Tribunal escrutinou como foram ‘recheados’ os polidesportivos
Hoje 09:15
— Nuno Martins Neves
O Tribunal Judicial de Ponta Delgada realizou a quarta sessão de
julgamento do processo Nortada, com a audição do oitavo e último
arguido, o empresário Pedro Correia, sobre como foram equipados os
polidesportivos dos Fenais da Ajuda e da Lomba da Maia.Na acusação, o
Ministério Público acusava Alexandre Gaudêncio e Pedro Correia - na
altura, responsável pela área da contratação pública da sociedade
Jacinto Correia, de terem engendrado um esquema para dar a imagem de
dinamismo ao autarca.Os factos em questão remontam a 2017 e 2018 e
prendem-se com a instalação de equipamentos em dois polidesportivos
construídos pelo município, nas freguesias dos Fenais da Ajuda e da
Lomba da Maia.Perante o coletivo de juízes, presidido pelo
magistrado José Vicente, Pedro Correia confirmou que a empresa Jacinto
Correia tinha vencido o concurso para a construção do polidesportivo dos
Fenais da Ajuda e que, após a sua conclusão, propôs ao engenheiro José
Medeiros - funcionário da autarquia - equipar o recinto desportivo,
visto que tinha o material em stock, o que veio a fazer, tendo o
polidesportivo sido inaugurado em agosto de 2017, a dois meses das
eleições autárquicas.Questionado pelo juiz José Vicente se o fazia
de forma gratuita, visto que o procedimento concursal para a instalação
de equipamentos no recinto, no valor de 40 mil euros mais IVA, só viria a
ser lançado em janeiro de 2018, já com o material instalado nos
polidesportivos, o empresário explicou que instalou sem qualquer custo,
que se não ganhasse o concurso, retiraria o equipamento instalado e que o
fazia de forma a promover a sua empresa, reiterando ainda que nunca
falou com Alexandre Gaudêncio sobre o assunto. Uma tese que parece
não ter convencido o coletivo de juízes, que considerou que ao equipar o
polidesportivo sem qualquer custo e sem procedimento concursal que o
sustentasse, Pedro Correia estaria a condicionar o próprio concurso. A
juíza Sónia Braga questionou mesmo se o objetivo não era engrandecer o
trabalho do autarca, a meses das eleições que poderiam dar a reeleição a
Alexandre Gaudêncio.Sobre o pavilhão da Lomba da Maia, Pedro
Correia assumiu que apenas tratou de equipar o recinto, também
imediatamente após a conclusão da obra, que viria a ser inaugurada
também em agosto de 2017.Responsável pela área financeira exigia documentação para efetuar transferênciaO
julgamento prosseguiu com a audição das primeiras testemunhas. O
primeiro a ser ouvido em tribunal foi o técnico superior responsável
pela área da contratação pública, entre 2001 e 2018, tendo sido
questionado sobre os contratos com a Azores Green Mark, empresa do ramo
da limpeza e manutenção de trilhos, propriedade de Nuno Costa, que não
foi pronunciado. Segundo o técnico superior, o presidente da
autarquia, Alexandre Gaudêncio, indicava-lhe por e-mail que devia
contactar a referida empresa, apresentando, igualmente, o valor do
concurso. No entanto, a testemunha sublinhou que, em casos em que não
havia histórico de serviços, era usual uma consulta prévia aos
fornecedores.Também foi ouvida a chefe de divisão da Divisão de
Gestão Administrativa e Financeira da autarquia, que foi confrontada com
uma conversa telefónica gravada entre si e Alexandre Gaudêncio, onde o
autarca lhe expressava uma ordem direta para efetuar um pagamento,
referente à primeira tranche de um protocolo assinado com o empresário
Jacinto Franco, sobre o festival Monte Verde. Na transcrição, lida
pelo juiz JoséVicente, a responsável financeira negava efetuar a
transferência, por não estar em sua posse toda a documentação exigida
para enviar os dados para a contabilidade, afirmando mesmo que “não
podemos assumir responsabilidade que não temos”.O julgamento
prossegue nas próximas semanas, com a audição das restantes testemunhas
arroladas quer pelo Ministério Público, quer pelos advogados dos
arguidos.