Único afinador de pianos dos Açores diz que ofício é minucioso e especializado
29 de set. de 2019, 11:00
— AO Online/ Lusa
"Sou o único afinador nos Açores. A nível nacional somos cerca de 20, mas apenas oito são credenciados, o que nos permite sermos reconhecidos pelas marcas de piano e pelas academias. É uma profissão altamente especializada, minuciosa e de muita paciência", conta à agência Lusa o faialense, de 40 anos, que se interessou pelo ofício quando estudava piano."Entrei com nove anos no conservatório regional da Horta para estudar piano e fascinava-me ver o trabalho do afinador. Queria explorar os sons que estão por detrás do piano e percebi que, se calhar, era isso que eu desejava fazer um dia mais tarde", revela.Concluídos os estudos musicais, em 2006 aproveitou uma bolsa do Governo Regional dos Açores para iniciar a formação como afinador de piano, tendo ido, dois anos depois, para a Alemanha especializar-se em pianos verticais e de cauda.Atualmente, trabalha "com todos, desde que exista um piano", seja através de deslocações ao exterior ou a partir da sua oficina na praia do Almoxarife, no Faial, tendo rejeitado convites para ir trabalhar para fora do país."Escolas, teatros, auditórios, conservatórios e particulares, um pouco por todo o lado. Trabalho com todos, desde que exista um piano. Já fui ao Funchal, ao continente, à Alemanha, Bélgica e Espanha. Grandes pianistas já passaram pelos Açores, muitos deles gostaram do meu trabalho e até me convidaram para ir trabalhar para fora do país", revela, apontando os nomes de Vladimir Viardo, Pavel Gililov, Oleg Marchev, Mário Laginha e António Rosado, como alguns dos intérpretes com quem trabalhou.Apesar dos convites, Márcio decidiu ficar sempre no Faial, devido a "entraves pessoais" e à "qualidade de vida"."Tenho família e é muito difícil conciliar. Tenho sempre mais qualidade de vida aqui. Se fosse para fora ia ser uma loucura acompanhar os artistas constantemente. É bonito, mas é um bocado agressivo. Existem outros entraves pessoais, como os negócios da família, na área da floricultura e do enoturismo", aponta.O afinador de pianos descreve o trabalho como "muito técnico", mas com "muita arte", sendo necessário estar em "boa forma física e psicológica"."É um trabalho artesanal, que pode demorar várias horas. É muito técnico, mas tem muita arte. Depois de fazer toda a parte técnica, é preciso trabalhar o som. É uma coisa mais pessoal, de gosto, e exige uma boa forma física e psicológica", assinala.Nos Açores, revela que tem vindo a "chamar a atenção" para os cuidados a ter na conservação do piano, apontando a humidade como o "inimigo número um" do instrumento."Nos Açores, as pessoas já vão tendo mais algum cuidado, mas foi preciso ir chamando a atenção. Uma coisa que me aflige muito é a humidade, que é o inimigo número um dos pianos. São madeiras e cordas de aço, que oscilam com climas húmidos. Por isso, o meu trabalho é um pouco ingrato, porque posso fazê-lo bem, mas se existirem falta de condições, no dia seguinte o piano já está desafinado", conclui.