“Tenho orgulho em ser surda”: como a adversidade se torna numa missão de vida
17 de ago. de 2025, 09:38
— Ana Carvalho Melo
Natural da Madalena do Pico, Ema Gonçalves perdeu a audição aos seis
anos. Ao longo do seu percurso de vida, formou gerações e defendeu a
identidade cultural dos surdos açorianos, através de um caminho marcado
pela resiliência, orgulho e serviço. Como diz com convicção: “Eu tenho
orgulho em ser surda.”“Eu nasci ouvinte”, começou por dizer na
entrevista, relembrando uma infância simples na ilha Montanha, entre
brincadeiras e tarefas na quinta com os irmãos e a irmã.Aos seis
anos, um dia de sol intenso terminou com febres altas e vómitos. Esta
situação levou a mãe, primeiro, a levá-la ao médico no Pico, depois ao
Faial, onde foi diagnosticada com meningite. Após um mês de
hospitalização, recebeu alta sem que ninguém percebesse que tinha
perdido a audição. “Ninguém sabia que eu era surda… Eu fui para casa
toda feliz porque ia para perto da minha família e da minha madrinha,
que era quase uma segunda mãe. Até que um dia me disseram para ir
comprar leite e, quando eu ia pelo caminho, aparece um camião que apitou
várias vezes atrás de mim e eu não ouvi”, conta.“Eu não me lembro
de quando perdi a audição”, refere, contando que regressou ao Hospital
da Horta, onde foi confirmada a surdez profunda.“Voltei para o Pico
e, em outubro, comecei a escola super feliz. Na escola, eu não olhava
para a professora, estava muito focada naquilo que fazia, e começaram a
perceber que seria melhor ir para São Miguel, onde havia a única escola
para surdos, o Centro de Educação Especial nos Açores”, recorda.Com
apenas sete anos, Ema Gonçalves deixou a ilha natal para estudar no
Centro de Educação Especial para Surdos, em São Miguel, fundado em 1968,
e onde havia surdos de todas as ilhas: de São Jorge, do Faial, da
Graciosa, da Terceira e de Santa Maria, num tempo em que as viagens eram
feitas de barco no Ponta Delgada. Era a primeira aluna do Pico a
fazê-lo. No início, estranhou a comunicação gestual dos outros meninos:
“Perguntei à minha mãe porque é que aqueles meninos mexiam tanto as
mãos… Ela disse-me: ‘Eles são iguais a ti.’”Esse momento marcou o início de uma ligação vitalícia à comunidade surda.A
adolescência foi marcada por mudanças bruscas. Perdeu a mãe aos 13 anos
e regressou ao Pico, onde sentiu o peso das responsabilidades
domésticas. Foi então que a madrinha interveio para que pudesse voltar a
São Miguel e continuar a estudar ou fazer outros trabalhos.“A minha
madrinha perguntou: ‘O que é que andas aqui a fazer? Tens 14 anos e
vais ficar aqui?’ E eu acabei por responder que sim. Mas a minha
madrinha recusou-se a aceitar isto, começou com telefonemas para São
Miguel a perguntar o que eu queria vir aprender. E, com 14 anos, era uma
miúda, eu acabei por regressar a São Miguel.”No Centro de Educação
Especial dos Açores aprendeu a costurar e conheceu uma professora que
veio da América que lhe ensinou a Língua de Sinais Americana (ASL).
“Comecei a comunicar com ela e a ficar muito curiosa com a língua dela e
os alunos dela”, conta.“Com 18 anos digo adeus ao convento e decido
que quero ser autónoma”, explica, revelando que, ao mesmo tempo,
trabalhava e estudava à noite, completando o ensino básico e secundário.Incentivada pela professora americana, foi para Lisboa tirar o curso de formadores de Língua Gestual Portuguesa (LGP).“Foi
assim um curso muito rápido, porque, como sou surda, adquiri esses
conhecimentos muito rapidamente. De repente nós estávamos ali a
gesticular, a comunicar… Era uma ponte de comunicação, havia uma
ligação”, conta, afirmando: “Até me estou a arrepiar com isto tudo.”Aos
23 anos, regressa e começa a trabalhar na Escola de Educação Especial
de Ponta Delgada, como formadora de LGP, defendendo o uso da variante
açoriana e resistindo à substituição por modelos vindos de Portugal
continental.Determinada a profissionalizar-se, licenciou-se e fez
mestrado na Universidade Católica Portuguesa, conciliando estudos com
trabalho e viagens ao continente.“No final, a minha experiência não
interessava e teria de recomeçar a minha carreira. Então decidi
continuar como formadora de LGP, apesar de ter a formação como
professora”, revela.Hoje considera que “foi muito bom” ter vindo
para São Miguel sozinha e em tenra idade, porque todo o seu esforço lhe
garantiu um “mundo a que não teria acesso se tivesse ficado no Pico”.Em
1993, inspirada pelo que viu em Lisboa, fundou a Associação de Surdos
da Ilha de São Miguel. “Eu não sabia muito bem o que estava a fazer, sou
sincera… Mas sabia que queria criar um espaço para nós”, conta. Começou
numa pequena sala no Centro Educação Especial dos Açores, com festas e
encontros. “Foi um momento em que consegui expandir a LGP em São Miguel”, realça.Aos
poucos, conseguiu intérpretes, financiamento e novas instalações. Três
décadas depois, a associação é um ponto de encontro e apoio, oferecendo
projetos de agricultura, costura, formação, desporto e publicações.“Foi
uma luta muito grande, mas temos conseguido os nossos objetivos”,
refere, explicando que, cada vez mais, recebem pessoas nas atividades
que promovem.Comparando a sua experiência com a realidade atual, Ema
Gonçalves vê mudanças positivas na sociedade: “Hoje em dia já existe
uma integração maior… No meu tempo chamavam-nos surdo-mudo e isso
revoltava-me.” Mas considera que ainda há desafios, como a dependência
excessiva de implantes cocleares e a falta de estruturas para idosos
surdos. O seu grande sonho agora é criar um lar para os mais velhos,
aproveitando parte do antigo edifício na Rua de Lisboa da Escola de
Educação Especial dos Açores: “Temos estado a empoderar os jovens para
que possam tomar conta desta associação. Mas temos estado a lutar para
que o edifício da antiga Escola de Educação Especial dos Açores, na Rua
de Lisboa, seja transformado num lar residencial ou num centro de dia
para surdos”, afirma, questionando qual poderá ser o futuro dos surdos à
medida que envelhecem e necessitam de apoio.