Um em cada três dentistas abdicou do salário para mitigar efeitos da redução de consultas
21 de ago. de 2020, 07:54
— Lusa/AO Online
A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) realizou
um inquérito em agosto a 4.136 médicos dentistas, de um total de 10.653
membros com inscrição ativa, para aferir o impacto da pandemia covid-19
nesta área profissional. Entre as medidas
adotadas pelos médicos dentistas para mitigar os efeitos do
encerramento temporário dos consultórios e da redução do número de
consultas, 33% disseram que reduziram ou abdicaram do salário enquanto
sócios-gerentes, 15% reduziram horários de trabalho e quase 11%
mantiveram funcionários em 'lay-off'. De
acordo com o inquérito, 71% das clínicas e consultórios de médicos
dentistas sofreram quebras na faturação entre 20% e 40% nos meses de
maio e junho. Quase 20% dos inquiridos reportaram uma quebra superior a
40%, e 35% registaram uma descida entre 21% e 40%, valores comparativos
com o mesmo período de 2019.Esta análise,
segundo a OMD, pretendeu fazer um primeiro balanço do impacto que a
Covid-19 está a ter nos consultórios e clínicas de medicina dentária
após a reabertura da atividade.Os médicos
dentistas estiveram parados entre meados de março e 4 de maio, atendendo
apenas situações urgentes ou inadiáveis na sequência de normas emitidas
devido à pandemia.Entre os que responderam ao inquérito, perto de 68% referiram que o número de consultas diminuiu após a reabertura.Para
46% dos que participaram no inquérito, o número de consultas diárias
baixou entre uma a cinco e para 35% houve uma redução de seis a 10. Para
quase 14% houve uma quebra superior a 10 consultas diárias. Segundo
a OMD, para a reabertura das clínicas e consultórios de medicina
dentária foram adotadas uma série de medidas de prevenção de contágio da
Covid-19 que obrigam, entre outras, à desinfeção dos gabinetes entre
consultas.De acordo com o inquérito 45%
dos médicos dentistas reportam um aumento de entre 15 e 30 minutos no
intervalo entre consultas, 30% até 15 minutos e 15% mencionam um
intervalo superior a 30 minutos. Há 48% de inquiridos que relatam menor disponibilidade financeira dos doentes para prosseguir tratamentos planeados. O bastonário da OMD, Miguel Pavão, salienta que esta é “uma época sem precedentes na medicina dentária""Se
podemos concluir que o impacto nestes primeiros meses é enorme, não
sabemos o que irá acontecer no futuro, nomeadamente, se existir uma
segunda vaga” da pandemia de covid-19, frisou.Questionados
sobre a sua situação salarial e apoios sociais durante o período em que
as clínicas e consultórios de medicina dentária estiveram com a
atividade limitada, 46% dos médicos dentistas disseram que não auferiram
qualquer rendimento ou receberam apoio social. Do total de inquiridos 8% receberam até 250 euros, perto de 18% até 499 euros e outros tantos obtiveram até 999 euros. Quase
80% dos inquiridos aderiram ao regime de 'lay-off' simplificado para os
funcionários e 26% beneficiaram do programa ‘Adaptar’ para
microempresas ou PMEs. Menos de 5% dos
médicos dentistas conseguiram aderir ao 'lay-off' para sócios-gerentes e
9% pediram apoios, mas não os conseguiram.Para o bastonário é “urgente que o Governo adote medidas específicas para a medicina dentária”. “Há
linhas de apoio que devem ser adaptadas às necessidades e requisitos da
medicina dentária, que não se enquadra em apoios já existentes. No caso
dos médicos dentistas, o Governo tem muito trabalho a fazer. Deveria
ter olhado de imediato para as empresas desta área, tendo em conta que
foi o próprio executivo, através do Ministério da Saúde, que suspendeu a
nossa atividade”, frisou,Quase 91% dos
médicos dentistas que participaram no inquérito têm microempresas e
quase 7% são PMEs com menos de 10 funcionários.“É
urgente apoiar estas empresas, sob pena de a situação económica que o
País atravessa resultar em mais prejuízos. É importante lembrar que 98%
dos cuidados de saúde oral prestados à população são realizados por
privados, é a saúde oral da população que está em risco e Portugal já
tinha antes da pandemia um dos piores índices de acesso a cuidados de
saúde oral da Europa”, disse Miguel Pavão. A
pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 787.918 mortos e infetou
mais de 22,4 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um
balanço feito pela agência francesa AFP.Em
Portugal, morreram 1.788 pessoas das 54.992 confirmadas como infetadas,
de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.