27 de set. de 2019, 20:01
— Tatiana Ourique / AO Online
Natural da ilha Terceira, da freguesia
da Fonte do Bastardo de onde é pároco a par da vizinha de Porto Martins, o
“Padre Júlio” - como é mais conhecido- foi ordenado “No primeiro dia do verão
de 1992”. Seguidor convicto do pontificado e do pensamento do Papa Francisco, o
sacerdote é, também, olhado pela sociedade terceirense como pastor e símbolo de
humildade e simplicidade apesar do doutoramento em Teologia Moral em Roma. É
ainda professor do Seminário Episcopal de Angra desde 1994, assistente da
Comissão Diocesana Justiça e Paz, do Movimento da Mensagem de Fátima, da
Comissão para a Proteção de Menores, membro da Comissão de Ética do Hospital de
Angra, da Associação Teológica Ibérica para o Estudo da Moral e do Centro de
Estudos do Pensamento Português.
Um percurso intenso enquanto pastor e
pensador. Mas eis que em 2014 começa a interessar-se pela modalidade de golfe.
“Antes
desse tempo o golfe quase não me dizia nada. Era um desporto demasiado parado…
Mas nesse ano comecei a ver golfe na televisão. É um mundo! É um desporto
presidido pelo fair-play, muito
mental e com imensas táticas. Está-se sempre a aprender. Gostava de ver a forma
como os jogadores se concentravam, os tacos que escolhiam, a linha da bola que
projetavam, a paz com que se joga.”
Durante dois anos foi um mero espectador. Até que em
2016 e incentivado por uns amigos emigrantes que lhe “ofereceram um antigo jogo
de tacos, um saco de golfe e até – imagine-se – uns sapatos típicos desse
desporto. Depois de umas lições, no dia um de outubro de 2016 dei a minha
primeira volta ao campo”.
A comemorar 3 anos da prática da modalidade já tem
diversos motivos para ir para o Clube de Golfe da Ilha Terceira sempre que a
agenda preenchida permite: “Só quem pratica sabe o que é jogar golfe. Durante
um jogo, com 18 buracos, percorre-se mais de oito quilómetros a pé. O verde da
nossa natureza, a beleza incontornável do campo de golfe, a paz e a serenidade
que nos são oferecidas não têm preço. O golfe é um desporto em que jogamos
contra nós próprios e contra o campo. Quando, por exemplo, uma tacada sai mal,
ou o jogo está a correr mal, é imperioso esquecer as más sensações, como se
começássemos tudo de novo. Limpar a cabeça e procurar o que é mais importante
neste jogo: a concentração e a descontração. Gosto de rezar quando jogo golfe.”
Quanto à conotação elitista que a modalidade costuma ter
o sacerdote explica que na ilha Terceira existe, excecionalmente, um conceito
de golfe social. “Dizem que o golfe é um desporto de elite, que é tudo muito
caro e exclusivo. Não, não o é. Pelo menos na Terceira, marcada pela presença
dos americanos que construíram o campo e que tinham como caddies muitas crianças das freguesias à volta da Base. Esses
antigos caddies foram e ainda são
grandes jogadores de golfe. É um ambiente para todos, todos têm o seu lugar e é
agradável encontrar e jogar com amigos de todas as áreas e estratos sociais. O
golfe pode ensinar-nos uma certa humildade: num dia jogas bem e julgas-te o melhor
do mundo. No outro dia cais na real porque as coisas não correram bem. E às
vezes as coisas não correm bem simplesmente porque não correm bem… nunca sabes
jogar golfe o suficiente. Todos somos aprendizes”.
Entretanto, em três anos de prática da modalidade,
Júlio Rocha já levou três troféus para casa. “Tenho um handicap alto por ser quase um principiante e tenho, ainda assim, a
possibilidade de ganhar um troféu tal como os jogadores que jogam muito melhor
do que eu. É por isso que já ganhei três troféus! O primeiro foi o 2º lugar net no Torneio Zeca Ávila. O segundo foi
o 5º classificado gross no Torneio
das Sanjoaninas. E o terceiro, de que me orgulho mais, foi o primeiro lugar gross da categoria D no torneio Pro-Am deste ano”.
O acolhimento junto da comunidade golfista foi muito
positivo. Afinal não é todos os dias que se joga golfe com um padre. “Julgo ser
uma espécie de ave rara. Fui muito bem acolhido e, apesar de não ser lá grande
coisa como jogador, são muitos os que gostam de jogar comigo. Tenho também
muitos “professores” pois gostam de me ensinar e eu, claro, quero aprender. O
ambiente no CGIT é muito agradável e o convívio excelente. A amizade é um dos
valores mais prezados pelos golfistas.”
Quanto à simbiose entre os dois “papéis” José Júlio Rocha
garante conseguir gerir “Na perfeição. O golfe é a minha higiene mental. Um
pedaço de manhã ou de tarde no campo de golfe dão-me saúde a todos os níveis.
Mesmo quando jogo mal. Gosto muito de jogar sozinho e aí vou pondo em dia a
minha vida. É um dos lugares onde gosto de rezar, um pouco à guisa de São
Francisco que rezava com a natureza e os animais, de que é testemunho notável o
seu Cântico das Criaturas. E o golfe não me tira o tempo que preciso para a
minha vida pastoral e sacerdotal. Pelo contrário, uma vez que a minha vida
precisa de concentração, contemplação e programação, o tempo passado no campo,
para além de proporcionar descanso, também me ajuda na vida”.
Questionado sobre se o golfe é uma boa forma de
evangelizar, o membro do clero açoriano acredita que todos os momentos e
lugares são de evangelização e, apesar de não ter começado a jogar golfe com
esse objetivo, “mas dar testemunho de Jesus é um gesto inerente à minha própria
vida. Imensas vezes, quando jogamos, falamos de questões de fé e de Igreja,
tiramos dúvidas. Por mais de uma vez confessei amigos durante o jogo, o que
parece estranho mas não deixa de ser belo”.
Fotos:Luís Mendes, Fernando Manuel e Teresa Mendes.