Um terço dos pais interpreta mal o peso dos filhos
17 de fev. de 2020, 13:12
— Lusa/AO Online
De
acordo com a investigação, conduzida por Daniela Rodrigues, Aristides
Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “32,9% dos pais
interpretam mal o peso dos seus filhos (30,6% subestimam e 2,3%
sobrestimam)”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.O
estudo visou essencialmente “analisar a concordância entre o estatuto
nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas”, e
“observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao
risco da criança ter excesso de peso/obesidade”.Envolvendo
793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre seis e os
dez anos), a pesquisa pretendeu ainda “avaliar se a perceção que os pais
têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características
das crianças e socioeconómicas”, refere a UC.“Verificámos
que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto
nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou”, sublinha,
citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e
investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da
FCTUC.“A subestimação foi substancialmente
maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com
excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e,
principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças
tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado”, explicita Daniela
Rodrigues.É nas classes sociais mais
baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças,
especialmente das meninas: “Ter pais com menor estatuto socioeconómico e
mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso
dos filhos, principalmente entre as raparigas”, nota a investigadora.Sobre
a subestimação do peso, se esta estava, de algum modo, associada ao
risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores
verificaram que “pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes
mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o
que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e
mental, não só na infância, mas que permanecem na idade adulta”.Ponderando
as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a
Ciência e a Tecnologia, Daniela Rodrigues defende que “é urgente ajudar
os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade” dos
filhos para que possam “recorrer à ajuda dos profissionais de saúde”
para melhorarem a qualidade de vida da criança.“O
primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à
obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade
física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de
alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o
estatuto nutricional da criança”, acrescenta.No
artigo, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os
resultados do estudo. “Os pais podem não saber identificar o que é
excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a
apresentar a obesidade no seu extremo”.Por
outro lado, “numa altura em que a prevalência de excesso de peso e
obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem
‘normalizar’ o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram
nas crianças que os rodeiam”, afirma ainda Daniela Rodrigues.“Acreditamos
ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como
tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social,
evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade”,
conclui.