Tribunal valida indulto de Bolsonaro a autores do massacre na prisão do Carandiru
9 de ago. de 2024, 12:12
— Lusa/AO Online
O Tribunal de Justiça de
São Paulo considerou constitucional o indulto concedido por Bolsonaro em
dezembro de 2022, nos últimos dias do seu mandato enquanto Presidente, e
que havia sido suspenso como medida cautelar pelo Supremo Tribunal
Federal em janeiro de 2023 a pedido do Ministério Público.Apesar
do Ministério Público ter alegado a inconstitucionalidade da medida por
ser "contrária à dignidade humana e aos princípios do direito
internacional público", os membros do Órgão Especial do Tribunal, por 18
votos a favor e seis contra, consideraram que o indulto não violava a
Constituição nem o direito penal.A maioria
dos juízes concluiu que os crimes foram cometidos há mais de três
décadas, numa altura em que este tipo de crime não era considerado
“crime hediondo” pelo código penal.A Constituição estabelece que os autores de crimes hediondos não podem beneficiar de indultos ou perdões.O
decreto redigido por Bolsonaro para conceder o indulto prevê
especificamente o perdão para policias condenados "por atos ocorridos há
mais de 30 anos" e que “não era considerado hediondo no momento de sua
prática”, o que foi interpretado como uma medida especificamente
destinada a beneficiar os autores do massacre na prisão.O
perdão, agora novamente em vigor, beneficia os 74 polícias condenados
pelo massacre, cinco dos quais morreram antes da conclusão do
julgamento.Cabe agora ao mesmo Tribunal de
Justiça de São Paulo, que havia considerado os policias culpados, mas
ainda não havia estabelecido as penas para cada um, aplicar o indulto
aos 69 sobreviventes, perdoar as suas penas e extinguir suas
condenações.Os 74 policiais foram
condenados em 2013 e 2014 por 111 assassínios, mas nunca chegaram a ser
presos graças ao adiamento dos julgamentos dos recursos em tribunais
superiores, num caso que se tornou símbolo da impunidade no Brasil.O
massacre do Carandiru ocorreu a 02 de outubro de 1992, em resposta a um
motim no bloco nove desta prisão em São Paulo, a maior do Brasil na
altura, que albergava cerca de 8.000 reclusos em condições de
sobrelotação e insalubridade. A polícia
reprimiu o motim com extrema violência, disparando contra os presos
quando muitos deles estavam fechados nas celas, sem possibilidade de se
defenderem ou fugirem. De acordo com a
análise forense apresentada durante o julgamento, os 111 mortos foram
baleados um total de 515 vezes, incluindo 126 na cabeça, o que os grupos
de direitos humanos acreditam ser uma prova de que foram sumariamente
executados.A prisão do Carandiru foi posteriormente encerrada e demolida em 2002 para dar lugar a um parque.