Um presépio onde cabe um pouco da ilha de São Miguel
26 de dez. de 2023, 08:47
— Nuno Martins Neves
As duas mil luzes do Convento da Esperança roubam logo a
atenção de quem entra no anexo da casa número 28 da rua António Sérgio,
na freguesia do Pico da Pedra. Hipnotizantes, fazem qualquer um viajar
até às festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres. A perfeição
com que o edifício foi recriado, bem como os figurinos que simulam a
procissão, são apenas um dos aspetos que tornam o presépio de Ricardo
Moreira um mimo para a vista. Guarda-florestal há 22 anos, mas
apaixonado por presépios a vida toda, Ricardo Moreira trouxe um pouco da
ilha de São Miguel até ao seu anexo: a neogótica Capela de Nossa
Senhora das Vitórias , que surge por entre fumarolas criadas por uma
máquina de fumo; a fábrica de Chá Gorreana ou uma imagem de outros
tempos, como é o caso da fábrica das Lombadas.“Em criança, ajudava
sempre a montar o presépio. Mas nessa altura ele tinha 1m2, agora já vou
nos 12m2”, conta, com orgulho. O gosto pelos trabalhos manuais fê-lo
aceitar o desafio que a sua mulher lhe lançou, em 2015, para construir
réplicas, à medida, de edifícios de São Miguel.“Pus mãos à obra,
claro que no início, não correu tudo bem, mas ao longo do tempo fui
aperfeiçoando técnicas. Sempre tive muita habilidade de mãos. Desde o
momento que penso numa peça que vou criar, tenho de pensar na técnica
que vou precisar para chegar lá. A parte dos telhados é uma técnica
própria que eu tenho, pois isto é tudo em madeira”, diz, com a mestria
de quem trabalha madeira e pedra como quer.Nunca faz um presépio igual ao anterior e precisa, quase sempre, de “uma semana, uma semana e meia” para concluir o trabalho. “Antes
de criar uma peça nova, faço muita pesquisa, desde fotografar o
edifício de vários ângulos, até ver fotografias antigas, como aconteceu
com as Lombadas, pois nos dias de hoje já só existem as ruínas da
fábrica. Muitas pessoas que nunca a viram, estão a ver a fábrica pela
primeira vez”.O gosto por este hobby já lhe permitiu criar imensos
edifícios que estão na memória dos micaelenses e dos açorianos. Mas
ainda há muitos projetos pela frente e Ricardo Moreira tem um, em
particular, que sonha em realizar.“Há uma igreja que penso nela
sempre que passo por ela, que é a Matriz de Ponta Delgada. Émuito
emblemática e complicada. Nunca se sabe o futuro, mas espero um ano
destes montar aquela igreja”. Peças vão estar em exposição por Ponta DelgadaO
próximo ano vai ser marcante para Ricardo Moreira, pois vai ter as suas
peças numa autêntica digressão por diversas juntas de freguesia do
concelho de Ponta Delgada.Isso obrigará a que a exposição que tem no anexo da sua casa - e que é visitável - termine mais cedo. “Inaugurei
o presépio em minha casa a 17 de dezembro e vai estar em exibição até
dia 3 de janeiro. Depois vai ser exposto na Câmara Municipal de Ponta
Delgada, durante dois meses em algumas localidades”.