Tentava pensar que “não havia médico que mais se empenhasse pelos seus doentes”

14 de set. de 2025, 08:00 — Ana Carvalho Melo

Recentemente aposentado, Rui San-Bento, médico especialista em Medicina Interna e Oncologia, e antigo Chefe de Serviço do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), recorda a sua infância e juventude.“Nasci há 69 anos, em casa, na Rua Nova, com o apoio de uma parteira, a senhora Enfermeira Luísa Teixeira, se não me falha a memória. Senhora que voltei a encontrar quando tinha 90 anos, já como minha doente. Era muito diferente. Nascia-se em casa, com todas as consequências que isso tinha, para o bem e para o mal”, relembra, explicando que, nessa altura, se por um lado o ambiente familiar oferecia acolhimento e proximidade, por outro, as condições de saúde eram frágeis, com altas taxas de mortalidade infantil.Filho de um comerciante e de uma professora do ensino primário, Rui San-Bento cedo começou a acompanhar a mãe ao trabalho: “Aos 5 anos, comecei a acompanhar a minha mãe à escola na Calheta. Entrei no ensino primário aos 6 e fui aluno dela. Foi uma experiência fundamental em toda a minha vida.”O caminho escolar não foi simples, e Rui San-Bento recorda o “sufoco” dos exames da 4.ª classe e da admissão ao liceu, etapas decisivas para qualquer jovem da sua geração. Mas, se os livros ocupavam grande parte da sua rotina, o desporto revelou-se uma paixão paralela e estruturante, tendo experimentado várias modalidades: futebol, basquetebol, voleibol, andebol, atletismo e até atividades aquáticas como a natação e a vela. “No liceu, tive o privilégio de ter como professor de Educação Física o professor Augusto Moura, que nos obrigava a experimentar diversas modalidades, porque defendia que só em idades mais avançadas devíamos escolher uma”, recorda.Foi no basquetebol que encontrou maior dedicação, representando o Clube União Micaelense. Ainda assim, o percurso desportivo ficou marcado por episódios caricatos: “Num jogo de juniores contra o Águia dos Arrifes, ao primeiro salto de cabeça com uma bola pesada pela chuva, fiquei knock-out e tive de ser substituído aos 30 segundos de jogo. Deve ter sido um recorde regional da substituição mais rápida.”As atividades náuticas também tiveram lugar de destaque. No Clube Naval de Ponta Delgada, praticou natação e vela em barcos pesados de madeira, usados por todos os atletas. “Foram experiências marcantes, mas cessaram quando fui para Coimbra estudar”, conta.A escolha da Medicina, curiosamente, foi quase fruto do acaso. “A minha grande opção era a Matemática, mas, à última hora, atirei uma moeda ao ar e decidi-me pela Medicina”, conta. O falecimento inesperado do pai, quando tinha 15 anos, e que sempre sonhara ter um filho médico, foi determinante.Em Coimbra, o início não foi fácil: “Ao fim de um ano, a Anatomia era intragável e já preparava a conversa para dizer à minha mãe que ia mudar de curso. Mas depois deu-se o 25 de Abril e deram-me passagem administrativa em Anatomia. No segundo ano tudo mudou com a Fisiologia Humana. A partir daí nunca mais me vi a fazer outra coisa.” Mas a distância de São Miguel pesava. “As saudades eram imensas. Contactava os amigos por carta, porque as ligações telefónicas eram caras e difíceis”, recorda. Ainda assim, manteve o foco nos estudos e concluiu a licenciatura em 1979. Seguiu-se a especialização em Medicina Interna. “A Medicina Interna era a minha grande paixão e a minha grande vontade”, recorda, explicando que essa escolha marcou o início de um percurso profissional que o levaria, inevitavelmente, também à Oncologia. “No meu terceiro ano de estágio de Medicina Interna, contactei com muitos doentes oncológicos e era terrível confrontar aquilo que vinha na literatura com aquilo que nós éramos capazes de oferecer. Isso fez-me começar a perder algumas noites de sono”, acrescenta.Essa inquietação levou-o ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra, onde iniciou um estágio, do qual resultou a base da formação que, anos depois, lhe permitiu criar em Ponta Delgada o setor de Oncologia Médica. “Comecei a trabalhar no hospital de Ponta Delgada a 1 de abril de 1988 e iniciei a atividade de Oncologia em maio de 1988. No entanto, foi a 1 de janeiro de 1989 que o setor de Oncologia Médica foi formalizado no Serviço de Medicina Interna”, realça.Apesar de nunca se ter desligado da Medicina Interna, a Oncologia viria a ocupar grande parte da sua vida profissional. “Nunca fui o internista que gostaria de ter sido, dedicado exclusivamente à Medicina Interna. Mas sempre defendi que a Oncologia devia ser feita por especialistas de Medicina Interna, porque têm uma visão mais global do doente”, recorda.Ao longo dos anos, construiu uma equipa multidisciplinar que fez a diferença no acompanhamento dos doentes oncológicos. “Na Unidade de Oncologia Médica nunca houve acomodados. Procurámos sempre evoluir, trazendo para o nosso lado profissionais de áreas essenciais, como a Psicologia, o Serviço Social, a Nutrição e a Radioncologia”, conta, realçando que esta visão de trabalho em rede e apoio integral ao doente foi uma das suas maiores marcas.A vida pessoal não ficou imune às exigências da profissão. “Não é fácil sair do hospital e ir para casa ser pai e marido. É muito importante ter esse apoio em casa, e nisso eu tive a minha felicidade, com a minha companheira de metade da vida”, revela. Entre os desafios da vida familiar, destaca o papel essencial dos filhos e, mais recentemente, a alegria dos netos: “Dos meus dois casamentos, tive três filhos e, hoje, seis netos. Ontem mesmo estivemos os catorze reunidos, e isso é das maiores recompensas da vida.”Hoje, já fora da prática clínica diária, Rui San-Bento reparte o tempo entre a família e o reencontro com antigos interesses. “Ainda não consegui recuperar tudo o que deixei por fazer, mas recentemente voltei ao mar com amigos de infância. É um regresso que me faz sentir em casa”, conta.E, olhando para trás, resume o caminho com a tranquilidade de quem se entregou por inteiro: “Procurava sentir sempre que não havia médico que mais se empenhasse pelos seus doentes do que eu. Isso dava-me uma satisfação total. O que podia parecer um insucesso nunca foi, porque quando nos empenhamos totalmente, é apenas uma limitação natural da vida profissional”, confessa.