Tribunal manda julgar polícias acusados de tortura e violação em esquadra de Lisboa
Hoje 11:57
— Lusa/AO Online
Na leitura da decisão instrutória, a
juíza considerou que a acusação tem "indícios suficientes" de que os
polícias cometeram os crimes de que estão acusados pelo Ministério
Público e que existe uma "séria probabilidade" de serem condenados no
final do julgamento.O principal arguido,
de 22 anos e em prisão preventiva desde que foi detido em julho de 2025,
responde por 29 crimes: seis de tortura, cinco de violação - quatro
tentativas e uma consumada -, sete de abuso de poder, três de ofensas à
integridade física qualificada, dois de falsificação de documento, um de
furto qualificado, um de violação de correspondência, dois de roubo e
dois de detenção de arma proibida.O outro
polícia, de 26 anos, também detido em julho de 2025, está acusado de
sete crimes - dois de tortura, três de abuso de poder, um de ofensa à
integridade física e outro de detenção de arma proibida - e encontra-se
atualmente em prisão domiciliária.Segundo a
acusação do Ministério Público (MP), entre julho de 2024 e março de
2025, os dois agentes da esquadra do Rato, no centro de Lisboa, terão
agredido com "socos e chapadas e coronhadas na cabeça pessoas que tinham
detido, tendo inclusivamente filmado e fotografado algumas dessas
situações e as respetivas vítimas".Nalguns casos, terão sodomizado ou tentado sodomizar com um objeto alguns dos homens detidos.As
vítimas eram sobretudo toxicodependentes, pessoas que cometeram
pequenos delitos, muitos deles estrangeiros e irregulares em Portugal,
ou em situação de sem-abrigo, refere o MP.Algumas das imagens dos abusos, acrescenta, foram partilhadas em grupos de WhatsApp com dezenas de outros agentes da PSP.Nos
requerimentos de abertura de instrução, os dois polícias invocaram
questões processuais e a falta de indícios para pôr em causa a acusação,
tendo todos os argumentos sido rejeitados pelo tribunal, sintetizou a juíza de instrução."Toda a prova que foi coligida durante a fase de inquérito é vasta, é diversa, mas é coerente entre si", sublinhou a magistrada.A
juíza considerou que, embora os arguidos tenham posto em causa a
credibilidade das vítimas, porque "na sua ótica, são pessoas marginais",
estas relatam o que sucedeu de "forma precisa", existindo igualmente
vídeos e perícias."Só em fase de
julgamento, mediante o contraditório e a imediação, poderá este tribunal
de julgamento aferir da força" dos depoimentos dos arguidos e das
testemunhas, concluiu.Em março de 2026,
outros sete agentes da PSP foram detidos e ficaram em prisão preventiva
por crimes similares, no âmbito de um segundo inquérito relativo a
situações de tortura, abuso de poder e violação na esquadra do Rato.O
caso, denunciado pela PSP, deu origem a nove processos disciplinares e
um processo de inquérito, este último sobre quem assistiu aos vídeos,
adiantou, na altura, o inspetor-geral da Administração Interna, Pedro
Figueiredo.