Um pontificado de atualização moderada da Igreja sob a sombra dos abusos
Óbito/Papa
21 de abr. de 2025, 15:40
— Lusa/AO Online
Desde que
assumiu a liderança da Igreja Católica, Francisco assumiu o compromisso
de “olhar para as periferias” e procurou ser um exemplo pessoal para o
discurso de humildade e de defesa dos mais desfavorecidos, ao recusar os
luxos do seu antecessor. A preocupação
permanente pelos mais desfavorecidos, a luta contra os escândalos dos
abusos sexuais, a defesa do ambiente e da “casa comum”, a par da
reorganização da cúria e da abertura da discussão do caminho a seguir a
todos os católicos, são alguns dos pontos que caracterizam a década do
argentino Jorge Mário Bergoglio à frente da Igreja Católica.O
combate aos abusos sexuais foi assumido como uma das batalhas,
levando-o a convocar uma cimeira no Vaticano em fevereiro de 2019, para
“dar diretrizes uniformes para a igreja”, prometendo "fazer tudo o que
for necessário” para levar à justiça quem quer que tenha cometido algum
tipo de delito.As notícias, um pouco por
todo o mundo, eram pontuadas por casos de abusos sexuais na Igreja
Católica, com os Estados Unidos, Irlanda, França, Alemanha, Chile ou
Austrália a darem o mote para a necessidade de atuação célere do
Vaticano.Perante este desígnio do Papa
argentino, muitas conferências episcopais desencadearam, em alguns casos
a contragosto, mecanismos para apuramento das situações de abuso em
períodos definidos.Foi assim que chegaram
as notícias sobre milhares de casos identificados (ou, em alguns casos,
extrapolados) por diferentes comissões de investigação criadas em vários
países.Não obstante os “ventos de
abertura”, Francisco pouco tempo depois da sua eleição na encíclica
“Lúmen Fidei” (Luz da Fé) - texto que havia sido iniciado pelo seu
antecessor Bento XVI, que renunciou ao papado em 28 de fevereiro de 2013
-, reiterou a firme oposição ao casamento homossexual, ao mesmo tempo
que pedia aos crentes que "não sejam arrogantes, mas abertos ao
diálogo", incluindo com os não crentes.Mas
seria dois anos depois, com a encíclica “Laudato Si” (Louvado Sejas),
que o Papa argentino assumiu uma das suas grandes causas, defendendo que
os países ricos devem sacrificar algum do seu crescimento e libertar
recursos necessários para os países mais pobres, num texto em que propôs
uma revolução social, ambiental e económica.Cobrindo
temas que vão do ambiente ao desemprego e falta de habitação, Francisco
apelou em junho de 2015 às potências mundiais para salvarem o planeta,
considerando que o consumismo ameaça destruir a Terra e denunciando o
egoísmo económico e social das nações mais ricas.Para
o Papa, não há dúvida de que o aquecimento global é consequência da
ação humana, afeta principalmente os mais pobres e é preciso uma
“ecologia integral” em que "a humanidade tome consciência da necessidade
de mudar modos de vida, produção e consumo" para o combater.Cinco
anos depois, nova encíclica papal, intitulada “Fratelli Tutti” (Todos
Irmãos), dedicada à fraternidade e amizade social e na qual Francisco
criticou o reacendimento de populismos, racismo e discursos de ódio,
lamentando a perda de “sentido social” e o retrocesso histórico que o
mundo está a viver.Nessa encíclica,
Francisco identificou o surgimento de “novas formas de egoísmo e de
perda do sentido social, mascaradas por uma suposta defesa dos
interesses nacionais” e associou discursos de ódio a regimes políticos
populistas e a “abordagens económico-liberais”, que defendem a
necessidade de “evitar a todo o custo a chegada de pessoas migrantes”.Sobre
o racismo, Francisco disse ser um “vírus que muda facilmente” e “está
sempre à espreita”, em “formas de nacionalismo fechado e violento,
atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos”.A
sua última encíclica, publicada em 24 de outubro de 2024 e intitulada
“Dilexit nos” (Ele amou-nos), trata do “amor humano e divino do coração
de Jesus Cristo", com críticas ao que considerou ser um mundo preso no
consumo e violência.“Hoje tudo se compra e
se paga, e parece que o próprio sentido da dignidade depende das coisas
que se podem obter com o poder do dinheiro. Somos instigados a
acumular, a consumir e a distrairmo-nos, aprisionados por um sistema
degradante que não nos permite olhar para além das nossas necessidades
imediatas e mesquinhas”, escreve o Papa.O
papa promoveu a reforma da Cúria (o Governo do Vaticano), um processo
iniciado com a criação do Conselho de Cardeais, um mês após a sua
eleição, que teve como ponto alto em 2022 a constituição apostólica
‘Praedicate evangelium’, extinguindo vários organismos e criando
Dicastérios, que passam a funcionar como departamentos ministeriais do
Vaticano. Foi nesse contexto que o
português Tolentino de Mendonça assumiu as funções de prefeito do
Dicastério para a Cultura e a Educação, uma reforma que levou à nomeação
de uma mulher, em janeiro deste ano, para a liderança dos Institutos da
Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.Em
dezembro de 2023 foi publicada a declaração “Fiducia Supplicans”
(Suplicando a Confiança), pela Doutrina da Fé, que aborda as chamadas
“relações irregulares”, vínculos monogâmicos de pessoas que não casaram
pela Igreja.Os padres passaram a ter
permissão de realizar bênçãos a casais do mesmo sexo, mas também casais
do sexo oposto que ainda não são casados, sem que isso signifique que as
relações passem a ser abençoadas. Esta
decisão foi criticada por conservadores e por progressistas, gerando uma
das polémicas que mostram a atualização do Vaticano, sem colocar em
causa a doutrina. Dentro da Cúria, os mais
conservadores alinharam-se com o cardeal eleitor norte-americano
Raymond Burke, um cardeal norte-americano crítico da abertura do
Vaticano e defensor de um regime mais rigoroso no que respeita às
relações homossexuais ou divorciados.Outro
dos cardeais eleitores, que progressivamente se tem afastado do Papa é o
alemão Gerhard Müller, afastado da Congregação da Doutrina da Fé, que
criticou a carta pastoral “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), de 2016,
que abre a porta canónica aos divorciados recasados e a teologia
latino-americana por uma tradicional “falta de rigor teológico”.Na
gestão dos dinheiros do Vaticano, Francisco procurou também moralizar
os processos. O cardeal Angelo Becciu, próximo do Papa, foi afastado por
causa de um processo de corrupção que o levou a uma pena de cinco anos e
meio de prisão.