Chegar a uma ilha e não ter a família, nem amigos e, às vezes, sem saber falar a língua. Deixar para trás o país que é seu, pessoas que lhe são próximas e uma vida que era conhecida para procurar trabalho, segurança ou a possibilidade de conseguir uma vida melhor. Os Açores têm sido lugar de chegada para muitos migrantes e o início, muitas vezes, é feito de solidão, dificuldades de integração e também de más experiências. É por ser esta a realidade de muitos que a Diocese de Angra reconhece a importância de reforçar a resposta que dá a migrantes, refugiados e deslocados: “A Mobilidade Humana é um serviço diocesano que engloba migrações, deslocados e turismo. E nós estamos a reestruturar o serviço das migrações e dos deslocados ou refugiados”, explica o padre Duarte Melo.A vontade é que a igreja esteja mais próxima de quem chega e crie respostas concretas para situações de vulnerabilidade. Nesse sentido, o serviço já conta com dois psicólogos. Cerca de 15 pessoas são acompanhadasNa ilha de São Miguel, cerca de 15 pessoas são acompanhadas pelo Serviço de Mobilidade Humana. “Há as dificuldades linguísticas, há as dificuldades culturais, há as dificuldades do trabalho e do trauma que trazem da rotura que fazem para virem à procura do sonho, de melhorar as suas vidas, deixando as famílias para trás”, contextualiza o padre Duarte Melo.Para acompanhar estas pessoas na chegada, existe uma bolsa de mediadores. O objetivo é orientar os migrantes no contacto com os serviços, escolas, entidades laborais e outras instituições. “É quase como um padrinho ou uma madrinha, entre aspas”, explica, “é criar uma rede de afetos”.Além disso, está ainda prevista a criação de uma residência de acolhimento em Ponta Delgada, para receber pessoas com mais dificuldades de habitação. A residência, em princípio, terá capacidade para acolher dez pessoas.“Há um espaço da Igreja, é numa rua normal da cidade de Ponta Delgada. E as pessoas serão também vizinhas e irão fazer vizinhança com os restantes moradores”, diz o padre Duarte Melo.Esta resposta é também pensada para que estudantes possam beneficiar, tendo em conta que também enfrentam dificuldades no acesso ao alojamento.“Não ter medo” de quem chegaO padre Duarte Melo diz que a resposta à imigração não deve ser só institucional, mas que deve envolver também a comunidade e as paróquias. “Este serviço vem apelar também, de certa forma, ao sentido vigilante da própria Igreja, de todos os cristãos, estar atentos a esta realidade, não ter medo, lutar contra todas as formas de xenofobia que possam aparecer”, afirma.Além disso, reconhece que “os Açores precisam de imigrantes, precisam de mão-de-obra, a economia depende muito dessas pessoas que vêm do exterior, são também uma fonte de riqueza cultural, pelas próprias vivências, pelas próprias histórias que trazem. Não podemos descurar todo este valor”.Por isso, “a obrigação da Igreja e dos cristãos é serem terapeutas da compaixão, lutar contra todas as formas de discriminação, de ódio e de exclusão, porque esta é a função da Igreja”, afirma o padre Duarte Melo.Fala ainda do tempo em que os açorianos emigraram para países como o Canadá, os Estados Unidos e as Bermudas. E que também eles deixaram para trás famílias e passaram por grandes dificuldades nos primeiros anos.Agora, “estamos a receber, porque melhoramos. E é por isso que as pessoas também nos procuram, porque veem aqui, veem nos Açores, um porto seguro para melhorarem as suas vidas e para contribuir para o bem destas ilhas”, sublinha.O Serviço de Mobilidade Humana está sediado em São Miguel e conta com a colaboração de várias estruturas da Igreja. Existe também na Terceira e no Pico está também a ser criado um núcleo de apoio aos migrantes.O objetivo, sublinha o padre Duarte Melo, “é criar uma rede de afetos, no fundo, é isso”.