Transição energética e políticas sociais e de coesão são prioridades para o BE
Europeias2024
22 de mai. de 2024, 09:08
— Paula Gouveia
Aurora Ribeiro, de 39 anos, residente no Faial, é investigadora na área
da Sociologia, e candidata-se em sétimo lugar na lista nacional do Bloco
de Esquerda (BE) às eleições para o Parlamento Europeu. Com
licenciatura em Cinema - Realização, e mestrado em Comunicação e Media, é
atualmente bolseira de doutoramento em Sociologia, no Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. É membro da Comissão
Coordenadora Regional do Bloco de Esquerda Açores, foi cabeça-de-lista
nas Regionais de 2020 e 2024 pelo Faial e candidata à Câmara Municipal
da Horta em 2021. De que modo o Bloco de Esquerda pode fazer a diferença para os Açores no Parlamento Europeu?Os
assuntos que o Bloco tem como prioridade já marcam a diferença em
relação às propostas dos outros partidos, sobretudo aqui ao nível dos
Açores. A prioridade máxima é dada ao clima, uma questão essencial no
momento que tem sido secundarizada, sempre que surge alguma outra crise
(sem querer retirar a gravidade às questões da guerra e da pandemia). A
verdade é que há efeitos negativos das alterações climáticas a
sentirem-se por toda a parte do mundo, mas também aqui nos Açores. (...)
O Bloco tem tido também como prioridade as políticas de coesão e as
políticas sociais e, portanto, para aquilo que importa para os Açores,
neste momento, somos o partido que está mais bem preparado para
enfrentar estas questões.E no que se refere a estas questões, que medidas defende o BE que devem ser implementadas?A
transição energética tem de ser feita já para amanhã. Não podemos
esperar mais. Temos de parar com o financiamento a tudo o que tenha a
ver com o combustível fóssil e fazer a transição energética para as
energias renováveis. E é aqui que os Açores podem ter um lugar
importante - a investigação que é feita a nível regional nas áreas do
clima, nas áreas do oceano, nas energias renováveis e até em relação ao
espaço, são pilares fundamentais, e são do interesse também da União
Europeia, que existam estas Regiões Ultraperiféricas. (...) Mas
depois há duas áreas fundamentais que são a Agricultura e as Pescas. E o
que defendemos é que existam apoios específicos para fazer uma
transição agroecológica que não traga riscos para o produtor - isto na
parte da Agricultura. Na parte das Pescas, defendemos as artes de pesca
tradicionais que são as mais sustentáveis - nós já sabemos fazer uma
pesca sustentável. A questão é que, a vários níveis, seja nacional,
seja europeu, as políticas não têm sido favoráveis à manutenção dessa
forma de pescar, antes pelo contrário. E estamos a ter problemas no
salto e vara. E há um conjunto de situações que devem ser
salvaguardadas.Ao nível dos fundos europeus, têm permitido
investimentos em infraestruturas, e apoiar a formação dos açorianos, bem
como as empresas. Considera que têm sido bem direcionados?Em termos
de objetivos gerais até poderíamos dizer que sim. O que acontece muitas
vezes com os fundos europeus é que, na verdade, depois os critérios que
são exigidos e muitas vezes as áreas prioritárias, nem sempre permitem
um aproveitamento a 100% desses fundos. E há situações como da formação,
acesso ao Ensino Superior, que acabam por ter uma execução curta por
causa desses critérios. O que defendemos é que haja uma maior
universalidade na aceitação de propostas e de candidaturas, para que
possa haver uma maior execução e cumprir o objetivo geral, como poder
combater indicadores graves como por exemplo, na área da educação o
abandono escolar precoce muito elevado tanto para a média nacional, como
para a média europeia. E portanto nós vemos os fundos europeus, não
apenas como uma questão de justiça e de compensação, mas devem ser
vistos também como um investimento. E, tendo em conta que tanto os
Açores, como a Madeira, estão na cauda da Europa em termos de
investimento na investigação, na tecnologia e na Ciência, achamos que é
prioritário apostar nas áreas do clima, oceano, espaço, numa perspetiva
de conservação dos nossos ecossistemas e também de compreender melhor
como funcionam as alterações climáticas. (...) E em questões como a
mineração do mar profundo, exigimos que a Europa tome uma posição em
relação a esta questão a nível comunitário. (...)Já mencionou aqui
que a Região apresenta índices relacionados com a educação e a pobreza
preocupantes. Há ainda o problema do envelhecimento populacional e da
desertificação em algumas ilhas. Como é que as políticas europeias
influenciar as nossas políticas e o investimento?Para o Bloco de
Esquerda é muito claro que todos estes indicadores estão relacionados
uns com os outros. O índice de pobreza e de exclusão social está
diretamente ligado com a baixa formação da população, e isso contribui
também para o aprofundamento das desigualdades entre as pessoas da
própria Região. Saiu um estudo recente que indica que 44% das crianças
que vivem um ambiente familiar de violência doméstica estão mais
propensas ao abandono escolar precoce. E sabemos que nos Açores a
violência doméstica, a violência de género, são uma realidade e com
índices altos. Tudo isto está interligado, e portanto, tem de haver uma
abordagem integrada para intervencionar nestas questões. Tem de haver um
apoio para políticas antidiscriminação, anti-desigualdade, nomeadamente
de género, e um maior investimento em políticas de apoio à formação
qualificada. Consideramos que investimento na formação na área da
Ciência e Tecnologia também poderá promover o aumento do emprego
qualificado. (...)Estando no horizonte, a entrada de mais países
para a União Europeia considera que os Açores têm de se preparar para
uma redução de fundos comunitários? Há o risco de desaparecer o estatuto
de Região Ultraperiférica? Consideramos que o estatuto de Região
Ultraperiférica (RUP) deve ser mantido e vamos bater-nos por isso. Não é
só uma questão de justiça, dos princípios da igualdade e da não
discriminação da União Europeia que prevê que, em situações diferentes,
mecanismos diferentes sejam aplicados, como é do interesse da própria
Europa que nas suas regiões ultraperiféricas o desenvolvimento económico
seja harmonioso com o resto da comunidade. Não faz sentido que esse
estatuto deixe de existir. Se entrarem novos países não é por isso que
deixaremos de ser uma RUP, porque o somos geograficamente. (...) Agora
temos de ter uma voz ativa no PE no sentido de defender esse estatuto.Sendo
a agricultura um setor estratégico para os Açores, o que será
prioritário para Bloco de Esquerda na defesa deste setor no âmbito
europeu?O setor da Agricultura e com os meios que estão vulgarizados
na Região depende muito de fatores de produção externos - adubos,
fertilizantes... E os Açores estão sempre muito dependentes das
flutuações do mercado em relação a estes produtos e uma parte do
rendimento é escoada para estas aquisições. O que temos vindo a
defender é que haja uma transição agroecológica e de diversificação
agrícola - temos terra para valorizar todos os produtos agrícolas que
temos, e nesse caminho a agricultura biológica será um aliado. Mas é
muito difícil para um produtor que já está instalado e tem a sua forma
de produção vulgarizada neste momento fazer essa transição sem estar a
correr riscos. Não é fácil, se não se tiver outra forma de rendimento,
fazer essa transição. O que defendemos é que todos os apoios,
nomeadamente o POSEI, contenham critérios de seleção e obrigatoriedade
de modo a que essa transição venha a ser feita o mais rapidamente
possível. (...)Ao nível dos transportes, o BE defende a criação de
uma espécie de POSEI para as Regiões Ultraperiféricas, como os Açores.
Há condições para ganhar força esta ideia no próximo mandato?Seria
muito interessante. Penso que é transversal a vários partidos. E é de
espantar que não exista já, porque é uma forma muito direta de compensar
estas características da Região, por ser distante, por ser dispersa, e,
portanto, um POSEI para os Transportes, nomeadamente de mercadorias e
comerciais, seria uma forma muito rápida, muito direta de compensar a
situação que temos.Mas no âmbito das acessibilidades, temos um outro
tema que é a questão da companhia aérea açoriana da SATA - o que temos
vindo a defender é que o governo regional negoceie novamente uma
reestruturação da SATA. A questão é que a União Europeia avalia a SATA
como se fosse uma outra companhia aérea qualquer europeia, e impõe
restrições nomeadamente a injeções de capital se não houver a
privatização. Mas aquilo que defendemos - e que a Comissão Europeia já
reconheceu - é que a maior parte das rotas da SATA são ou de serviço
público, ou de grande interesse para as populações, no caso a ligação ao
continente ou à diáspora, e portanto essa importância devia ser
reconhecida e devia haver derrogações para a SATA ter um regime de
exceção e não ter de ser privatizada - o que o BE é contra.Enfrentamos
tempos complexos no plano internacional, por causa das guerras na
Ucrânia e em Gaza. Há partidos que defendem que é necessário um maior
investimento na Defesa. Qual é o posicionamento do Bloco?(...)
Parece-nos que em termos de Defesa a UE está relativamente bem
apetrechada. Nas situações concretas dos conflitos, na invasão russa da
Ucrânia, o que temos defendido sempre é o caminho diplomático da defesa
da paz. Temos vindo a defender a realização de uma conferência da paz,
em parceria com a ONU e ela ainda não aconteceu. (...) Temos sido
contra a ideia que o presidente francês avançou de pôr tropas da NATO na
Ucrânia (...). Na questão da Palestina e de Israel, condenamos o facto
de a UE manter ainda um contrato de associação com Israel. Julgamos que
deve ser rapidamente cessado. E as sanções que se impuseram à Rússia não
se impuseram a Israel. Defendemos a cooperação entre os Estados. (...)Qual a expectativa do BE em relação aos resultados eleitorais no dia 9 de junho?Nós
trabalhamos sempre para o melhor resultado possível. Temos confiança
que vamos conseguir manter a representação parlamentar de dois
deputados. A Catarina Martins que é cabeça-de-lista a nível nacional é
uma figura conhecida do público português, tem provas dadas (...) José
Gusmão que é o nosso segundo candidato mantém a continuidade, uma vez
que a nossa eurodeputada Marisa Matias está agora na Assembleia da
República. (...)Que garantias lhe dão os cabeças-de-lista do BE de que terão em conta as preocupações dos Açores?O
diálogo tem sido muito próximo, mesmo com a eurodeputada Marisa
Matias, e mesmo agora na campanha para as Europeias a proximidade é
sempre muito grande entre todos os candidatos. A lista tem debatido os
diversos temas, a construção do Manifesto foi conjunta, não só com o
continente, mas também com a Madeira. E essa vontade de colaborar o que
se prevê é que se mantenha.