Tripulantes da Ryanair ‘presos’ entre contratos inferiores ao salário mínimo e emigração
12 de ago. de 2020, 09:14
— Jorge Sá Eusébio/Lusa
De
acordo com documentação a que a Lusa teve acesso, trabalhadores da
Crewlink, agência de emprego temporário que tem como única cliente a
companhia irlandesa de baixo custo Ryanair, receberam cartas dos
recursos humanos a informar que um “número limitado” de tripulantes iria
ser convidado a integrar os quadros da Ryanair.Em
caso de recusa da proposta, os trabalhadores – baseados em Ponta
Delgada, Lisboa e Porto - serão relocalizados para vários destinos da
rede da Crewlink no Reino Unido e Irlanda a partir de 01 de setembro.Segundo
uma troca de documentação entre um trabalhador e a empresa a que a Lusa
teve acesso, perante a recusa do trabalhador em assinar um contrato com
a Ryanair que propunha uma remuneração base de 588 euros brutos, abaixo
dos 635 euros consagrados na lei como salário mínimo nacional, a
empresa sugeriu a relocalização para o Reino Unido (East Midlands ou
Southend) em 01 de setembro.“É lamentável
que tenha rejeitado a proposta da Ryanair”, podia ler-se numa carta a um
trabalhador que recusou a que a Lusa teve acesso, que mencionava ainda
que a proposta estava acima dos 18.500 euros anuais de 850 horas de voo.“A
sua remuneração total foi calculada para incluir um prémio por todas as
horas associadas ao serviço de voo, incluindo, mas não se limitando a
relatórios antes e depois de voos, atrasos e todas as tarefas a bordo”,
pode ler-se na proposta de contrato.O
mesmo documento indica também que o salário do trabalhador inclui “um
prémio por trabalho desempenhado aos domingos e feriados”, excluindo
“incrementos automáticos ou aumentos salariais”.Para
além da remuneração base, de acordo com os contratos, o trabalhador tem
“direito a receber o ‘Flight Pay’ [pagamento de voo]”, que “não será
devido quando não se encontra disponível para voar, independentemente
dos motivos que indicar à empresa”, e que segundo a empresa inclui
subsídio para refeições, bebidas e conservação da farda.Os
trabalhadores são ainda elegíveis para um bónus de venda arbitrário,
que “possui estatuto extracontratual”, podendo a Ryanair, “em qualquer
momento, mudar, alterar ou retirar o prémio”, avisando com um mês de
antecedência. O contrato possui
adicionalmente uma cláusula em que o trabalhador declara “não ter
quaisquer reclamações/créditos contra a empresa” à data de 01 de
setembro de 2020.A documentação consultada
pela Lusa indica que estão a ser dados aos trabalhadores prazos de dois
a três dias para responder qual a sua base de preferência, bem como a
serem recusados pedidos para relocalização em Portugal ou adiamentos da
proposta de emigração.“Como declinou
confirmar qual seria a sua base preferida, a sua nova base foi
selecionada baseada nas necessidades operacionais, de acordo com o seu
contrato de emprego”, pode ler-se numa das missivas enviadas pela
Crewlink, indicando ao trabalhador o local de trabalho efetivo a partir
de 01 de setembro.De acordo com números do
Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), há
nestas circunstâncias três trabalhadores da base de Ponta Delgada, 14 de
Lisboa (num total de 32), e cerca de 15 no Porto já contactados (num
total de 85).O mesmo sindicato já tinha
alertado, na quarta-feira, que "teve conhecimento que os tripulantes da
base do Porto, à imagem do que já tinha acontecido na Base de Lisboa e
Ponta Delgada, estão a receber cartas para uma passagem para a Ryanair,
sendo uma forma ilícita da empresa para pressionar os associados em
aceitar condições inqualificáveis"O mesmo
sindicato também já se tinha queixado de pagamentos feitos pela empresa,
em julho, abaixo do valor do salário mínimo nacional.Em
respostas a questões da Lusa, a Ryanair confirmou que não irá usar
elementos da empresa subcontratada Crewlink, em Portugal durante a
temporada de inverno.A empresa “ofereceu a
um número limitado” de trabalhadores da Crewlink “emprego direto com a
Ryanair, num pacote de remuneração de mais de 18.000 euros por ano
(significativamente mais que o salário mínimo português)”, de acordo com
a resposta enviada à Lusa.“Uma pequena
minoria de tripulantes da agência optou por permanecer empregado na
Crewlink, que está a trabalhar com essa tripulação para assegurar a
continuação do emprego com a Crewlink em bases fora de Portugal”, de
acordo com as respostas.A Ryanair afirmou
ainda que a remuneração dos seus tripulantes de cabine em Portugal “é
composta por um número de elementos incluindo pagamento básico,
pagamento por voos, bónus de vendas e subsídios anuais”, e que “todos os
elementos de pagamento estão referenciados nos contratos”.