Tribunal de Contas Europeu com muitas dúvidas sobre o novo Fundo Europeu combinado
Hoje 09:02
— Rui Jorge Cabral
O Tribunal de Contas Europeu lançou vários alertas sobre novo
Fundo Europeu combinado proposto pela Comissão Europeia para o próximo
Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034. Em causa estão “vários
riscos para a gestão financeira” do novo fundo, que levam o Tribunal de
Contas Europeu a pedir “regras de controlo mais fortes”, num Fundo
Europeu combinado que terá também influência nos apoios para as Regiões
Ultraperiféricas.Este novo Fundo Europeu combinado irá ter quase
metade dos dois biliões de euros previstos para o próximo Quadro
Financeiro Plurianual, juntando no mesmo fundo áreas como a coesão, a
agricultura e desenvolvimento rural, as pescas e assuntos marítimos, a
prosperidade ou a segurança, geridas por planos nacionais, em vez da
gestão centralizada em Bruxelas. Isto se a proposta da Comissão
Europeia para o modelo do novo Quadro Financeiro Plurianual acabar por
entrar em vigor, uma vez que o parecer do Tribunal de Contas Europeu
responde ao Parlamento Europeu e ao Conselho da União Europeia, “que lhe
pediram uma opinião especializada e independente sobre as propostas da
Comissão Europeia para criar o novo Fundo Europeu combinado”, pode
ler-se em nota de imprensa. No seu parecer sobre o Fundo Europeu
combinado e no que diz respeito às Regiões Ultraperiféricas - onde se
inclui os Açores - o Tribunal de Contas Europeu lembra que a proposta da
Comissão Europeia “reúne disposições para as Regiões Ultraperiféricas
que abrangem as políticas de coesão, agricultura e pescas, mas deixará
de atribuir um orçamento separado para o apoio a estas regiões”, sendo
aliás o fim anunciado do programa POSEI um aspeto que tem sido muito
criticado nos Açores pelas associações do setor agrícola, pelos partidos
políticos, pelos eurodeputados açorianos e pelo Governo Regional.Com
o novo fundo combinado, alerta o Tribunal de Contas Europeu, “o
regulamento exigirá que os Estados-Membros incluam medidas para abordar
as restrições permanentes e estruturais das Regiões Ultraperiféricas nos
seus planos, mas deixará aos Estados-Membros a discricionariedade para
identificar medidas para atingir os objetivos com base nas necessidades e
desafios específicos” das Regiões Ultraperiféricas.Recorde-se que
em 2025, a Comissão Europeia propôs um orçamento total de dois biliões
de euros para o Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034, sendo que o novo
Fundo Europeu combinado vai receber a maior fatia deste quadro
financeiro, valendo quase metade (44%) das despesas. Segundo explica
o Tribunal de Contas Europeu em nota de imprensa, “a ideia é tornar o
financiamento europeu mais simples e menos espalhado, fazendo com que as
diferentes áreas funcionem melhor juntas”. Outra novidade é a do
Fundo Europeu combinado trazer “um novo modelo de financiamento e
execução, em que os países recebem o dinheiro quando provarem que
fizeram os investimentos e reformas prometidas - os chamados “marcos” e
“metas” - seguindo-se aqui o mesmo modelo aplicado no Plano de
Recuperação e Resiliência (PRR). Contudo, este modelo não deixa de
merecer reparos por parte do Tribunal de Contas Europeu, que afirma em
nota de imprensa que “juntar vários fundos é difícil porque cada um tem
objetivos, prazos e justificações diferentes, o que torna a estrutura
mais complicada e obriga a escolher entre prioridades”. Além disso,
sublinha o Tribunal de Contas Europeu, “os países da União Europeia
podem ter dificuldade em cumprir todas as metas europeias através dos
planos nacionais e, ao mesmo tempo, responder às necessidades de
desenvolvimento regionais e nacionais”. Outro reparo feito pelo
Tribunal de Contas Europeu é o de que “a proposta promete simplificar as
regras, mas isso pode acontecer apenas em Bruxelas, sem nenhum alívio
na burocracia suportada pelos países, regiões e pessoas”.E junta-se a
esta crítica uma outra: “neste novo modelo, os pagamentos passam a
depender da concretização de marcos e metas que se baseiam no que é
realmente feito. Por isso, é essencial que estes marcos e metas sejam
muito bem definidos, para que seja claro quando são concretizados”. O
Tribunal de Contas Europeu alerta igualmente que “também é preciso
garantir que as estimativas de custos são de confiança” e para o facto “das diferenças entre os países nos marcos e metas que desenham, na
ambição que lhes dão e na forma como os interpretam fazerem com que seja
difícil estabelecer comparações e tratar todos os países por igual”.Por
fim, outro reparo importante do Tribunal de Contas Europeu é o de, com o
modelo proposto, “a Comissão Europeia poder não conseguir garantir a
100% ao Parlamento Europeu e ao Conselho da União Europeia que os fundos
são bem geridos”. Isto porque, conclui, “a proposta reduz o papel
de Bruxelas e depende mais dos sistemas de controlo dos países”,
lembrando o Tribunal de Contas Europeu que “tem encontrado problemas
nestes sistemas um ano após outro”. Por isso, apela a que haja “regras
de controlo e auditoria que funcionem e digam que, em caso de violação
das leis europeias e nacionais, haverá perda de dinheiro”.