Treinador de polo aquático ucraniano 'troca' guerra pela paz do Alentejo
Ucrânia
14 de abr. de 2022, 17:33
— Lusa/AO Online
“Foi
uma decisão difícil, mas temos esperança de que, mais cedo ou mais
tarde, possamos voltar, se houver para onde voltar”, afirma à agência
Lusa Roman Fomichenko, que agora ‘veste a camisola’ do Aminata Évora
Clube de Natação.Antigo internacional de
polo aquático pela Ucrânia, Roman Fomichenko, de 49 anos, é treinador da
modalidade e tinha a sua própria escola de natação na cidade ucraniana
de Dnipro, no sudeste do país.Chegado ao
Alentejo há poucas semanas, Roman, que reforçou a equipa técnica de polo
aquático e também de natação do clube de Évora, acompanha de perto mais
um treino da equipa de sub-12, onde também alinha um dos seus três
filhos.Sempre junto ao tanque de água, o
antigo internacional ucraniano não perde de vista as jogadas e até dá
instruções aos jovens jogadores. Por enquanto, através de gestos, porque
a língua portuguesa é desconhecida e o seu inglês é “médio”.“A
adaptação não é muito complicada, porque muitas pessoas falam inglês e
nós falamos um pouco”, assinala o treinador, que tem outro filho
integrado na equipa de natação artística da equipa alentejana.Devido
à guerra, este refugiado ucraniano deixou a vida que tinha no seu país,
no passado dia 10 de março, e, com a mulher e os três filhos, rumou a
Portugal, numa viagem de automóvel que durou “uma semana e meia”,
recorda.A guerra “é uma coisa horrível” e o
que está a acontecer na Ucrânia “é quase como se fosse a terceira
Guerra Mundial”, lamenta, afirmando acreditar que a situação no seu país
“ainda se vai tornar mais difícil”.Roman
veio para Portugal porque sabia que podia contar com o apoio da
Federação Portuguesa de Natação (FPN), que tem um “bom relacionamento
institucional” com a sua congénere ucraniana, além de estarem em terras
lusas “amigos e jogadores ucranianos”.Com a
mulher a dar apoio escolar aos filhos em casa, o treinador aguarda a
obtenção da equivalência dos níveis de natação para poder treinar
formalmente em Portugal e até já se inscreveu num curso para aprender a
língua portuguesa.A acompanhar os
‘primeiros passos’ de Roman está Vasco Vieira, treinador do Aminata, que
revela que foram os “pais, atletas e amigos” do clube que criaram as
“condições básicas” para que o técnico ucraniano e a família pudessem
ficar em Évora.“Conseguimos arranjar uma
casa, de forma gratuita, para ficarem três ou quatro meses, mobílias e
equipamentos, porque a casa não tinha nada, e fizemos um abastecimento
alimentar considerável”, conta.Apesar de a
língua ser “um entrave”, salienta o técnico, Roman vai dar ao clube de
Évora “uma experiência diferente”, pois, provém de outra “escola de
formação”, foi internacional e “tem uma larga experiência como
treinador”.O envolvimento do clube
alentejano no apoio a refugiados vindos da Ucrânia não se limita a
Roman. O Aminata também está a dar ‘a mão’ a Liudmyla Simochova, de 44
anos.Esta ucraniana decidiu abandonar
Kiev, no início de março, juntamente com os três filhos, para fugirem à
guerra, e está a viver em Évora e trabalha na área da limpeza no clube.Durante
a viagem de carro, relata Liudmyla, os quatro passaram por vários
países europeus e escolheram Portugal por ser um país que tem um custo
de vida mais baixo em relação a outros.“Na
Alemanha e em França, vimos que era tudo muito caro. Não temos muito
dinheiro e, depois, não conseguíamos pagar um hotel nem um hostel. Fomos
para a frente à procura de países em que pudéssemos viver com o
dinheiro que temos”, explica.Liudmyla, que
já tem os filhos a frequentar a escola e atividades desportivas em
Évora, deseja voltar à sua terra, mas não sabe quando vai ser possível.
Por agora, diz que quer ficar em Portugal e aprender a falar português.O Aminata, cuja piscina tem cerca 800 utentes por mês, tem a sua equipa de polo aquático na segunda divisão nacional.