarde, transformou-se em missão.
Embora tenha seguido uma carreira na
Marinha, Bernardo Brito e Abreu revela que a sua faceta artística
encontrou expressão na arquitetura, área que estudou durante 6
anos, parte em regime pós-laboral. Formação que utilizou para
realizar a obra de restauro do Pico do Refúgio e para recuperar a
casa-estúdio do escultor Canto da Maia, de quem a sua mãe era muito
amiga. Em 2008 abriu o Pico do Refúgio como turismo rural, mas,
constatando a falta de apoio a artistas contemporâneos nos Açores,
Bernardo Brito e Abreu criou um programa de residências artísticas
que, ao longo de quase dez anos, acolheu cerca de 70 artistas de
diversas nacionalidades. Vinham para “pensar o território”, para
interagir com a comunidade local, para deixar algo.
“Desenvolvi um programa de
residências artísticas do Pico do Refúgio que demorou quase 10
anos. Tivemos quase 50 residências. [...] Foram cerca de 70 artistas
que passaram por cá e o programa desenvolveu-se um bocadinho à
volta de trazer artistas de fora para os Açores, para pensarem o
território, quer seja no âmbito do território, da memória das
comunidades, da paisagem, portanto, pensar a ilha”, explica.
Curiosamente, foi através de uma
dessas residências que conheceu a sua mulher, a artista Andrea
Santolaya, mãe dos seus dois filhos.
Em 2022, Bernardo Brito e Abreu aceitou
um dos maiores desafios da sua carreira: coordenar o Programa Blue
Azores, uma iniciativa que visa proteger 30% do mar dos Açores até
2030. O projeto assenta em três pilares fundamentais, ciência,
participação pública e decisão política, numa abordagem que
reconhece que conservar o oceano não é apenas uma questão
ambiental, mas um ato de justiça.
“Vale a pena proteger” o que ainda
temos, diz Bernardo Brito e Abreu, pensando nas gerações que virão
depois.
“Temos aqui um legado para os meus
filhos, para os meus netos e para as gerações que vêm a seguir.
Temos a obrigação de o preservar, afirma.
Para si, a preservação da natureza é
a única forma de garantir resiliência face às alterações
climáticas, não uma opção, mas uma responsabilidade coletiva.
E nesse sentido recorda que o melhor
mergulho da sua vida foi no Banco Princesa Alice, numa experiência
que reforçou a convicção de que o que existe sob a superfície do
Atlântico é um tesouro que não pode ser desperdiçado.