Utentes sem médico de família aumentam 29% num ano
18 de mai. de 2023, 07:41
— Lusa/AO Online
Segundo o portal
da transparência do SNS, em abril de 2022 um total de 1.299.016 milhões
utentes não tinham médico de família atribuído, número que aumentou
para 1.678.226 um ano depois.Perante isso,
o número de utentes acompanhados por esses especialistas de medicina
geral e familiar baixou de cerca de 9,1 milhões para pouco mais de 8,8
milhões no mesmo período, indicam os dados oficiais.Para
sábado estão agendadas marchas em Lisboa, Porto e Coimbra contra a
“degradação do SNS”, convocadas por vários sindicatos e com a
participação de movimentos de utentes, uma iniciativa para reivindicar
um “investimento sério” neste serviço público.Para
o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
(APMGF), esta situação deve-se, simultaneamente, a uma vaga de
aposentações dos especialistas que está a ocorrer nos últimos anos e à
falta de atratividade do SNS para reter os médicos de família
recém-formados e para atrair os que estão atualmente fora do serviço
público.Face a estes dois fatores, “todo o
sistema que deveria ser baseado nos cuidados de saúde primários passa o
foco para os hospitais e serviços de urgência, que também têm falta de
recursos humanos e não são concebidos para este tipo de resposta”, disse
à agência Lusa Nuno Jacinto.A falta de
médicos de família está, alertou Nuno Jacinto, a obrigar os utentes a
aceder ao SNS “por um local onde não deveriam entrar” – os hospitais -,
“pervertendo” todo o sistema e sobrecarregando os profissionais de saúde
de um modo geral.Um estudo dos
investigadores Pedro Pita Barros e Eduardo Costa sobre os recursos
humanos na saúde, divulgado em fevereiro deste ano, indica que cerca de
um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos, um envelhecimento da
classe que resultará numa vaga de cerca de 5.000 aposentações até 2030.“O
envelhecimento dos médicos afeta os especialistas hospitalares, bem
como os médicos dos cuidados de saúde primários. Estimativas de 2011
sugeriam que cerca de 75% dos médicos de família tinham mais de 50 anos.
Este problema foi ainda agravado por uma vaga de reformas antecipadas
que surgiu na sequência das medidas de austeridade implementadas após
2011”, alertou o documento.Este é um
argumento que também tem sido utilizado pelo Governo para justificar o
aumento de pessoas sem médico de família, com a secretária de Estado da
Promoção da Saúde, Margarida Tavares, a reconhecer recentemente que,
além de 2021 e 2022, ainda 2023 e 2024 “serão anos de grande número de
médicos a aposentar-se”.Segundo o
executivo, a falta de especialistas de medicina geral e familiar afeta
sobretudo a região de Lisboa e Vale do Tejo, o Algarve e o Alentejo, mas
o presidente da APMGF alertou que a carência já se sente no Centro e
mesmo no Norte, onde “começa a haver alguns locais onde não faltavam
médicos e agora faltam”.O Governo abriu
todas as 978 vagas de medicina geral e familiar, para reter os
recém-formados, mas também para atrair especialistas que não estejam no
SNS, mas já admitiu que apenas fiquem colocados nas unidades públicas de
saúde entre 200 e 250 dos 355 médicos que acabaram agora a sua
especialidade.“É bom que o Governo tenha
aberto todas as vagas disponíveis. É a primeira vez que isso acontece e é
um bom sinal, porque significa que a tutela assume a verdadeira
dimensão do problema”, respondeu Nuno Jacinto, ao salientar que “faltam
quase mil médicos de família” no SNS.O
presidente da ANMGF concorda que seria “irrealista” pensar que todas as
978 vagas seriam preenchidas, mas salientou que a abertura de todos os
lugares disponíveis “tem de ser uma medida que tem de se manter a médio e
longo prazo para que possa estabilizar”, considerando que o objetivo
realista passa agora pela contratação dos mais de 300 médicos que
acabaram a especialidade na última época de exame.“Não
vamos dizer que vamos buscar mil médicos de família de repente, porque
eles não existem, mas temos de ser ambiciosos e dizer que, pelo menos,
todos os que acabaram a especialidade queremos contratar”, disse Nuno
Jacinto, para quem atualmente os médicos de família “olham para o SNS
com alguma tristeza e desencanto”.Para
isso tem contribuído, de acordo com o responsável da ANMGF, o sentimento
dos médicos de família de que “o seu trabalho não tem a valorização e o
respeito que deveria ter”.Na prática,
isso deve-se à "falta de uma aposta nos cuidados primários, desde logo,
na grelha salarial”, assim como à estagnação da carreira, à desadequação
do sistema de avaliação, que deveria ter uma progressão baseada no
mérito, e a um modelo de “contratação muito rígido baseado nas 40 horas,
que não permite flexibilidade aos médicos que existe, por exemplo, no
setor privado”, referiu.Esta falta de
atratividade do SNS é também sentida pelos novos médicos, garantiu à
Lusa a presidente da Comissão Nacional de Médicos Internos do Sindicato
Independente dos Médicos (SIM), para quem isso deve-se às precárias
condições de trabalho, mas sobretudo aos vencimentos praticados no setor
público.“Em 2022, o valor pago a um
recém-especialista era 16,03 euros por hora brutos”, adiantou Mónica
Paes Mamede, ao considerar este vencimento “baixo”, tendo em conta todas
as responsabilidades clínicas que tem um especialista, assim como a
exigência da profissão a vários níveis.Os
recém-especialistas têm a responsabilidade de todas as decisões clínicas
que são tomadas sobre os seus doentes, trabalham em turnos de 24 horas e
com horários rotativos ao fim de semana e feriados, sublinhou.“O
setor social e privado estão no mesmo país do que o setor público e têm
um pagamento, por norma, bastante mais elevado e as condições de
trabalho também são mais atrativas”, referiu Mónica Paes Mamede.Se
não se verificar um aumento dos vencimentos, “corre-se o risco de ter
um SNS cada vez mais fraco”, alertou ainda a presidente da Comissão
Nacional de Médicos Internos do SIM, ao assegurar que já nota “uma
grande diferença” desde há seis anos, quando começou a trabalhar no
setor público.