Trabalhadores da Base das Lajes insistem que Governo da República deve adiantar salários em atraso
28 de out. de 2025, 17:27
— Lusa/AO Online
“Os
trabalhadores estão preocupados, desiludidos, tristes, estão a
sentir-se abandonados. É uma situação complicada. As contas não esperam,
cada dia que passa a situação agrava-se e nós precisamos de respostas”,
afirmou a presidente da Comissão Representativa dos Trabalhadores (CRT)
portugueses na Base das Lajes, Paula Terra, em conferência de imprensa,
em Angra do Heroísmo.Os salários na Base
das Lajes, na ilha Terceira, são pagos quinzenalmente. A quinzena de 17
de outubro foi paga com cortes e da 27 de outubro não foi paga.Em
causa está a introdução de uma suspensão temporária e não remunerada
aplicável a funcionários públicos norte-americanos, devido à paralisação
parcial da administração norte-americana por não ter sido aprovado o
orçamento federal dos Estados Unidos.Numa
conferência de imprensa conjunta, o Sindicato dos Trabalhadores das
Indústrias Transformadoras, Alimentação, Comércio, Escritórios, Turismo e
Transportes (SITACEHTT) dos Açores e a Comissão Representativa dos
Trabalhadores apelaram a que o Estado português siga o exemplo dos
governos da Alemanha e de Espanha.“Aquilo
que temos vindo a reivindicar desde o primeiro momento é o que outros
países já fizeram, nomeadamente a Alemanha e a Espanha, que é garantir
que os seus trabalhadores têm efetivamente um vencimento no fim do mês.
Adiantaram os vencimentos e depois vão proceder a um entendimento junto
dos norte-americanos”, explicou o coordenador do SITACEHTT/Açores, Vítor
Silva.Num comunicado conjunto, com três
parágrafos, os ministérios da Defesa Nacional e dos Negócios
Estrangeiros adiantaram, na quinta-feira, que o Governo português estava
a “avaliar soluções eventualmente possíveis face ao quadro normativo
nacional vigente, com vista à redução desse impacto”.O
executivo salientou ainda que é “alheio à descrita situação”, mas está
“preocupado com o impacto decorrente desse atraso nos trabalhadores
afetados e respetivas famílias”.Vítor
Silva alegou que o Estado português é “interlocutor direto” num acordo
internacional com os Estados Unidos e, por isso, “não pode estar alheio a
uma situação desta natureza”.“Cabe ao
Estado português, como representante destes trabalhadores no acordo,
assegurar o pagamento dos seus salários e nós vamos reivindicar isso,
custe o que custar, e mandar as cartas que forem necessárias, para o
primeiro-ministro, para o ministro dos Negócios Estrangeiros e para o
ministro da Defesa”, sublinhou.A situação é
conhecida há mais de duas semanas, mas, segundo Paula Terra, o Governo
da República ainda não entrou em contacto com os trabalhadores.“Tivemos
conhecimento, através de um comunicado dos dois ministérios, que
estavam a ser preparadas soluções. A comissão de trabalhadores gostava
de saber que soluções são essas”, apontou.Não
há ainda uma previsão de quando será resolvido o impasse quanto à
aprovação do orçamento federal dos Estados Unidos e sem ele os
trabalhadores portugueses continuarão sem receber.Paula Terra insistiu, por isso, que a “única solução” é ser o Governo português a adiantar os vencimentos.“Não
podemos estar neste compasso de espera por uma situação que não é da
nossa responsabilidade. Somos cidadãos portugueses, a trabalhar em
Portugal, ao abrigo de um acordo assinado entre dois países. Se um lado
não cumpre com o acordo, o outro lado terá de o fazer cumprir”, frisou.Segundo
a presidente da CRT, os trabalhadores da Base das Lajes têm “o mesmo
tipo de contratos” do que os que trabalham para a Força Aérea
norte-americana em solo alemão.“Em
princípio, a solução aplicada a eles podia ser aplicada aos
trabalhadores da Base das Lajes. Se há alguma situação em termos legais
que impeça nós não tivemos conhecimento”, explicou.Esta
não é a primeira vez que a administração norte-americana fica sem
orçamento, mas, nas outras vezes, a paralisação não afetou os
trabalhadores portugueses na Base das Lajes. “Essa
situação nunca se colocou aos trabalhadores portugueses, porque nós
éramos sempre protegidos pelos acordos laborais. Pelo menos era a
informação que passava na altura”, adiantou Paula Terra.Apesar
de terem garantias de que a situação é “ilegal”, os trabalhadores foram
aconselhados a continuarem a apresentar-se ao trabalho, sob pena de
serem despedidos, e não podem fazer greve ou contestar a situação em
tribunal.“Um dos pontos que ficaram bem
assentes na primeira reunião que tivemos com os dois comandos, português
e norte-americano, foi de que esta situação não era legal e que esta
situação não podia ser aplicada desta maneira aos trabalhadores. Mas
como não há orçamento aprovado, não há fundos para pagar salários”,
revelou a presidente da CRT.