“Tenho um sentido de missão muito grande com este lugar, com os Açores”
5 de out. de 2025, 08:00
— Susete Rodrigues
Licenciado em Turismo e Lazer, com
especialização em Comunicação e Planeamento Cultural, Jesse
James, é curador e programador cultural, é fundador e diretor
artístico do Festival Walk&Talk, agora Bienal, e do espaço
vaga, projetos da Anda&Fala, estrutura que cofundou em 2011.
Foi no espaço vaga que Jesse James
partilhou a sua história, o seu percurso, os seus sonhos. Começou
por nos contar, com orgulho, que é “neto da diáspora açoriana.
Os meus avós emigraram para o Canadá, nos anos 60, e a minha mãe
cresceu em Vancouver, no Canadá. Numas férias de verão conheceu o
meu pai. Entretanto, ele foi para lá e eu nasci. A dada altura,
decidiram voltar, temporariamente, para os Açores, por questões
familiares, mas a minha mãe adorou estar cá e acabamos por ficar.
Ou seja, sou filho de açorianos, cresci aqui, sou dos Arrifes”.
Foi nesta freguesia de Ponta Delgada
que Jesse James estudou. Mais tarde foi para a Escola Secundária
Domingos Rebelo. Refere que “queria ter ido para artes, mas não
aconteceu e fui para a Humanidades. Mas sempre tive esse interesse,
essa curiosidade, pelas artes”. Diz ainda que “tive o privilégio
e a sorte de os meus pais poderem garantir que fosse estudar para o
Continente. Fui para a Guarda, estudei Turismo e Lazer, e depois
especializei-me em Comunicação e Gestão na área da Cultura, já a
querer regressar àquilo que me movia”.
Mal terminou a faculdade na Guarda,
mudou-se para Lisboa, cidade pela qual se “apaixonou”, disse,
confessando: “foi onde, pela primeira vez, me senti confortável,
seguro e onde conheci pessoas com quem consegui criar comunidade”.
Nunca esquecendo os Açores, vinha cá sempre que podia, no verão ou
no Natal.
Numa determinada altura, despediu-se de
um trabalho “onde já não queria estar, e em conversa com uma
amiga, a Diana Sousa, pensámos que era bom fazermos coisas em São
Miguel, porque somos daqui”, lembrando que “estamos ali entre
2010-2011, em plena crise da troika (...)”. Salientou que “por
alguma razão, decidimos regressar aos Açores. Pensamos muito no que
é que poderíamos fazer ou poderíamos acrescentar à nossa terra e
ao nosso lugar”. Foi nesta ocasião que surgiu a ideia da
realização do Walk&Talk, mas era necessário “criar uma uma
entidade para conseguirmos organizarmos o festival, e criamos a
Anda&Fala. É assim que começa essa aventura de imaginar um
festival de artes nos Açores”.
Tornou-se, pois, um projeto de vida e
“tem sido muito prazeroso vê-lo crescer e chegar ao ponto em que
está agora, que é uma Bienal de Artes, com uma escala e com uma
dimensão internacional afirmada, com um espaço, como a vaga, que
tem programação ao longo do ano e que se tornou num espaço muito
importante nas dinâmicas culturais da cidade e da ilha”, afirmou
para acrescentar que “este espaço (vaga) tem sido um espaço de
imaginação, um espaço de muito ensaio e tem sido muito desafiante
fazer essas coisas todas”.
Como os pais reagiram ao facto de
querer seguir artes? Jesse James começa por dizer que “acima de
tudo eles não me bloquearam. Acho que, se calhar, tinham algum
receio por mim, no sentido de: ‘será que isso vai correr bem?’.
Mas naquilo que eram as ferramentas que eles tinham, sempre me
motivaram e disseram: ‘se é isso que tu queres fazer, vai”. Por
outro lado, “consigo compreender que para eles, à data, fosse um
bocadinho difícil visualizarem no que é que isto ia se
transformar”. Entretanto, “passou-se 15 anos e agora a Anda&Fala
é uma estrutura que tem um orçamento muito generoso, que tem
financiamento da República, regional, municipal, emprega 12 pessoas
a tempo inteiro, com contratos de trabalho. Houve esse caminho de
profissionalização para podermos chegar aqui”.
E durante esse caminho, alguma vez
pensou em desistir? Jesse James salienta que “talvez isso me tenha
ocorrido de uma forma muito breve”. Contudo, “não sou uma pessoa
ambiciosa, mas sou uma pessoa que tem ambição. Para mim são coisas
diferentes e acho que também, junto das pessoas que estão a pensar
os projetos da Anda&Fala, há uma ambição coletiva que fez com
que nunca quisesse desistir”, reforçando que “acreditamos no que
esses projetos estão a gerar neste território, também num processo
de ressignificação do que é esta periferia, do que é esta
insularidade que tem que deixar de ser cinzenta e de ser uma coisa
ancorada numa ideia de isolamento”, disse.
Questionado se sente falta de apoios ou
de abertura das entidades para os projetos, Jesse James refere que é
“uma pergunta difícil, complexa, que não tem uma resposta
direta”, isto porque “há problemas no setor que são
estruturais, que já vêm de há muito tempo e que não são de
resolução fácil”. Na sua opinião é preciso “criarmos uma
rede e o MOVA, o Movimento Cívico de Arte e Cultura nos Açores, da
qual também faço parte, tem esse objetivo, o de agregar,
discutirmos e percebermos como é que podemos encontrar soluções
para esses problemas”. Agora, ao mesmo tempo, “acho que há
evoluções positivas, por exemplo, o facto de termos conseguido
mudar a lei em 2017 e que permitiu aos agentes açorianos e
madeirenses concorrerem a fundos nacionais, mudou completamente o
jogo”. (…) Acrescentou ainda que “houve um processo de
profissionalização nos últimos 10 anos notório. Acho que o
próprio processo da candidatura à Capital Europeia da Cultura gerou
coisas positivas. Por isso, também temos que olhar para aí. Temos
que ver o que é que se conseguiu e, em simultâneo, reconhecer o que
é que não está bem”. “Quando falamos que queremos posicionar
os Açores como território atlântico, na sua relação com os
continentes, americano e europeu, esse posicionamento faz-se com a
cultura. Sem isso, é impossível”, frisou. Nesse contexto, Jesse
James compartilha o sonho de promover uma mobilização social, no
sentido de ”criar entendimentos que melhoram o setor”. Disse
ainda que tem “um sentido de missão muito grande com este lugar.
Quando as pessoas me perguntam, onde é que tu vives? Digo que vivo
no Atlântico porque estou entre Ponta Delgada e Lisboa e, para mim,
é muito importante estar entre esses dois lugares, porque permite-me
gerar movimentos e gerar circulação. Também me permite uma
dimensão crítica do que é este lugar. Quero trazer coisas cá, mas
também quero levar artistas de cá para outros contextos (…). Há
coisas que vão falhar, que não vão correr bem, e lido muito bem
com isso porque a falha é um lugar muito rico, a falha ensina-nos
muita coisa”.
De todos os projetos em que está
envolvido, sem dúvida, que tem um carinho muito especial pelo
Walk&Talk. Mas de forma geral, “tenho tido a sorte de fazer
coisas muito desafiantes em sítios muito diferentes. Faço o Fabric
Arts Festival em Fall River, um projeto também de ligação entre os
Açores, a diáspora e Portugal”. Tem também projetos em Lisboa, e
diz que “2026 vai ser um ano muito interessante para a vaga, porque
também é ano de Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura, da
qual vamos fazer parte. Vamos ter um ciclo que irá se chamar ‘Moving
Ecologies’, a ideia de ecologias em movimento, onde vamos convidar
artistas açorianos e também pessoas do mundo, para pensarem a
ecologia da ilha, em vários sentidos. Acho que esse projeto vai ser
muito interessante. Quero continuar com os projetos da Anda&Fala,
projetos de autonomia e capacitação”.