Três quartos das famílias portuguesas com dificuldades financeiras em 2022
15 de mar. de 2023, 09:42
— Lusa/AO Online
Segundo
os resultados do barómetro, 74% das famílias assumiram ter enfrentado,
mensalmente, problemas financeiros, sendo que 8% afirmaram ter
dificuldade em pagar despesas ditas essenciais, relacionadas com a
mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação.Face
a 2021, a dificuldade em enfrentar as despesas com a alimentação sofreu
o maior aumento (15%), seguindo-se as despesas com a habitação (5%) e
com a mobilidade (4%).O estudo da Deco
Proteste precisa que “as principais parcelas que geram constrangimentos
na gestão orçamental” dos consumidores dizem respeito às despesas com o
carro – combustíveis, manutenção e seguros (67%) –, alimentação – carne,
peixe e alternativas vegetarianas (59%) –, férias grandes – viagens e
estadias (57%) –, cuidados dentários (55%) e manutenção da casa – obras,
remodelações (54%).“O índice que mede a
capacidade financeira das famílias também não deixa espaço para dúvida:
em 2022, atingiu o valor mais baixo desde há cinco anos – 42,1 (de 0 a
100; em que quanto mais elevado o número, maior a capacidade financeira
para enfrentar as despesas mensais)”, salienta.Em
termos geográficos, é nos Açores que o índice apresenta piores
resultados (37,2), seguindo-se os distritos de Vila Real (38) e Aveiro
(39,4). Em “maior desafogo financeiro”
estão os distritos de Coimbra (47,1) Beja (43,5), Lisboa (43,5) e a
Região Autónoma da Madeira (45,1).Citada
no comunicado, a diretora de Comunicação e Relações Institucionais da
Deco Proteste considera que “os resultados de 2022 não são animadores”:
“É constatável que não houve uma melhoria efetiva das condições de vida
dos portugueses nos últimos anos e as consequências da guerra na Ucrânia
puseram a nu todas as fragilidades da nossa economia e a debilidade
económica da maioria dos agregados familiares”, afirma Rita Rodrigues.Numa
análise mais aprofundada à evolução das despesas com alimentação e
habitação, a Deco Proteste – que, há mais de um ano, analisa o aumento
do preço do cabaz alimentar e as flutuações das taxas de juro – constata
que, entre fevereiro de 2022 e fevereiro deste ano, o valor do cabaz
alimentar passou de 185 euros para 222 euros, um aumento de 20%.“Em
2022, 44% das famílias portuguesas assumiram a dificuldade em pagar as
contas com os produtos alimentares, numa tendência que se agrava desde
2020, onde as famílias em apuros eram quase metade”, refere.Detalhando
que “mercearia, carne, peixe, vegetais e frutas são os produtos que os
consumidores têm cada vez mais dificuldades em pôr nas suas mesas”, a
Deco Proteste nota que “mais de metade dos agregados assumem que o preço
crescente é um claro entrave à sua compra regular”.Quanto
à área da habitação, “a realidade dos portugueses também não é
risonha”: “Depois de as taxas de juros terem andado em terreno negativo
meses a fio, o Banco Central Europeu iniciou o seu reajuste, reduzindo,
ainda mais, o dinheiro que sobra no final do mês dos consumidores”,
explica. Com o custo da habitação em
Portugal, seja para compra ou para arrendamento, a destacar-se como “dos
mais elevados da Europa”, a Deco Proteste diz ser “fácil de entender o
motivo pelo qual quase metade das famílias portuguesas (44%) assume ter
dificuldades em pagar a sua renda ou o seu empréstimo”.De
acordo com organização de defesa dos consumidores, “as dificuldades
económicas sentidas pelos portugueses refletem-se, igualmente, na
capacidade de poupança”, com quase 75% a afirmarem ser “impossível ou
quase impossível estender o seu rendimento, de forma a conseguir poupar
sequer uma pequena quantia”.“Estamos
perante um cenário pouco animador para as famílias portuguesas. A
incerteza da duração da guerra e os seus efeitos, a ausência de medidas
que protejam os consumidores e a crise financeira que vem asfixiando a
classe média na última década fazem antever uma evolução pouco
auspiciosa da qualidade de vida em Portugal”, considera Rita Rodrigues.Embora
vendo com “satisfação a preocupação do Estado em intervir e em criar
mecanismos concretos”, a responsável da Deco Proteste defende que “estes
têm de ser rápidos e estruturados para ajudar os portugueses”.“Preconizamos
que o Governo esteja atento à realidade e às dificuldades concretas que
a maioria dos portugueses tem de enfrentar diariamente”, sustenta.