Tribunal decidiu não pronunciar Paulo Estêvão por difamação
Hoje 09:46
— Rui Jorge Cabral
O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu não pronunciar Paulo Estêvão
pela prática do crime de difamação ao escritor Joel Neto, confirmando
assim a decisão de não pronúncia que já tinha sido proferida pelo Juízo
Local Criminal de Angra do Heroísmo. Paulo Estêvão é atualmente
secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e, à data
dos factos, em agosto de 2023, era deputado à Assembleia Legislativa
Regional. Contudo em nota à comunicação social, Paulo Estêvão afirma
divulgar esta informação “a título exclusivamente pessoal”.Conforme
afirma Paulo Estêvão, “quase três anos depois, o processo termina sem
julgamento e sem condenação, com a decisão de não pronúncia
definitivamente consolidada. Considerei - e por isso faço esta
comunicação pública - que a opinião pública, que conheceu a queixa e o
pedido de levantamento da imunidade parlamentar, tem o direito de
conhecer também o desenlace final deste caso”. Recorde-se que este
processo teve origem no artigo de opinião de Paulo Estêvão intitulado “O
Hemingway do Lugar dos Dois Caminhos”, publicado no jornal Diário
Insular a 5 de agosto de 2023, no qual o próprio Paulo Estêvão admite
ter formulado “uma crítica literária assumidamente severa” ao livro
‘Jénifer, ou a princesa da França’, do escritor açoriano Joel Neto. Mas a
frase que deu origem a este processo foi quando Paulo Estêvão afirmou
nesse artigo que Joel Neto, ao escrever o livro ‘Jénifer, ou a princesa
da França’, uma obra de ficção centrada numa criança que vive num bairro
social dos Açores, procurou “resgatar e plagiar a estrutura narrativa
essencial do conto ‘A Vendedora de Fósforos’, uma obra magistral de Hans
Christian Andersen”. Sobre este processo, Paulo Estêvão recorda na
nota enviada à comunicação social que na altura foi solicitado ao
parlamento açoriano o levantamento da sua imunidade parlamentar. “Não
procurei impedir o apuramento judicial através dessa prerrogativa.
Declarei publicamente que não me opunha ao seu levantamento, respondi a
tudo o que me foi imputado e aguardei serenamente a decisão da Justiça”,
afirma Paulo Estêvão. Que cita igualmente na nota enviada à
comunicação social a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, revelando
que “quando o Assistente se lança na aventura editorial tem que estar
preparado para ler, ouvir, tanto as críticas positivas e agradáveis como
aquelas que são agrestes, desagradáveis e negativas. Mal andaria a
sociedade se quem se dedica à crítica de literatura, teatro, cinema,
televisão, música, pintura, qualquer arte, praticasse um crime sempre
que produzisse uma opinião negativa capaz de ferir a suscetibilidade do
artista”. E Paulo Estêvão conclui afirmando que “publicar uma obra
significa submetê-la ao juízo dos leitores e dos críticos. Não existe um
direito automático ao aplauso. A notoriedade pública de um autor,
qualquer que ele seja, não o coloca acima da crítica”. Reação de Joel NetoContactado
pelo Açoriano Oriental para reagir ao desfecho deste processo por
difamação, que não foi atendido pelo tribunal, o escritor Joel Neto
considera que esta “é uma decisão com que, evidentemente, não podemos
concordar. Chamar plagiador a um escritor (ou a um músico, ou a um
pintor) é como chamar pedófilo a um pai de família ou abusador sexual a
um médico: é o supremo insulto e não exige comprovação para produzir um
efeito”. Numa declaração enviada ao Açoriano Oriental, Joel Neto
afirma também que “os tribunais entenderam que se tratou de liberdade de
expressão. Do meu ponto de vista, liberdade de expressão é quando se
critica alguém de maneira subjetiva. Quando se diz: “Roubou!”, tem de se
provar que roubou. Quando se diz: “Matou!”, tem de se provar que matou.
Ora, para se dizer “Plagiou!”, não é preciso provar que plagiou? Acato a
decisão do tribunal, que é soberano, mas não concordo. Dizer “Plagiou!”
sem provar que plagiou nem sequer é difamação, mas calúnia: acusa não
só de fazer algo que não fez, mas de cometer um crime que não cometeu”.E
Joel Neto revela ainda que “na sequência deste processo, o Dr. Paulo
Estêvão processou-me a mim por ter chamado “bronco” ao líder do PPM. Ele
nem sequer é líder do PPM (é apenas o líder do PPM Açores), mas ele
sentiu-se ‘ofendido’ na mesma. Perdeu, recorreu para a Relação e perdeu
outra vez”.