“Tenho algum orgulho na carreira que tive porque nunca enveredei pela vaidade”

5 de jul. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

Natural de Ponta Delgada, Manuel Arruda, abriu o seu livro de memórias e contou-nos um pouco da sua infância e juventude, passada entre a rua Hintze Ribeiro – onde é ainda o único morador residente – e a Senhora da Rosa. Para Manuel Arruda, a infância é recordada como um período de grande felicidade, marcado pela família, pelos amigos e onde a convivência era o centro de tudo. Diz-nos que “foi uma infância muito feliz”. Cresceu com os irmãos e com um grupo de amigos com o qual ainda hoje mantém uma forte ligação.As brincadeiras eram simples, com o futebol a ocupar grande parte dos dias, assim como os jogos de mesa. Os verões eram passados na Senhora da Rosa. A piscina era o ponto de encontro nas manhãs, e à tarde, os amigos juntavam-se para continuar os jogos e prolongar os momentos de convívio. Essa infância, vivida de forma mais livre e com grande proximidade ajudou a criar uma visão de união que acabaria por acompanhá-lo por toda a sua vida. Refere que “não éramos individualistas na brincadeira. Eram sempre atividades em conjunto e isso fez com que fortalecêssemos a amizade entre nós, que é tão forte e que perdura no tempo”.Mas nem todas as recordações são felizes. Aos 15 anos, Manuel Arruda, perdeu o pai. Sendo o mais velho de quatro irmãos, viu a família atravessar um período duro. A mãe ficou responsável pelos filhos ainda jovens, mas “com a ajuda da família e dos amigos conseguimos ultrapassar”.O percurso escolar levou-o até Lisboa, onde frequentou o ISCTE e concluiu a licenciatura em Gestão. No seu regresso aos Açores “tinha duas ou três hipóteses de emprego”, recorda, explicando que na altura “optei por ser técnico da Secretaria da Indústria do governo, na área dos preços, onde aprendi muito. O secretário era o Américo, tínhamos um grupo de técnicos, todos jovens, porque eram poucos aqueles que regressavam do continente - a grande maioria ficava. Mas houve um grupo ainda significativo que regressou e fruto do Governo Regional havia empregos”. Frisa que aprendeu muito, “contactei com os grandes empresários: havia muitas reuniões entre os técnicos da secretaria e os empresários, para fixarmos preços”.Em 1980, Manuel Arruda recebeu o convite de Mota Amaral para ir para a Assembleia da República, um desafio que o obrigava a passar longos períodos fora da ilha, algo que considerava impossível: “Devo dizer que um dos momentos mais complicados, foi chegar a casa e dizer à minha mulher que ia para a Assembleia da República. Já tinha uma filha, ela estava grávida do meu filho, portanto, foi uma situação muito difícil. Mas também muito difícil para ela, porque tinha acabado de fazer estágio na Terceira, ou seja, tinha estado praticamente um ano letivo fora. É evidente que nunca é fácil, mas, felizmente, ultrapassámos”.A passagem pela Assembleia da República foi, segundo conta, uma das maiores escolas da sua vida. Com apenas 27 anos, integrou a Comissão de Economia, onde conviveu com algumas das figuras mais importantes da área, recordando nomes como Vítor Constâncio e António Guterres, entre outros. “Era um miúdo naquela comissão, mas aprendi muito”, afirma.Quando regressa, continuou ligado à administração regional. Foi diretor regional do Tesouro, foi secretário da Juventude e Recursos Humanos, depois “estive um ano e pouco na Assembleia Legislativa Regional, em que presidi ao Grupo Parlamentar e estive oito anos na Câmara Municipal de Ponta Delgada”, disse para sublinhar que “cumpri a minha missão, exigente, mas fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir atingir objetivos. Alguns foram atingidos, outros não, mas tenho a consciência tranquila porque tudo fiz para melhorar a vida dos meus conterrâneos, de modo a que pudessem ter uma vida melhor. É evidente que cometi erros. Entendo que só não comete erros quem não faz nada, mas fiz sempre tudo com enorme dedicação (...)”.A relação com o União Micaelense nasceu praticamente com ele. Conta-nos que o pai era adepto apaixonado do clube e levou essa ligação para dentro da família. Conta que, desde “muito miúdo, que frequentava o Jácome Correia e o bichinho ficou. Joguei no União Micaelense e quando regressei, depois de ter acabado o curso, o União Micaelense atravessava uma fase muito complicada”. Um grupo de pessoas decidiu tentar recuperar a instituição. Foi assim que assumiu responsabilidades no clube. O objetivo era garantir que o União Micaelense continuasse ativo e recuperasse estabilidade. Explica que “após ter ido para o governo, o Gualter Costa ficou no meu lugar, mas sempre que havia eleições, ele telefonava-me, e dizia: ‘Manuel, eu vou agora, mas tu vais na próxima’”. Esteve muitos anos no clube, “o meu filho jogou, os meus netos jogaram... tem vindo a passar de geração em geração. Essas coisas têm muito a ver com uma certa mística que se cria e fomos mantendo essa mística. Creio que fui passando, quer para o meu filho, quer para os meus netos, e sinto-me feliz com isso”. Ao longo dos anos, o União Micaelense viveu momentos de sucesso e períodos difíceis. Quando o clube chegou a níveis competitivos mais elevados, a ambição aumentou, mas também cresceram os desafios financeiros. Admite que “às vezes a ambição ultrapassa aquilo que é possível”. O clube acabou por enfrentar problemas significativos, incluindo a venda do campo de futebol para conseguir cumprir compromissos financeiros. Manuel Arruda nunca abandonou o projeto. “Sair nos momentos difíceis seria uma atitude de cobardia”, disse, para frisar que “felizmente as dívidas estão saldadas e agora vamos ter, num curto espaço de tempo, uma nova direção, e estarei, de fora, sempre a ajudar em tudo o que seja preciso”. Manuel Arruda também esteve ligado ao automobilismo, precisamente ao Grupo Desportivo Comercial. A chegada à presidência do GDC aconteceu quase por acaso. Um grupo de pessoas procurou-o para ajudar a encontrar uma solução para o clube. Quando chegou à sede, “subo os primeiros dois degraus, vêm ao meu encontro duas pessoas e dizem ‘Manuel, há aí um problema... já foste eleito’. Foi assim que fui presidente do comercial”, disse bem disposto. Com uma equipa dedicada, “fizemos um bom trabalho”, afirmou para recordar que “tive sempre o apoio do César Torres, que na altura, era o homem que ponha e disponha no desporto automóvel em Portugal e na própria FIA. Entramos para o Europeu, fomos subindo de coeficiente - na altura era 2, 5, 10 e 20 - chegamos ao coeficiente 10”. Tudo era gerido com um enorme cuidado, “de modo a que, num ano, pudéssemos fazer as maiores aventuras, e no seguinte tínhamos de pagar o que ficávamos a dever do ano anterior - e tenho muito orgulho em dizer que quando saímos do Comercial deixámos dinheiro. É evidente que os tempos eram outros”. Lembra ainda de “Mário Riley, que era o diretor de provas. Era um homem extraordinariamente empenhado, conhecedor”. Naquela altura, todos eram voluntários, e “foi assim que foi possível irmos subindo”, disse, contando uma história engraçada: “Um inspetor de nacionalidade alemã nas Sete Cidades veio comigo e perguntou: ‘a ambulância está aqui só tem uma maca? Eu, com alguma irresponsabilidade, disse-lhe, o senhor teve azar, a única ambulância que só tem uma maca é esta porque todas as outras têm duas’. Era exatamente o contrário, mas o senhor aceitou. (…) Isso para dizer que fomos ultrapassando enormes dificuldades e conseguimos com que o Rali dos Açores fosse uma prova interessante, quer de âmbito regional, nacional e europeu”.A passagem para a reforma não foi imediata. Habituado a começar cedo os seus dias, teve de encontrar uma nova rotina. Aos poucos, adaptou-se. Agora ocupa o tempo com as “estufas, jogo bridge com amigos, tenho vários almoços por semana com vários grupos de amigos, algumas viagens”. Também dedica tempo à família, especialmente aos netos, que considera uma das suas maiores prioridades.Quando olha para trás, diz que não tem arrependimentos, referindo mesmo: “tenho algum orgulho na carreira que tive porque nunca enveredei pela vaidade. Sempre fiz tudo com muita simplicidade. Tentei nunca ultrapassar uma ética que considero fundamental em qualquer aspeto e, portanto, devo dizer que durmo muito descansado e com a noção do dever cumprido”. O maior desejo que mantém agora é simples: acompanhar os netos, que “eles desempenhem atividades que gostem e que se sintam felizes”. É também continuar ao lado da mulher, com quem partilha 52 anos de casamento, e aproveitar uma vida tranquila depois de décadas de dedicação à comunidade.