Universidade dos Açores desenvolve projeto para produzir biocarvão com espécies invasoras
2 de jul. de 2025, 18:26
— Lusa
“Tivemos ótimos
resultados. Conseguimos produzir o material e agora estamos na parte de
fazer os testes para entender como é que ele funciona no solo e nas
plantas. A ideia é que a gente o implante no solo e que ele traga
benefícios, mas também que ajude no sequestro do carbono”, explicou, em
declarações à Lusa, a professora Osania Ferreira.Doutorada
em microbiologia agropecuária, Osania Ferreira, docente da Universidade
do Estado de Minas Gerais, no Brasil, está a fazer um pós-doutoramento
na Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos
Açores, em Angra do Heroísmo.Há três meses
que está a estudar a possibilidade de aplicar nos Açores uma
metodologia que já desenvolveu no Brasil para produzir biochar
(biocarvão) a partir de resíduos da cana do açúcar.No arquipélago, em vez da cana do açúcar, está a trabalhar com espécies invasoras como conteira, cana, criptoméria e algas.“É
uma tecnologia promissora. Das que a gente tem no mercado é aquela em
que se consegue sequestrar uma maior quantidade de carbono e mantê-lo
imobilizado por mais tempo”, avançou a investigadora.O
objetivo é, por um lado, mitigar as alterações climáticas, com o
sequestro de carbono no solo, e, por outro, controlar as espécies
invasores nos Açores.“A ideia é tirar o
carbono que hoje está na atmosfera e incorporar no solo por longos
períodos. Este carbono, produzido através do biochar, é recalcitrante e
então vai demorar muito tempo a ser degradado”, explicou Osania
Ferreira.Segundo a investigadora, o
biochar tem várias utilizações possíveis, desde a produção de asfalto ao
tratamento de águas residuais.Nos Açores, para além da incorporação direta nos solos, pode ser utilizado na alimentação de bovinos.“Ele
ajuda a regular a microbiota, melhorando a imunidade do animal e
fazendo com que ele emita menos metano”, apontou a docente.Numa
região em que a agropecuária é um dos setores com maior impacto na
emissão de gases com efeitos de estufa, o biocarvão daria também um
contributo para a redução de metano produzido pelas vacas.“A
ideia é conseguir criar dentro do sistema da ilha um produto que vai
fazer com que se consiga ter uma agricultura e uma pecuária de baixo
carbono, utilizando espécies invasoras, que hoje são um problema para o
sistema. Vamos estar a resolver dois problemas com uma única
tecnologia”, vincou a investigadora.João
Madruga, doutorado em ciências agrárias e investigador do Instituto de
Investigação e Tecnologias Agrárias e do Ambiente (IITAA) da
Universidade dos Açores, é supervisor do pós-doutoramento de Osania
Ferreira.O docente defendeu que esta
tecnologia poderá ser utilizada também com as podas das vinhas nos
Açores, que uma vez transformadas em biochar podem ser integradas no
terreno das videiras.“A maior parte das
vinhas são queimadas. Além de destruirmos um produto, estamos a libertar
CO2 [dióxido de carbono] para a atmosfera”, alertou.Esta
solução permitiria criar um vinho que fosse não só biológico, mas de
baixo carbono, uma característica que já começa a ser procurada por
consumidores com maiores preocupações ambientais.O
investigador salientou que os resultados dos ensaios que estão a ser
realizados são “muito promissores”, mas é preciso financiamento para
produzir em grande escala.“Estamos a
produzir num laboratório em pequena escala. Os resultados são muito
bons. Quando falamos em ir para o campo e produzir no campo precisamos
de mais volume de material”, explicou.João
Madruga espera que abram em breve candidaturas para projetos de
iniciativa empresarial, que permitam dar continuidade ao trabalho já
desenvolvido.“Estamos à espera que este processo possa ser acarinhado pelo Governo [Regional]”, frisou.