Uma vida dedicada ao chá e às raízes do Porto Formoso
18 de out. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
Filho do Porto Formoso, José António Pacheco cresceu entre as memórias ligadas à agricultura, onde o pai e o avô, produtores agrícolas, também cultivavam chá. Uma ligação familiar e afetiva que acabaria por se transformar num projeto de vida, desenvolvido ao longo de 25 anos e marcado pela vontade de preservar uma das culturas mais emblemáticas da costa norte da ilha de São Miguel.Foi precisamente na Fábrica do Chá Porto Formoso que José António Pacheco começou por nos recordar a sua infância, numa freguesia que ainda não tinha “iluminação elétrica, com acessibilidades limitadas e uma ligação mais difícil aos principais centros urbanos da ilha”. Conta que as idas a Ponta Delgada “eram acontecimentos que davam assunto para vários dias. As pessoas contavam a experiência que tinham tido durante a viagem, de verem os edifícios com três andares em Ponta Delgada. Só havia dois autocarros diários e as pessoas do Porto Formoso tinham de vir para esta zona (fábrica do chá) para apanhar os autocarros que faziam a carreira do Nordeste ou das Furnas”. Explica ainda que a deslocação fazia-se por estradas antigas, por vezes interrompidas por “derrocadas durante o inverno”. A paisagem agrícola de então permanece igualmente viva na sua memória. “Recordo-me de um ‘mosaico’ de paisagem agrícola muito diversificado em que se cultivavam diversas culturas, como por exemplo, as cafuas de feijão, o milho, a batata, a fava, o trigo, que pintava a paisagem com diferentes cores ao longo do ano”. A pesca ocupava também um lugar importante na vida da comunidade do Porto Formoso. José António Pacheco refere que, naquela altura, os pescadores orientavam-se por referências em terra, recorrendo à triangulação para identificar os locais de pesca e, “lembro-me até de existir uma certa rivalidade entre os homens do mar e os homens da terra, porque os da pesca regressavam cedo a casa, mas os homens da terra diziam: ‘Eles quando veem o fumo a sair da chaminé da sua casa percebem que o almoço já está a ser cozinhado e regressam’, e os homens da terra tinham uma atividade de sol a sol”, refere bem disposto, explicando ainda que naquela altura a alimentação “não era muito abundante e não era muito variada, mas a bebida que acompanhava os trabalhos de campo, os trabalhos que exigiam uma certa força, era o chá, curiosamente. E acompanhavam chá com leite e açúcar. Portanto, tinha a proteína do leite, tinha a cafeína do chá, era uma bebida que lhes ajudava no trabalho de campo”.A paixão pela terra levou José António Pacheco a frequentar Engenharia Agrícola na Universidade dos Açores. Concluído o curso, viu na fábrica uma oportunidade para reerguer uma tradição. “Agarrei-me a esse projeto. Se calhar ainda tinha alguns vestígios daquela fase do ‘teenager’ inconsciente”, disse entre risos.É aqui que a Fábrica do Chá Porto Formoso entra na sua vida. Conta-nos que “essa fábrica, à semelhança de todas as outras que cá estavam, tinha encerrado há cerca de 20 anos e, em termos de infraestruturas, não tinha eletricidade, não tinha água, estava num estado de degradação bastante avançado”. As obras começaram três anos antes da abertura oficial, a 30 de março de 2001. Adianta que “foi necessário adquirir máquinas na Índia e também tivemos uma pessoa, o senhor Artur Magalhães, um técnico que esteve cerca de 20 anos à frente de uma empresa em Moçambique que tinha duas fábricas de chá e foi o principal responsável pela transferência do know-how da parte industrial”. Reconhece que a “indústria do chá não é fácil”, sublinhando que o negócio exige acompanhar toda a cadeia de produção, “desde o cultivo à transformação industrial e à comercialização”. Se a componente agrícola era a área em que se sentia mais preparado, a vertente comercial representou uma “aprendizagem adicional, num projeto de natureza familiar que contou também com o apoio da minha mulher, Regina Mendonça”.A Fábrica de Chá Porto Formoso recebe cerca de 50 mil visitantes por ano. Ainda assim, o objetivo inicial mantém-se, ou seja, “produzir um chá de qualidade, sem privilegiar grandes quantidades, e proporcionar a quem visita o espaço uma experiência ligada à história e à cultura da região”.Entre a troika e a pandemia, José António Pacheco nunca pensou em desistir. Aliás, afirma que “isso nos ajudou a ter alguma flexibilidade e a encarar o negócio de uma outra forma, porque o chá Porto Formoso já é uma imagem de marca”. A produção biológica é outra das apostas que reflete a sua forma de entender o negócio. A transição implicou substituir os “adubos químicos por fertilizantes orgânicos”, reforçando a preocupação ambiental e a valorização de uma agricultura sustentável. Para José António Pacheco, a cultura do chá tem a vantagem de “contribuir para diversificar a paisagem” e de estar associada à atividade turística que considera importante para a região. Recordou, entretanto, que no Porto Formoso, “algumas famílias continuam a cultivar o seu próprio chá para consumo doméstico e uma pesquisa realizada pelo Grupo Folclórico do Porto Formoso identifica isso mesmo, ou seja, que cerca de oito famílias mantém esta prática”. Ora, a preservação destes costumes está também na origem da Festa da Apanha do Chá, que a fábrica realiza anualmente, uma iniciativa que recria a apanha do chá à moda antiga: “Recriamos o fabrico tradicional de chá, as vivências da época, como o bailarico, os jogos populares infantis e tem sido um evento importante para divulgar o projeto do chá Porto Formoso, bem como a Ribeira Grande e a até a Região”, salientou, para destacando que “a minha mulher é que lidera e bem este evento”. Disse ainda que a fábrica “tem o espólio dos trajes tradicionais, temos mais de 100 trajes que foram sendo melhorados ao longo dos anos”.José António Pacheco falou-nos também da criação da Confraria do Chá Porto Formoso, em 2006. Refere que existia a “necessidade de reunir algumas personalidades ligadas ao mundo chá, ligadas à história, à saúde, porque o chá é muito eclético”. As Confrarias também têm uma função social muito importante e, nesse sentido, organizámos eventos muitos interessantes, publicamos um livro sobre o chá dos Açores”, coordenado por Virgílio Vieira e, “o livro foi escrito a vinte mãos, ou seja, cada confrade escreveu um capítulo”.A dedicação à terra e também às plantas, não se limita à fábrica. José António Pacheco mantém uma atividade profissional na Presidência do Governo dos Açores, onde coordena os jardins do Palácio de Santana e do Palácio da Conceição, em São Miguel, e do Palácio dos Capitães-Generais, na Terceira. No jardim da fábrica do Chá Porto Formoso, reúne cerca de 300 variedades de plantas provenientes de diferentes partes do mundo, beneficiando do clima da ilha. Diz que “tenho plantas praticamente do mundo inteiro e fico surpreendido, porque todas as semanas há uma planta que está em flor”.A conciliação entre as duas profissões e a vida familiar nem sempre foi fácil, sobretudo quando os filhos eram mais novos, mas tudo se fez. Atualmente, “eles também colaboram na fábrica quando regressam à ilha no verão”. Embora prefira não criar expectativas sobre uma eventual continuidade do negócio pela geração seguinte, admite que “seria um gosto enorme, não só para mim, mas para a família toda. Mas eles são livres”.Quando olha para os próximos 15 ou 20 anos, imagina-se ainda ligado ao chá e às plantas, falando com o mesmo entusiasmo sobre a atividade que escolheu como projeto de vida. Se pudesse mudar alguma coisa no seu percurso, escolheria “ter mais tempo para apreciar a paisagem, em vez de estar constantemente ocupado com questões técnicas e tarefas de gestão”.