‘Vade-Mécum’ propõe olhar um lugar onde diferentes formas de saber coexistem
Hoje 10:09
— Susete Rodrigues
O espaço vaga, em Ponta Delgada, inaugurou a exposição ‘Vade-Mécum’, uma mostra que reúne o trabalho dos artistas açorianos André Carreiro Oliveira, Atelineiras (coletivo transdisciplinar formando por Beatriz Toste, Carolina Amado, Inês Falcão e Xico) e Tomás Toste, vencedores da 2.ª edição do Prémio nova vaga, promovido pela Anda&Fala, com curadoria de João Francisco Reis.Numa visita guiada pela mostra, João Francisco Reis, refere que quis “que a exposição fosse também centrada na evolução que os artistas tiveram ao longo da residência. Ou seja, usaarem a ajuda técnica de produção para impulsionarem o seu trabalho e trabalharem a escala, a ideia, o fio condutor que vai desenvolvendo o trabalho”. A exposição começa com o trabalho das Atelineiras que está dividido em quatro eixos, nomeadamente o destino, o desejo, a intenção e o sonho. Desta forma, surge “um almanaque que tem textos das Atelineiras, como também teve contribuições de pessoas de fora. Acabou por ser uma ideia de comunidade transposta para um livro e fazendo depois a ligação com o título da exposição ‘Vade-Mécum’”. Segue-se o altar, “uma peça inspirada nas festas religiosas dos Açores, feita com limalhas de madeira tingidas, a escultura em inox e fibra de basalto, que dá uma ideia quase etérea e onírica a todas as suas peças”. Os caminhos em basalto desenhados no chão são um outro eixo, a intenção. “Esta intenção de caminharmos pela exposição e ver esses desenhos. Então, chegamos ao desejo, onde temos um filme que as Atelineiras criaram e duas frases que exploram a ideia de aproximação dos corpos e uma ideia de sexualidade, uma ideia de emancipação”.No centro encontramos o trabalho de André Carreiro Oliveira, uma estrutura onde “tento reproduzir a floresta laurissilva açoriana, com quase todas as suas espécies. E já vai tendo algumas espécies a surgir, já tem umas aranhas, umas traças, umas minhocas e umas formigas que estão aqui naturalmente”. Na disponibilização das plantas, o artista diz que teve o apoio da “engenheira Carina Nóbrega, da Reserva Florestal dos Viveiros das Furnas e do guarda-florestal Pedro Mendonça que foi incansável”. Como a exposição ficará patente até novembro, o artista irá garantir a sua sobrevivência ao longo destes meses. “A minha ideia é que as plantas cresçam mais um pouco e que sejam devolvidas à natureza, por isso existem furos que funcionam como um sistema de respiração da estufa e dispositivo de observação”. Tomás Toste apresenta três pinturas que “comunicam entre elas. A mais pequena faz uma introdução às outras e será a que se relaciona mais com o trabalho das Atelineiras e com o trabalho do André. Espelha um bocadinho a ideia do inalcançável e de que forma é que a insularidade nos ensina a lidar com a distância e com este lado do intocável que acho que é uma condição muito açoriana”. Uma das pinturas “é bidimensional. Ao aproximarmos, ela perde a sua definição, ganha uma abstração. É uma peça que vive muito desse lado muito insular, de sonho, de ideação, do que está para além da imagem”. Segue-se a pintura feita na parede, com um biombo trabalhado em papel vegetal, “em que o biombo comunica com a parede ao ser transversal. Pego na ideia de nevoeiro, de bruma e do que é que o nevoeiro deixa ou não ver”.Por fim, temos o ‘sonho’, onde “quisemos pensar esta dimensão do cheiro e das essências, dos óleos, dos perfumes”, afirmou Xico, frisando que o cheiro é “aquela dimensão que está muito em contacto com a nossa memória e não passa pelo processamento que as vozes e as imagens passam”. A instalação “tem fibra de basalto, uma mais vidrada, outra mais refinada e tem as limalhas de madeira que são símbolo da nossa religiosidade, dos tapetes. Portanto, acho que é uma peça muito tensa em si, mas que é exatamente o que esta dimensão do sonho é, muito carregada, muito sentimental, muito cheirosa”, finalizou.