União Europeia “inundada” por brinquedos tóxicos chineses, alerta relatório
Europa
28 de nov. de 2019, 08:38
— Lusa/AO Online
O
documento a que a Lusa teve acesso é da responsabilidade do Gabinete
Europeu do Ambiente, uma rede europeia de cerca de 150 organizações
não-governamentais de ambiente, de mais de 30 países. É
referido inclusivamente que foram encontradas contaminações perigosas
por ftalatos (composto químico para deixar plástico mais maleável e
considerado cancerígeno) em crianças em 13 de 15 países analisados.Segundo
os números divulgados pela organização, só este ano as autoridades
nacionais bloquearam a venda de 248 modelos de brinquedos, por revelarem
em testes níveis ilegais de produtos químicos tóxicos.Destes,
228 (92%) foram catalogados como de “risco grave”, 219 (88%) vinham da
China, e 127 (51%) estavam contaminados com ftalatos. Uma
máscara detetada na Alemanha tinha 43% de ftalato e produtos
encontrados na Polónia e em França também estavam “seriamente
contaminados”, diz o Gabinete Europeu do Ambiente (European
Environmental Bureau, EEB), que cita o Rapid Alert System da União
Europeia (para produtos não alimentares).Os
brinquedos não foram os únicos produtos confiscados por conterem
produtos tóxicos, mas também veículos a motor e eletrodomésticos entre
muitos outros. Nos documentos a que a Lusa
teve acesso as referências a Portugal são essencialmente em relação a
produtos tóxicos em automóveis. Outros países reportaram, além de
brinquedos, desde cadeiras para transportar crianças nos automóveis
(Bulgária), roupas para crianças (Chipre), cosméticos (República Checa),
andarilhos para bebé (França)ou equipamentos luminosos e elétricos
(Itália).No inverno passado as autoridades
alfandegárias de quatro países fronteiriços da União Europeia já tinham
anunciado que tinham sido feitas inspeções a 2,26 milhões de brinquedos
de plástico chineses, na sequência das quais tinham impedido a entrada
na Europa de 722.598 brinquedos, com níveis ilegais de ftalatos. Foram
destruídos 31.590 brinquedos.Dos
brinquedos contaminados a grande maioria (92%) tinham a marca de
segurança CE do fabricante. A marca CE quer dizer que o brinquedo cumpre
a legislação em vigor. Os produtos apreendidos, apesar de ostentarem a
marca, não cumpriam a legislação europeia em termos de saúde, segurança e
padrões ambientais.A EEB lembra que já
foi feito um grande estudo em vários países da União Europeia, um deles
Portugal, envolvendo crianças dos 6 aos 11 anos e as suas mães e
analisando a exposição a vários produtos. Foram encontradas na altura em
quase todos os países crianças contaminadas por ftalatos, em média o
dobro das mães, mas também houve níveis de contaminação que chegaram a
12 vezes mais do que as respetivas mães.“A
Agência Europeia de Produtos Químicos (com sede na Finlândia) concluiu
que a situação não é controlada adequadamente”, diz a EEB, que
acrescenta que “a Diretiva Europeia sobre segurança dos brinquedos
exclui a produção envolvendo muitos produtos químicos nocivos, mas
negligencia outros”, além de que “existem evidências” de que está a ser
comercializado plástico reciclado, para brinquedos, que contém
“substâncias proibidas”, e que se vendem brinquedos “com substâncias
legais em concentrações ilegais”.A EEB
lança uma campanha de consciencialização para o problema, afirmando
que é altura de as empresas deixarem de pôr produtos tóxicos nos
brinquedos.A responsável pela área na EEB,
Tatiana Santos, diz, citada no documento, que os inspetores fazem um
bom trabalho, mas questiona quantos brinquedos perigosos entram na
Europa sem serem detetados.Tatiana Santos
lembra que as crianças são vulneráveis e salienta que a indústria deve
“despertar rapidamente” para o problema e que os importadores devem
pressionar os fornecedores chineses. E defende “leis mais duras” e que
os brinquedos sejam etiquetados com a composição química.