UEFA boicota provas da FIFA em protesto contra plano de comercialização dos Mundiais
Hoje 17:23
— Lusa/AO Online
“Como resultado da discussão, nenhuma associação da UEFA participará em qualquer competição
da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que
sejam abandonadas por completo e que sejam dadas garantias vinculativas
de que a FIFA jamais abrirá a sua governança ou as competições à
propriedade privada”, pode ler-se em comunicado publicado no sítio
oficial da confederação europeia na Internet.
A UEFA pronunciou-se no fim de uma reunião com
as suas 55 federações-membro, após ter contestado nos últimos dois dias
a intenção revelada na terça-feira pela FIFA de angariar até 4,2 mil
milhões de dólares com a venda de participações dos Campeonatos do Mundo
a privados.“A posição da Europa é clara.
Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral
para vender o que detém para a próxima geração. Ninguém deve ter
dúvidas: a UEFA e as suas federações nacionais vão opor-se a esses
planos com absoluta determinação”, referiu.Na
quarta-feira, o presidente da FIFA, o ítalo-suíço Gianni Infantino,
afirmou que o modelo de comercialização proposto é uma oportunidade para
as federações-membro do organismo, mas não uma obrigação.“Há
momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão
dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a ceder. O Mundial
pertencerá sempre ao futebol e, enquanto a Europa tiver voz, jamais
estará à venda”, reiterou a UEFA, na sequência de preocupações e
críticas manifestadas por outras entidades da modalidade e pela
política.A FIFA quer aumentar nos próximos
anos o financiamento destinado ao desenvolvimento do futebol para mais
de 10 mil milhões de dólares, através de uma nova estrutura comercial,
cuja criação depende da aprovação da maioria do Conselho e das 211
federações-membro.A proposta passa pela
criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), integralmente detida pela FIFA
e que reunirá os direitos comerciais do organismo, vendendo
participações minoritárias a investidores privados, que não vão ter
papel operacional na subsidiária, avaliada inicialmente em 20 mil
milhões de dólares.“É irresponsável e
indefensável que uma proposta de tamanha importância tenha sido
concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta
significativa. Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas
uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial”,
acrescentou a UEFA, liderada pelo esloveno Aleksander Ceferin.A
operação permitirá reforçar o programa FIFA Forward e vai aumentar o
financiamento de desenvolvimento por federação dos atuais oito para 20
milhões de dólares no ciclo 2027-2030, de 22 milhões entre 2031 e 2034 e
para 24 milhões de 2035 a 2038.A FIFA
assegura que vai manter o controlo exclusivo sobre a governação do
futebol, as competições, o calendário internacional e todas as decisões
regulamentares e desportivas, num plano revelado depois do Mundial2026,
que foi coorganizado por Estados Unidos, México e Canadá e atingiu
recordes de público e audiência na história do principal torneio de
seleções.O jornal britânico The Times
avançou na quarta-feira que o presidente da FIFA deu um prazo de 53 dias
às 211 federações-membro, entre as quais a Federação Portuguesa de
Futebol (FPF), para aceitarem o modelo, a troco de alguns milhões de
euros.“As federações enfrentam agora um
ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições ou
arcar com as consequências. Esta não é uma ‘decisão democrática’, mas
uma governança pela intimidação”, concluiu a UEFA, convicta de que “o
futebol não pode hipotecar o seu futuro em busca de lucro”.Para
operacionalizar o projeto, a FIFA está a trabalhar com o banco J.P.
Morgan, surgindo entre os potenciais investidores a Thrive Capital,
fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que é genro do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.