"Tive uma vida muito intensa e orgulho-me muito de tudo o que fiz”

20 de set. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

Gualter Furtado cresceu nas Furnas, num ambiente que marcou profundamente as suas opções de vida e a forma como vê o mundo. Na sua infância, “viver nas Furnas era uma grande felicidade”, recordando que “havia problemas sociais, muitas carências, desde logo, a maioria dos meus colegas andavam descalços, o que me fazia uma certa impressão porque eu tinha sapatos. Então, quando chegava à escola descalçava os sapatos e andava descalço”. Resultado, “chegava à casa com os pés todos arrebentados, porque até jogávamos à bola descalços”, lembra com boa disposição. O pai era imigrante e isso deu-lhe mais liberdade, “por isso tenho uma ligação muito forte ao meu avô paterno. Praticamente foi a pessoa que mais me influenciou”. Recorda com saudades, não só o avô Manuel Furtado, como a mãe Arménia Furtado, “os nossos vizinhos, o Padre Afonso Arruda Quental, a Sr.ª Maria José de Sousa, o António José Galante, Fernando Cabaço e o Benjamin Rodrigues”. Ainda sobre a sua infância, relata-nos que “foi muito repartida com a Ribeira Quente. O meu avô era feitor e levava o gado para para a Ribeira Quente, para a praia, e também íamos (...)”.  Na “minha rua havia muitas raparigas que não se casavam - para um dia mais tarde poderem tomar conta dos pais -, mas eram pessoas muito cultas, liam muito e obrigavam-nos a ler e a escrever”, conta-nos. De tal forma que aos cinco anos “já sabia ler e escrever. Mas só podia entrar para a escola com sete anos e o meu avô foi falar com a professora, a D. Osvalda (….). Fui para a escola, mas ela pediu-me para ter muito cuidado, porque tínhamos visitas regulares dos inspetores”. Ora, sempre que abriam a porta da “minha sala de aulas, corria para debaixo da secretária”, conta entre risos. Desde muito novo, Gualter Furtado valoriza o contacto com a natureza. Fez muito campismo em lugares de natureza intacta na ilha de São Miguel e “sempre pratiquei caça desportiva, por isso tenho um relacionamento muito intenso com os animais, designadamente com os cães. Gosto muito do mundo das plantas e das árvores e, ainda hoje, sou um adepto dos passeios pedestres”, referiu. O desporto também fez parte da sua vida: “Joguei andebol e futebol, e no futebol comecei no juniores do União Micaelense e fui jogar na equipa pioneira do Vale Formoso (...)”. Após a primária, Gualter Furtado veio para Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, uma “escola técnica de elevada qualidade”. Mas como não proporcionavam acesso direto à universidade “tive de lá chegar através do então Instituto Comercial de Lisboa, que lecionava os cursos de Contabilidade e a Secção Preparatória”. Lá foi para Lisboa, com uma “bolsa de estudo concedida pela Junta Geral de Ponta Delgada”. Se no início achou Lisboa uma cidade grande, com o passar do tempo, foi mudando de ideias, “porque via que no mesmo café havia sempre as mesmas pessoas, e às tantas já era conhecido (…)”. Finalmente, diz, “consegui chegar a económicas, ao então Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa e logo no segundo ano fui monitor”. Terminado o curso, “fui contratado como assistente, e, nesta condição lecionei e participei na formação de dezenas de economistas, função que também exerci na Universidade dos Açores e, constituiu para mim um momento alto de realização e felicidade na minha vida. Ser professor mais do que uma profissão é uma missão”.“Sempre sonhei regressar aos Açores, porque gosto muito dos Açores”, explica Gualter Furtado, confessando que “sentia-me querido no meio em que estava inserido em Lisboa, mas faltava qualquer coisa... Entretanto, casei-me, tive a minha filha e o meu filho. Houve uma altura em que ainda coloquei a hipótese de ir viver para o Alentejo, mas faltava o mar (...)”.Sobre a sua atividade profissional, quer na banca e mesmo na política, refere que “nunca foi fácil, os desafios e as dificuldades foram enormes, mas tenho muito orgulho em afirmar que na banca e com responsabilidades, as instituições por onde passei e enquanto lá estive, sempre tiveram resultados líquidos positivos (...)”. Lembrando o seu percurso de quando foi secretário regional das Finanças e Planeamento nos IV e V Governos dos Açores, liderado por Mota Amaral, refere que teve de enfrentar dois choques muito fortes. O primeiro foi ter de “lidar com a perda total das receitas provenientes da Base das Lajes. Mesmo com todas as dificuldades surgiu ‘aquela janelas’ dos fundos comunitários específicos para as Regiões Ultraperiféricas, que se mantém até ao presente. O primeiro programa com fundos estruturais que construímos foi o PEDRAA I”. O segundo, “foram as consequências do mau relacionamento das relações existentes entre Mota Amaral e Cavaco Silva, uma situação que hoje já esqueci”. Orgulha-se muito do trabalho desenvolvido pelo Grupo de Trabalho, em que participou, para preparar a primeira Lei das Finanças Regionais, no tempo dos governos do Carlos César, nos Açores, e, na República, do Governo de António Guterres como primeiro-ministro, tendo como ministro das Finanças o saudoso António Sousa Franco”. Orgulha-se igualmente de ter presidido ao Conselho Económico e Social dos Açores (CESA), a “convite do então presidente Vasco Cordeiro. Foi uma missão que me deu muita honra em desenvolver e num ambiente de elevada participação dos parceiros sociais. E também recentemente ter presidido ao Grupo de Trabalho que preparou a proposta de Plano Estratégico da Universidade dos Açores para os próximos anos, a convite da Magnífica Reitora, uma missão que me deu muita honra em desenvolver e num clima de grande entrega de todos os membros da comissão”. É com enorme gratidão que recebeu todas as homenagens que lhe foram sendo feitas ao longo dos anos. "Recordo, entre outras, a homenagem dos Amigos das Furnas, realizada nos Estados Unidos nos anos 90; a distinção como Cidadão Honorário do Concelho da Povoação; os reconhecimentos da Associação Seniores de São Miguel e da Associação de Imigrantes nos Açores; o Prémio Carreira atribuído pela Ordem dos Economistas; e o Prémio Carreira na Área da Gestão, atribuído pela Associação dos Antigos Alunos do ISEG; o Prémio Carreira nas 100 Maiores Empresas do Açoriano Oriental e as várias homenagens que me foram prestadas por caçadores, designadamente nas ilhas do Pico e da Graciosa”. Tem também um significado muito especial a Insígnia Autonómica de Reconhecimento atribuída pela Assembleia Legislativa dos Açores e a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito pela Presidência da República. “Recebo todas estas distinções com gratidão, mas também com humildade. Mais do que reconhecimento pessoal, vejo-as como uma responsabilidade acrescida e como um estímulo para continuar a servir”. É por isso que, com felicidade no rosto, diz: “tive uma vida muito intensa, orgulho-me muito de tudo o que fiz” e, “fiz muitos amigos e muitas amizades”. Diz que está “semi-reformado” e, “todos os dias venho para o banco (novobanco dos Açores, desempenhando o cargo de presidente do  Conselho de Administração). Esta é uma casa que me diz muito...”. É uma pessoa de causas, preocupa-se com o futuro dos Açores e, na sua opinião, “mesmo sendo sénior e mesmo que os outros não queiram, enquanto as pessoas têm alguma capacidade e, não me canso de dizer isso, deve-se aproveitar todos os recursos, toda a experiência”. Por isso, “continua a dar o meu contributo na sociedade”.