Uma das principais mutações teve origem em Espanha
Covid-19
29 de out. de 2020, 18:32
— Lusa/AO Online
Análises
realizadas pela Universidade de Basileia, a Escola Politécnica Federal
de Zurique e o consórcio espanhol SeqCovid-Spain, liderado pelo Conselho
Superior de Investigação Científica, mostram que a nova variante se
espalhou pela Europa e outras regiões nos últimos meses a partir de
Espanha. O abrandamento das restrições de
viagem no verão e o facto de Espanha ser um importante destino turístico
facilitaram a expansão desta variante do genoma do vírus, segundo um
comunicado da Universidade de Basileia. “Só
na Europa, há centenas de variantes do novo coronavírus a circular, com
mutações nos genomas, mas muito poucas se disseminaram com tanto êxito e
se revelaram tão persistentes como esta”, de acordo com a informação
divulgada pelo centro.Os investigadores
afirmaram que o surgimento em Espanha, durante os meses estivais, pode
estar ligado a um “evento superprogador ligado aos trabalhadores
agrícolas no noroeste espanhol” e que se expandiu por toda a Espanha e
uma dezena de países europeus. Os peritos
batizaram esta mutação de "20A.EU1" e os testes detetaram-na em cerca
de 80% das amostras analisadas em Espanha, cerca de 90% no Reino Unido e
entre 30% a 40% das estudadas na Suíça e Países Baixos. Também
foi encontrada em amostras de França, Bélgica, Alemanha, Itália,
Letónia, Noruega e Suécia e mesmo fora da Europa, em análises de casos
registados em Hong Kong e na Nova Zelândia.A
professora da Universidade de Basileia Emma Hodcroft, autora principal
do estudo, defendeu que nada indica que esta variante do coronavírus
seja mais contagiosa do que as outras, mas que a sua transmissão poderá
dever-se a um abrandamento das medidas preventivas no verão.O
colega Iñaki Comas, coautor do estudo e diretor da SeqCovid-Spain,
acrescentou que as linhas desta mutação são semelhantes a outras
identificadas em anteriores estudos, durante a primavera. “Uma
variante [do vírus], ajudada por um evento superpropagador, pode
rapidamente prevalecer por todo um país”, sublinhou Comas, citado no
comunicado da universidade suíça.Os
especialistas advertiram que não há indicações de a variante
identificada ser mais perigosa do que as outras ou que tenha um
comportamento distinto, nem mesmo de ser a única prevalente na segunda
vaga europeia, em que outras mutações foram identificadas.Também
pediram cautela na hora de vincular diretamente a mutação ao forte
aumento de casos na Europa e frisaram que em alguns países do continente
que agora registam alarmantes taxas de contágio, como França ou
Bélgica, não é a variação predominante. Insistiram,
sim, que a descoberta poderá dar mais informação sobre a eficácia das
políticas de transporte aplicadas pelos países europeus este verão, após
a redução de casos da primeira vaga.“O
fecho de fronteiras de longa duração e as fortes restrições às viagens
não são desejáveis, mas com a expansão da 20A.EU1 parece claro que as
medidas tomadas foram insuficientes para deter os contágios de novas
variantes”, concluiu Hodcroft.A mutação
foi detetada primeiro em análises de sequências realizadas na Suíça,
usando a plataforma Nextstrain, desenvolvida pela Universidade de
Basileia e pelo Centro de Investigação Oncológica Fred Hutchinson, de
Seattle (EEUU).Esta plataforma, criada em
2015, permite um rastreio em tempo real de patógenos mediante
sequenciação genética, e já foi utilizada anteriormente para analisar a
expansão de vírus como o zika, o ébola e os da gripe.O
estudo hispano suíço não foi ainda publicado em revista científicas,
mas foi na rede especializada medRxiv, um arquivo de manuscritos médicos
ainda não revistos por outros cientistas, que está ligada à
norte-americana Univers.