UEFA responsabilizada por distúrbios na final da Liga dos Campeões 2021/22
14 de fev. de 2023, 09:49
— Lusa/AO Online
Segundo as
conclusões da investigação independente, liderada pelo antigo ministro
da Educação Tiago Brandão Rodrigues, e realizada aos incidentes no e em
torno do Stade de France, em Paris, na vitória do Real Madrid ante o
Liverpool (1-0), é a UEFA, “como detentora do evento, que comporta
responsabilidade primária pelas falhas que quase levaram a um desastre”.No
documento, a que a Lusa teve acesso, também é apontado o dedo às
autoridades policiais da capital francesa e à Federação Francesa de
Futebol (FFF) pelos problemas de segurança registados em 28 de maio de
2022, bem como a dificuldade em “manter a ordem”, o que ainda assim “não
absolve a UEFA de responsabilidades”.A
‘colagem’ dos britânicos a ‘hooligans’, adeptos violentos, foi
“inexplicável”, adianta o relatório, depois de estes terem sido
inicialmente incriminados pelo Governo francês aquando dos desacatos, em
maio do ano passado.A vasta lista de
conclusões do comité de investigação independente, liderado por Brandão
Rodrigues, elenca a má gestão do volume de pessoas a chegar pelas várias
entradas do recinto, defeitos nos acessos, grupos de locais que
atacaram adeptos, tentando provocar confrontos, o mau policiamento e a
falta de planos de contingência.A mudança
abrupta do local de realização, de São Petersburgo (devido à guerra na
Ucrânia) par Paris, foi outro fator apontado, além de questões como a
bilhética, de um sistema duplo que introduziu confusão e problemas aos
bilhetes falsos e a tentativa de forçar entrada por pessoas sem bilhete,
são críticas deixadas no penúltimo capítulo do documento, ainda que a
questão quanto a ingressos forjados (ou inexistentes) não seja
conclusiva quanto à importância na disrupção do evento.As
críticas sucedem-se aos vários momentos, incluindo-se o adiamento do
pontapé de saída, devido aos confrontos e ao 'caos' que introduziu no
acesso às bancadas, mas a forma "confusa" como este ocorreu não escapa,
bem como a falta de comunicação desta medida para fora do estádio.A
Convenção de Saint-Denis, criada pelo Conselho da Europa para mudar o
paradigma de segurança em eventos desportivos para uma abordagem
integrada que coloca de parte o foco em fenómenos de violência, é
apontada como um exemplo, e uma "obrigação partilhada" de UEFA e
autoridades locais competentes, que não foi respeitada.O
comité deixa um total de 21 recomendações fundamentadas para UEFA e
autoridades, depois de ficar claro, quanto aos incidentes no Stade de
France, que "o ocorrido na final da 'Champions' foi largamente o
resultado de mau planeamento, falta de supervisão, pobre
interoperabilidade entre os vários 'stakeholders' e falta de
contingências"."Concordamos, neste aspeto,
com as conclusões do Senado de França. Contudo, como detentor do
evento, é da nossa opinião que foi, em última análise, a UEFA que tinha a
reponsabilidade pelo falhanço destes vários 'stakeholders' para que
cumprissem a sua obrigação partilhada de respeitar a Convenção de
Saint-Denis", lê-se no documento.Assim, o
modelo de policiamento para a final era "inconsistente e desajustado ao
propósito", com uma abordagem "demasiado securitizada, com ações
unilaterais por parte da polícia" e ideias "mal concebidas quanto a
ameaças à ordem pública", má cooperação e o uso excessivo de gás
lacrimogéneo e outro material dispersor.A
transparência, melhores práticas de cooperação, supervisão e vigilância,
bem como de auto-escrutínio por parte dos organismos competentes,
integram a lista de recomendações ao organismo de cúpula do futebol
europeu, com outras, relativas à resposta de segurança e ordem pública,
deixadas à polícia e à autarquia de Paris.Um
relatório anterior tinha apontado já para falhas organizacionais e no
policiamento da partida, o jogo de maior cartaz do futebol europeu de
clubes, e um dos maiores eventos desportivos mundiais, lembrando a
proximidade da realização dos Jogos Olímpicos Paris2024.