Unicef alerta para situação de centenas de menores em Ceuta

Migrações

Hoje 16:48 — Lusa/AO Online

"Não esqueçamos em nenhum momento que se trata de meninos e meninas, que não é um debate político. Venham de onde vierem e estejam onde estiverem, o nosso trabalho é garantir os direitos destas crianças e a sua proteção", disse o porta-voz a agência das Nações Unidas para a infância (Unicef) em Espanha, Ildefonso González.A Unicef Espanha lembrou que Ceuta, um pequeno enclave espanhol no norte de África onde na semana passada entraram em 24 horas 72.000 pessoas, incluindo centenas de menores sem a companhia de um adulto, não tem capacidade para responder à situação das crianças e adolescentes que ficaram na cidade."A situação é agora de contingência, uma crise migratória em que temos de agir de forma urgente e rápida para lhes dar [aos menores] o melhor acolhimento possível", disse Ildefonso González, citado pela agência de notícias EFE.O porta-voz da Unicef apelou, neste contexto, a que as mais de mil crianças desacompanhadas que estão já identificadas em Ceuta sejam enviadas para estruturas de acolhimento noutros pontos de Espanha.Ildefonso González disse que crianças e adolescentes permanecem nas ruas, sem estar referenciados pelas autoridades, escondidos em vários locais da cidade de Ceuta e que há também menores feridos.Também a organização não-governamental Save The Children, de defesa dos direitos das crianças, alertou hoje para o risco de meninas que estão em Ceuta serem alvo de "agressões sexuais, tráfico e exploração", sobretudo as que continuam fora de centros de acolhimento.Num comunicado, a ONG sublinha que o sistema de atenção a menores de Ceuta está "sob uma pressão extraordinária" e sem capacidade para responder à situação que há na cidade.Também a Save the Children considera que nem todos os menores que entraram em Ceuta na semana passada foram já localizados e "teme-se que alguns permaneçam em situação de rua, escondidos" e "sem acessos a um lugar seguro".NA segunda-feira, a Save the Children tinha já alertado para o “grave risco” existente em Ceuta de muitos menores permanecerem fora do sistema de proteção.As autoridades já identificaram 528 menores de idade sozinhos em Ceuta que entraram ilegalmente na cidade na semana passada, mas há ainda mais nas ruas, admitiu na quarta-feira o delegado do Governo de Espanha no território.Segundo Miguel Ángel Pérez, não existe neste momento ainda um "número oficial" de entradas em Ceuta de menores de idade dentro dessa avalanche de 72.000 pessoas.As autoridades de Ceuta têm já em centros de acolhimentos 1.100 menores e as autoridades anunciaram a preparação de dois armazéns industriais e duas escolas para alojarem de forma urgente e temporária as centenas que entretanto foram já identificados e os que vierem ainda ser localizados nas ruas.Ainda antes da avalanche de quinta-feira, as autoridades da cidade autónoma tinham já alertado que estavam cerca de 800 menores estrangeiros desacompanhados nos centros de acolhimento, numa situação que já então consideravam de colapso.O atendimento atual supera em 2600% a capacidade oficial dos centros de menores de Ceuta, disse na quarta-feira o presidente do governo da cidade autónoma, Juan Jesus Vivas, do Partido Popular (PP, direita).Juan Jesus Vivas apelou "ao socorro, auxílio e solidariedade" dos outros executivos regionais de Espanha.A legislação espanhola estabelece que são os governos regionais que tutelam os menores estrangeiros que entram nos respetivos territórios sem estarem acompanhados de adultos e, em caso de sobrelotação das capacidades de acolhimento, as crianças e adolescentes são distribuídos por outras regiões.Governos regionais como os da Extremadura ou Aragão, governados pelo PP em coligação com o Vox (extrema-direita), já anunciaram que não vão acolher menores de Ceuta, com o executivo espanhol a lembrar que há recursos legais para obrigar a esse acolhimento.O Governo de Espanha anunciou na terça-feira a atribuição de uma verba extraordinária de 25 milhões de euros a Ceuta destinados à ajuda aos menores desacompanhados que se encontram na cidade.