Uma moeda para perpetuar a presidência portuguesa no bolso dos europeus
UE/Presidência
30 de dez. de 2020, 11:13
— Lusa/AO Online
Ultrapassadas
as ‘barreiras’ de segurança, chega-se ao ‘coração’ da Imprensa
Nacional-Casa da Moeda (INCM), onde são cunhadas as moedas nacionais (e
não só), mas, contrariamente ao que seria expectável, o tilintar do
metal foi substituído por um tímido silêncio, só interrompido, a
espaços, por um som mecânico vindo de uma sala envidraçada, que parece
concentrar todos os esforços da secção de cunhagem.“A
moeda corrente, aquela que vai fazer o seu caminho nas mãos das pessoas
e vai ser usada como moeda de troca, deve ser entregue ao Banco de
Portugal. Quem coloca a moeda em circulação é o Banco de Portugal. O
Banco de Portugal precisa de um mês de antecedência para fazer toda a
logística da distribuição no país. A moeda já está entregue no Banco de
Portugal, já deve estar nas diferentes delegações para que no dia 04 [de
janeiro] possa ser oferecida e posta em circulação”, esclareceu à Lusa
Alcides Gama, membro do Conselho de Administração da INCM.Com
as 500 mil moedas correntes, com o valor facial de dois euros,
comemorativas da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia já
entregues ao Banco de Portugal, depois de “um mês, um mês e meio” da
produção, o trabalho da equipa de cunhagem centra-se agora nas de
acabamento especial: Proof (moedas que apresentam o campo espelhado e os
relevos matizados) e BNC (moedas que apresentam o campo e os relevos
uniformemente brilhantes).“São moedas
embaladas, com um acabamento mais cuidado, que se destinam aos
colecionadores. Essas também já estão praticamente concluídas, porque
temos de iniciar a produção das outras moedas de 2021”, explicou Alcides
Gama.Foram essas moedas especiais,
reservadas a colecionadores, que a Lusa viu cunhar, num trabalho
meticuloso, paciente, em que máquina e moedeiro estão em rigorosa
harmonia para darem origem a uma moeda sem máculas ou imperfeições – as
que as têm são consideradas refugo e destruídas, porque, como notou o
administrador da INCM, são ‘apetitosas’ para os apaixonados pela
numismática. A perícia exigida por estas
moedas de colecionador levam a que a equipa de 10 elementos de José
Martinho precise de “uma semana e meia” para cunhar as 10 mil moedas,
alternando entre o processo das cinco mil com acabamento especial Proof e
o das outras tantas com BNC, à medida que os cunhos vão ficando gastos,
sendo regravados e regressando, para novo processo idêntico.“Não
há manuais que ensinem a ser moedeiro nem cunhador. Foram aprendendo
com outras gerações, como eu estou a aprender ainda. As gerações mais
antigas foram passando o conhecimento. Esta situação já se passa há
séculos. Depois, há de chegar a nossa vez de passar à geração vindoura”,
detalhou à Lusa o chefe da secção de cunhagem da Casa da Moeda,
lembrando que aquele trabalho exige “muita concentração e dedicação”.Embora
a moeda comemorativa da quarta presidência portuguesa tenha gerado
“algumas dificuldades técnicas”, não foi uma das que tirou o sono a José
Martinho, por não ter “grande novidade” para a sua equipa “a nível
técnico”.O mérito será, então, do seu
autor, Eduardo Aires, que a desenhou, pensando “ilustrar na moeda toda
esta complexidade das relações entre os países, as conexões entre
países, e marcou desde Lisboa, que vai assumir a presidência no primeiro
semestre, uma ligação com todas as capitais dos diferentes países da
zona euro, marcando essa conexão comercial, cultural, digital”. “Eu
acho que é uma moeda muito feliz”, defendeu o administrador da Casa da
Moeda, salientando que “é a quarta vez que Portugal assume a presidência
e é a quarta vez que a INCM está a cunhar uma moeda alusiva a essa
presidência”. “É muito importante porque,
sendo a emissão de moedas um ato de soberania, podem ser aproveitadas
para afirmar a cultura, os valores, a identidade de cada um dos países.
Ainda por cima, estamos a falar de uma moeda que vai circular pela zona
euro e Portugal vai estar nas mãos de diferentes europeus”, reforçou.Após
“mais de dois anos” de trabalho, a moeda de dois euros que assinala a
presidência semestral da UE vai circular, finalmente, na próxima semana,
um momento que enche de orgulho quer José Martinho, quer Alcides Gama.“É o sentimento de dever cumprido. Estamos aqui para isto, para servir o país”, concluiu o administrador.